Foto: Lucimar do Carmo
A supermãe Josefina Dias de Souza
com a filha Jovelina Dias da Silva,
de 26 anos.

Apesar de todo apelo comercial que envolve a data, não há ninguém que mereça um dia totalmente voltado a elas quanto as mães. A maioria das mulheres, quando tem um filho, transforma toda a vida, coloca suas próprias necessidades em segundo plano e passa a ter como prioridade o bem-estar da criança.

Segundo a psicóloga Rosemari Kruger, as mudanças começam a acontecer logo que a mulher descobre que está grávida. “Uma série de hormônios invade o organismo da mulher, que precisa começar a administrar um novo corpo e também uma nova realidade”, afirma. “Porém, se o filho é desejado e foi gerado em um bom momento da vida – em que existe maturidade emocional e situação econômica estável – essas mudanças são tidas como positivas e muito bem aceitas”.

A partir do momento que sabem que vão ser mães, as mulheres tomam consciência de que nunca mais estarão sozinhas. Elas deixam de ser filhas e passam a assumir o papel que antes era de suas próprias mães, tendo sempre alguém com quem se preocupar e por quem tomar decisões. “Tanta responsabilidade geralmente traz inseguranças. As mulheres precisam aprender a administrar cada fase, desde a gestação até cada período da vida do filho.”

Situação delicada

A gravidez também traz uma série de expectativas. Assim que a mulher recebe o resultado positivo, começa a idealizar o filho e a fazer uma série de planos. Se a criança nasce com algum tipo de problema, seja ele físico ou mental, a mãe precisa rever tudo que planejou e quase tornar-se uma “supermãe”. Porém, o primeiro sentimento geralmente é de culpa e frustração. “Quando o bebê nasce com algum tipo de deficiência, os sentimentos da mãe se tornam confusos. Ela começa a procurar culpados e a se perguntar porque aquilo aconteceu justamente com ela”, explica a psicóloga. “A rejeição inicial pela situação é considerada normal, mas quando a mãe passa a ver o ser que criou como uma criança que precisa de amor e proteção, sem rotulá-lo, as coisas começam a se ajeitar.”

Mães especiais

A auxiliar de enfermagem Terezinha Calonaci viveu na pele a situação. Há dois anos, já mãe de outros quatro filhos, ela deu a luz à pequena Keryn Kassiani. Quando a menina nasceu, a alegria foi imensa, mas as angústias começaram no momento em que Terezinha descobriu que a filha tinha problemas de locomoção. “Descobri que minha filha não conseguia mexer direito as pernas e os braços, quando ela tinha seis meses de vida. Me desesperei e tive a impressão que o mundo estava vindo abaixo”, conta.

Com o apoio da família, a auxiliar de enfermagem buscou tratamento para a filha, que hoje apresenta uma série de melhoras. Para cuidar da menina, ela acabou abandonando a vida profissional. “Como tenho que levar minha filha ao médico e a sessões de fisioterapia, ainda não consegui voltar ao trabalho. Entretanto, abrir mão de minha vida profissional em função de minha filha não é visto como um grande sacrifício. Gosto de dar a atenção de que ela precisa e conto com o apoio de meus familiares.”

A primeira filha da pediatra Maria Letícia Monte Serrat Titton, que se chama Florise e nasceu há 26 anos, é portadora de autismo. Apesar de ser médica e ter um conhecimento mais aprofundado do problema do que a maioria das mães, a situação não foi mais fácil para ela. “Independente de você ser médica ou não, no começo o impacto é muito grande. Como outras mães, me senti muito revoltada e desestruturada por ter uma filha portadora de deficiência”, lembra. “A situação só se tornou menos complicada quando passei à aceitá-la. A partir daí, comecei a me relacionar com mais facilidade com minha filha e planejar o que iria fazer para que ela pudesse atingir todas as suas potencialidade. Hoje tenho outros dois filhos e me dou muito bem com todos, além de conseguir dar continuidade à minha carreira profissional.”

1 é pouco, 2 é bom, 24…não é demais

Se enfrentar uma gestação já pode parecer um desafio a grande parte das mulheres, ter 24 é encarado como uma missão quase impossível. Esse é o pensamento da maioria, mas não da dona de casa Josefina Dias de Souza, de 61 anos de idade.

Ela teve 24 gestações, sendo duas de gêmeos e a primeira aos treze anos de idade. Dos 26 filhos que gerou, dezessete estão vivos. O mais novo está com 20 anos de idade. “Não planejei ter tantos filhos, mas eu vivia na roça e não conhecia os métodos para evitá-los. Quando eu via, um filho tinha nascido e eu já estava grávida de outro”, conta.

Josefina teve todas as suas crianças de parto normal e na própria casa, sem assistência médica alguma. “Hoje as coisas são muito mais fáceis. Tem cesariana e hospitais para atender as mães. Apesar de tudo isso, muitas grávidas ainda reclamam”, comenta.

Morando em Campo Mourão, Josefina conseguiu sustentar os filhos com o que produzia na lavoura. “Antigamente, na roça, as coisas eram mais fáceis. Na cidade grande, a vida é bem mais cara e fica mais difícil criar os filhos. Eles dão muitos desgostos, mas também muitas satisfações”.

Uma das filhas da dona de casa, a zeladora Jovelina Dias, de 26 anos, conta que considera a mãe uma heroína. “Tenho dois filhos, um de 4 e outro de 7 anos, e já acho um desafio conseguir criá-los. Para mim, apesar do exemplo de minha mãe, ter 26 filhos parece uma grande loucura”, afirma.

Gravidez: facilidade x desafio

Conseguir engravidar é uma tarefa simples para a grande maioria das mulheres. Porém, para algumas é um verdadeiro desafio. Em todo mundo, mulheres de diferentes idade precisam recorrer a métodos como inseminação artificial e mesmo barriga de aluguel para conseguirem se tornar mães.

Em Curitiba, depois de seis anos de tentativas e cerca de R$ 6 mil gastos em tratamentos, a comerciária Rosângela Fátima Rodrigues, de 25 anos de idade, vai viver hoje o seu primeiro Dia das Mães. Ela vai estar na companhia das gêmeas Heloíze e Hemanuelle, nascidas no último dia 8 de janeiro.

Logo que Rosângela casou, começou a pensar em ter um filho. O sonho foi por “água a baixo”, depois que ela descobriu que tinha endometriose – doença ginecológia que afeta mulheres em idade reprodutiva e pode interferir na fertilidade – e precisaria se submeter a uma cirurgia. Para complicar ainda mais a situação, exames revelaram que o marido da comerciária tinha baixa produção de espermatozóides. “Eu me sentia muito frustrada e sofria com a cobrança dos familiares. Todos os anos, no Dia das Mães, eu me perguntava se nunca conseguiria realizar o sonho de ter um filho”, recorda. “Tentei diversos tratamentos e nada dava certo.”

No ano passado, Rosângela e o marido decidiram fazer uma inseminação artificial. A gravidez, constatada logo na primeira tentativa, surpreendeu até a equipe médica que os atendeu. “Hoje, com minha filhas ao meu lado, vejo que todas as tentativas valeram a pena. Se fosse preciso, eu faria tudo de novo e não me importaria em gastar o dobro do dinheiro que gastei para conseguir ser mãe. Estou muito feliz e, se possível, daqui a alguns anos, talvez eu tente engravidar novamente.”

Na prisão, ansiedade para rever os filhos

A preocupação das mães com seus filhos costuma ser constante. O simples fato de elas passarem alguns dias longe deles já faz com que comecem a imaginar se eles estão dormindo direito, se agasalhando bem para ir à escola e comendo alimentos saudáveis. Porém se a distância deles é longa e a comunicação é limitada por um grande período de tempo, as angústias se tornam ainda maiores.

Na Penitenciária Feminina de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, a preocupação e a saudade dos filhos fazem com que diversas detentas percam noites de sono e rezem para que o tempo passe mais depressa. “Penso todo dia em meus filhos. Não consigo ficar sossegada e escrevo diversas cartas para eles. Sempre os aconselho a estudar bastante e trabalhar”, conta a detenta Malvina Liber Antunes, que tem 46 anos de idade e quatro filhos, de 6, 16, 20 e 24 anos.

Malvina está presa há sete anos e ainda tem dois anos de pena a cumprir. Há seis meses ela não vê a filha mais nova, que junto com os irmãos mora no município de Pinhão, no Norte do Estado. “A saudade é muito grande e se torna ainda maior em dias festivos, como Natal e aniversários. Há alguns meses, um de meus filhos se casou e me senti muito frustrada por não poder assistir à cerimônia”, lembra. “Infelizmente, eles estão longe e os vejo poucas vezes ao ano. É muito difícil”.

Outra que não consegue deixar a preocupação de lado é Ivonete de Souza Machado, de 32 anos, que está presa há dois ano e ainda tem outros quatro para cumprir. Ela tem dois filhos, um de três anos e outro de 14, que andou se envolvendo com drogas depois que ela foi presa. “Meu filho mais novo ainda é pequeno e não me preocupo tanto, mas o mais velho dá muito trabalho ao pai. Fico muito nervosa quando penso que ele pode estar fazendo coisas erradas. Não consigo dormir de tanta preocupação”, diz.

Para tentar se distrair, Ivonete trabalha confeccionando palmilhas dentro da prisão. Ela ganha cerca de R$ 180 por mês e envia quase todo dinheiro aos filhos. “Só fico com o mínimo para me manter dentro da penitenciária. Fico mais tranqüila em saber que, apesar de estar aqui, estou conseguindo prestar alguma ajuda a eles”. Os filhos de Ivonete vivem com o pai em Jacarezinho, no Norte Pioneiro.

Creche

Apesar de estar presa, a detenta Ariete Aparecida Bueno, de 38 anos, consegue conviver com o filho mais novo, que tem seis meses de vida. Isso graças a uma creche instalada dentro da penitenciária, na qual os filhos das presas podem ficar até três anos de idade. “Tenho outros quatro filhos fora da penitenciária, mas é uma tranqüilidade ter o mais novinho aqui comigo, pois ele é o que mais depende de mim”, comenta.

Ariete deve sair da prisão daqui a um ano e não vê a hora de estar junto dos outros filhos novamente. “Meu filho de dois também poderia ficar comigo, mas achei que ele está melhor do lado de fora. Optei em ficar com o menor porque ele ainda não pode entender onde está. Ele me traz muita tranqüilidade e faz com que meu tempo na prisão passe mais rápido”.