Trânsito

Motos, celulares e álcool: jovens são as principais vítimas do trânsito no Paraná

O crescimento da frota de motocicletas e o aumento do uso desses veículos para trabalho ampliaram a exposição dos jovens aos riscos no trânsito. Foto: Giuliano Gomes/Detran-PR
O crescimento da frota de motocicletas e o aumento do uso desses veículos para trabalho ampliaram a exposição dos jovens aos riscos no trânsito. Foto: Giuliano Gomes/Detran-PR

Os jovens continuam sendo os principais protagonistas de uma estatística preocupante no Paraná: a de vítimas de colisão no trânsito. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) mostram que quase metade das internações por lesões causadas por acidentes de trânsito em 2025 ocorreu entre pessoas de 20 a 39 anos. O perfil também se repete entre as mortes registradas nas rodovias e vias urbanas do estado.

Mas por que justamente essa faixa etária aparece com tanta frequência nos levantamentos? A resposta passa por fatores comportamentais, psicológicos e também por mudanças na forma como as pessoas se deslocam e trabalham, especialmente com o aumento da circulação de motocicletas.

Segundo a Sesa, o sexo masculino representou 76,5% das internações por lesões no trânsito no ano passado, enquanto pessoas entre 20 e 39 anos responderam por 49,4% dos casos. Entre as mortes, a mesma faixa etária concentrou 40% dos registros. As motocicletas aparecem como um elemento central desse cenário, sendo responsáveis por 67,5% das hospitalizações relacionadas ao trânsito.

Comportamentos de risco ajudam a explicar o perfil das ocorrências 

Para Mauro Gil, um dos fundadores do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), o fenômeno não é exclusivo do Paraná nem do Brasil. Ele explica que jovens entre 18 e 29 anos figuram entre as principais vítimas de acidentes de trânsito em praticamente todo o mundo. “Os sinistros rodoviários são a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos, tanto no país quanto no mundo”, afirma.

De acordo com ele, há uma combinação de fatores que ajuda a explicar o protagonismo dos jovens entre as vítimas de colisão no trânsito. Além da maior exposição devido ao volume de deslocamentos, existe uma tendência mais frequente à adoção de comportamentos de risco. “O amadurecimento completo acontece por volta dos 25 anos. Alguns jovens apresentam maior necessidade de buscar sensações fortes e acabam subestimando os riscos”, explica.

Outro elemento citado pelo especialista é a chamada “ilusão de invulnerabilidade”, a percepção de que acidentes acontecem apenas com outras pessoas. “Todos recebem informações e conhecem as estatísticas, mas muitos não se enxergam como possíveis vítimas”, observa.

Motocicletas ampliam exposição ao risco

A rotina dos hospitais especializados em trauma confirma o que mostram os números. Segundo a médica emergencista Danieli Dadan, chefe da equipe de Emergencistas do Hospital Universitário Cajuru, os pacientes jovens, especialmente homens, formam a maior parte dos atendimentos relacionados a acidentes de trânsito. “O que mais chama atenção é a gravidade das lesões. Muitos chegam com fraturas importantes, lesões na cabeça e quadros que exigem múltiplas cirurgias, internações prolongadas e reabilitação”, relata.

Na avaliação da médica, comportamentos como excesso de velocidade, uso do celular e consumo de álcool continuam aparecendo com frequência entre as causas dos acidentes. Durante a semana, a distração provocada pelo celular está entre os principais fatores observados pelos profissionais de saúde. Já nos finais de semana, o álcool e a velocidade costumam estar associados aos casos mais graves.

Além disso, Danieli destaca que o crescimento da frota de motocicletas também ajuda a explicar o aumento das vítimas de colisão no trânsito. Segundo ela, a moto se tornou uma alternativa mais acessível de transporte e uma importante ferramenta de trabalho, especialmente para entregadores. A consequência é percebida diretamente nos pronto-socorros. “Os acidentes com motociclistas são os mais frequentes no nosso atendimento e, muitas vezes, chegam com lesões graves”, afirma.

Para especialistas, a redução das mortes e lesões entre jovens depende da combinação entre educação, fiscalização e mudança de comportamento no trânsito. Foto: Geraldo Bubniak/Governo do Paraná.
Para especialistas, a redução das mortes e lesões entre jovens depende da combinação entre educação, fiscalização e mudança de comportamento no trânsito. Foto: Geraldo Bubniak/Governo do Paraná.

A vulnerabilidade dos motociclistas é apontada pelos dois especialistas como um dos fatores mais relevantes para compreender o cenário atual. Enquanto motoristas contam com a estrutura de proteção oferecida pelo veículo, motociclistas dependem basicamente do capacete para reduzir os danos em caso de colisão. Por isso, mesmo acidentes considerados de menor intensidade podem provocar fraturas expostas, traumas cranianos e até amputações.

Danieli ressalta que os impactos vão muito além do atendimento emergencial. Muitas vítimas precisam passar por cirurgias complexas, permanecem internadas por longos períodos e enfrentam meses de recuperação. “O acidente afeta não apenas a saúde física, mas toda a estrutura familiar, social e econômica da vítima”, explica.

Impacto no sistema de saúde

O reflexo também é sentido pelo sistema público de saúde. Somente em 2025, o Paraná registrou 12.697 internações por lesões no trânsito, gerando um custo superior a R$ 23,5 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Para Mauro Gil, a redução do número de vítimas de colisão no trânsito passa necessariamente por uma combinação entre educação, fiscalização e mudança cultural. Segundo ele, campanhas como o Maio Amarelo ajudam a ampliar a percepção dos riscos, mas precisam ser acompanhadas por ações permanentes de conscientização e por uma fiscalização eficiente. “A fiscalização amplia a responsabilidade, mas a educação é o que realmente muda hábitos”, afirma.

Na mesma linha, Danieli defende que a população tenha mais contato com a realidade enfrentada diariamente pelas equipes de emergência. “Muitas pessoas não têm dimensão da gravidade de um acidente até vivenciarem isso de perto. Quando conhecem as consequências reais, a percepção muda”, finaliza.

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