Mesmo com pouco mais de um metro e meio de altura, o pequeno Kesley Veríssimo Prado de Oliveira, 6, possui uma grande responsabilidade. Filho de pais cegos, desde os três anos de idade ele os ajuda com a orientação pelas ruas de Curitiba. Uma das primeiras coisas que o menino e o irmão aprenderam foi o que significam as cores do semáforo e mesmo no colo dos pais os dois já indicavam os cruzamentos e buracos por onde passavam. Hoje o garoto sabe de cor o caminho até sua casa, bem como se virar pelas ruas. “Acho importante ajudar minha mãe”, diz.

A mãe dos meninos, Luzia Prado de Oliveira, 35, tem uma explicação para a desenvoltura dos filhos. “Eu digo que filho de cego é mais espero de que filho de quem enxerga porque aprende desde cedo a se virar e a ajudar”, explica. Mas para por aí a tarefa dos irmãos para ajudar os pais a superar a deficiência. O casal não deixa de sair porque está sem os filhos, principalmente no São Braz, onde moram e dispensam a bengala para caminhar pela redondeza. O marido trabalha em duas escolas como contador de histórias enquanto Luzia comanda todas as tarefas domésticas. “Há um tempo vi uma novela que tinha um homem cego e pensei: homem é mais fácil. Porque não mostram uma mulher cega, que lava, passa, cozinha e cuida das crianças?”, brinca.

Luzia perdeu a visão aos seis anos depois de sofrer com um glaucoma ocasionado por toxoplasmose. Ela conheceu o marido no Instituto Paranaense de Cegos, onde disse ter descoberto que cegos também podiam estudar. “Estudei até o Ensino Médio e não fiz faculdade. Logo tive filhos e a prioridade são eles”, diz. Luzia então optou por cursos técnicos e hoje trabalha em casa como massoterapeuta.

A independência de Luzia resultou também em algumas situações inusitadas pelas ruas de Curitiba. Além do preconceito que enfrenta, especialmente para encontrar emprego, ela conta que é difícil enfrentar os buracos, postes e telefones públicos que ficam no meio da calçada. Assim, já caiu em buracos, escorregou no piche de asfalto e até foi atropelada por carrinheiros. Nada demais para quem já superou a falta da visão.

Marco Andre Lima

Sem calçada

Quando volta da escola pela rua Dr. Leão Mocelin, a estudante Amanda Anjos, 13, enfrenta uma verdadeira prova de obstáculos. Sem calçada em um trecho da rua, ela segue pela grama ou então precisa desviar de buracos. “Quando chove fica escorregadio. Eu já caí numa descida, foi o maior mico”, lembra.

Marco Andre Lima

Vão com tudo

A microempresária Lilian Maria da Silva, 35, espera que algum redutor de velocidade seja instalado na rua Marcos Mocelin. A via foi recuperada recentemente e os motoristas aproveitam para abusar da velocidade. “Eles descem com tudo. O filho da minha vizinha já foi atropelado duas vezes”, conta. Ela diz ainda que o movimento na rua fica maior no fim da tarde.