Foto: João de Noronha

Trecho faz parte de um dos mais famosos biomas do mundo, a Mata Atlântica.

Polêmicas à parte, indiscutível mesmo é a beleza do Caminho do Itupava. Toda a riqueza natural da Serra do Mar, de cachoeiras, rios e plantas, aliada à história do trecho fazem do percurso muito mais que uma aventura: uma experiência fantástica. O caminho vai de Borda do Campo, região de Quatro Barras, até Porto de Cima, município de Morretes. São cerca de sete horas de caminhada. Seja qual for o ponto de partida, a paisagem com certeza é única.

Representante da Secretaria de Estado da Saúde, o aventureiro Henrique Schmidlin, Vitamina, conhece muito bem o Itupava. Ao guiar a equipe de O Estado, ele deu algumas dicas de como percorrer a trilha. ?Ao caminhar pelo Itupava, você deve imaginar que este foi um dos únicos meios de acesso do porto, litoral, até o planalto. A história é a primeira relevância. É a nossa raiz. O segundo aspecto a se respeitar é que este pedaço faz parte de um dos mais famosos biomas do mundo, a Mata Atlântica. Aqui, você pode atravessá-la de ponta a ponta, observando a riqueza da fauna, da flora e da água?, indica Vitamina.

Schmidlin ainda destaca alguns pontos especiais do caminho. São eles: a Boa Vista, junto com o Morro do Pão-de-ló, que ?é importante porque de lá via-se todo o planalto curitibano, na subida da serra?; a Casa Ipiranga, ?de 1880, hoje lamentavelmente destruída?; o Salto Itororó; a Passagem do Cadeado e o Rio São João.

História

Outro ponto interessante do Itupava é a história, hoje resgatada pela arqueologia. O diretor do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Igor Chmyz, fez o levantamento arqueológico da trilha. ?O caminho, no geral, é um sítio arqueológico. O Itupava se originou de um caminho indígena. O calçamento veio depois, no século 19, dando melhores condições de uso, pois até então era de chão batido?, comenta.

Segundo o arqueólogo, entre as ruínas que se apresentam no percurso, estão os estabelecimentos de descanso dos tropeiros e as ruínas dos antigos engenhos da erva-mate. ?O caminho tem um valor muito grande. Está disponível para a população, mas devemos nos preocupar em preservar esse patrimônio riquíssimo?, afirma.

Cuidados

O técnico do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) Lothário Horst Stoltz Júnior, o Kiko, é responsável pelo Caminho do Itupava, em Morretes. Percorrendo o trecho, quase que diariamente, ele também conhece cada detalhe. Kiko aponta as inúmeras belezas da trilha, mas alerta para o possível desaparecimento das mesmas, se não forem cuidadas. ?A visitação desordenada, como os acampamentos em lugares impróprios e a retirada das pedras, é um problema que hoje enfrentamos e que pode destruir o caminho. Além de uma equipe maior, de pessoas capacitadas para controlar isso, é preciso também que se tenha consciência?, conclui.

Local abriga muito material arqueológico

Por muitos, o Itupava é considerado uma fonte de beleza natural inesgotável. Para alguns, além disso, o caminho é também uma fonte riquíssima de estudos e descobertas. Segundo o arqueólogo Júlio Telles Thomaz, o caminho é uma unidade que remonta ao século 19. ?Por quase 300 anos ele serviu de ligação entre Paranaguá, Morretes e Curitiba. Muita técnica aplicada ali na época, a gente ainda não estudou. Por isso, o caminho é uma riqueza?, diz.

Em um levantamento que Júlio fez em 2001, junto com Igor Chmyz, da UFPR, e durante o acompanhamento das obras de restauro, muito material arqueológico foi encontrado. ?Temos bastante material, gostaríamos de abrir para a população, mas ainda não há como. Estamos em fase inicial de análise do material. São restos de louças, metais, ferraduras, garrafas, objetos que recontam a história do local?, completa Júlio.

De acordo com o também arqueólogo Igor Chmyz, o caminho calçado, que hoje se percorre, está topograficamente assinalado nos mapas, mas não é o original.

?Alterações foram surgindo ao longo dos anos. O importante para as pesquisas arqueológicas seria encontrar o traçado original do caminho.? Segundo ele, há fortes indícios de que seja indígena. ?Encontramos sítios arqueológicos próximos ao caminho, representados por uma casa subterrânea e um aterro funerário. Para descobrir essa origem, é preciso um intenso estudo arqueológico do local. É um assunto que ainda envolve muita pesquisa?, afirma.

Ele completa que ?o importante, por hora, é que a trilha seja preservada, para que esteja disponível para estudos futuros?.