Walter Alves / O Estado do Paraná
O dentista Carlos Justo diz
que o horário é acessível.

O projeto da organização não governamental (ONG) Bombinhas Ação Laços e Braços (Balb), que desde dezembro de 2001 realiza trabalho odontológico gratuito com os nativos da localidade de Nova Brasília, na Ilha do Mel, está ameaçado de acabar. A não- renovação de um convênio entre a ONG e o município de Paranaguá pode causar o fim do projeto.

No início, o casal de dentistas Carlos Justo e Karin Ermel, responsáveis diretos pelo projeto, faziam o serviço sem qualquer recurso, ganhando moradia e alimentação dos próprios moradores da ilha. Com o passar do tempo, ganharam reconhecimento e alguns apoios, como do juiz Alceu Ricci Filho, do Juizado Especial Criminal da cidade, que destina recursos de multas pagas à Justiça ao projeto. Aos poucos, o projeto cresceu e os dentistas assinaram convênio no início do ano passado com o município, comprometendo-se a estender o tratamento a outras ilhas e ilhotas vinculadas a Paranaguá.

Esse convênio acabou no final do ano passado e, desde então, Justo tenta renovar o contrato, que dava R$ 1,5 mil mensais ao casal. “Em dezembro, o Conselho Comunitário de Saúde aprovou a renovação. Mas o secretário de Saúde de Paranaguá, Paulo Carvalho França, não renovou o contrato e fez uma auditoria em nosso trabalho de maneira distorcida. Essa auditoria foi feita em cinco localidades, envolvendo apenas 50 pessoas. Dessas, vinte nem poderiam ter conhecimento do nosso trabalho, já que nunca estivemos nas localidades de Rio das Pedras e Alexandra”, reclamou Justo, destacando que essa comissão chegou inclusive a invadir o consultório onde acontece o projeto sem a permissão dos proprietários. “O secretário alega que não trabalhamos no horário certo, que nosso serviço é mal feito e não temos registro dos pacientes. Mas é tudo ao contrário.

“Fazemos horários diferentes, à noite, feriados, finais de semana, justamente para facilitar a vida dos pescadores que não podem ser atendidos durante o dia. Temos todas as fichas, chapas e moldes da situação dentária de cada paciente também”, afirmou Justo, destacando que no momento o trabalho está sendo feito somente na Ilha do Teixeira, na base do escambo, como era no início do projeto.

Segundo Justo, entre dezembro de 2001 e dezembro de 2003 foram realizados na Ilha do Mel 220 tratamentos de canal, 160 exames de câncer bucal, 1.076 exames diagnósticos, 1.156 raios-x, 560 extrações de dentes infeccionados, 457 tratamento de gengiva e 2.979 restaurações. “Também foram distribuídas 123 dentaduras e pontes bucais, 3 mil escovas dentais, feitos 355 modelos de gesso e 2.040 escovações supervisionadas escolares”, completou Justo, destacando o apoio que a ONG recebe de entidades como o Conselho Regional de Odontologia.

Secretário está decepcionado com a ONG

O secretário de Saúde de Paranaguá, Paulo Carvalho França, informou que até o meio do ano uma Unidade de Saúde com 250 metros quadrados, contando não só com dentistas, mas também com médicos, será inaugurada em Nova Brasília. O custo do prédio, que está em fase de conclusão, é de R$ 300 mil. França destacou que hoje a Prefeitura já oferece tratamento odontológico na localidade de Encantadas, além de barcas para que os nativos se tratem no continente.

Quanto à renovação do contrato, França disse que o caso está nas mãos da Comissão de Assistência à Saúde do Conselho Municipal de Saúde. “Eu me decepcionei com o trabalho dessa ONG. Fui um dos defensores, mas hoje estou arrependido. Eles não cumprem o que é estabelecido pelo município como padrão de atendimento”, reclamou, destacando que, se depender dele, o contrato não será renovado. “Vou esperar o parecer do conselho, posso renovar só com a decisão do órgão. Mas pessoalmente acho que não deva ser renovado”, sentenciou, destacando que o trabalho apresentado não é o ideal. “Tenho responsabilidade aqui. Não posso ficar gastando dinheiro do município em projetos duvidosos”, afirmou.

Em dezembro de 2002 aconteceu um incêndio na Unidade de Saúde de Nova Brasília. Desde então, a comunidade ficou sem tratamento odontológico vindo do município. “Foi esse um dos motivos que fez que um dia eu apoiasse esse projeto”, revelou o secretário, destacando que a ONG negou-se a receber apoio em material odontológico. “Eles só querem dinheiro”, afirmou. (LM)