Durante anos, pequenos pedaços de madeira que sobravam da produção industrial da Águia Florestal, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, tinham um destino certo: alimentar as caldeiras da própria fábrica ou de indústrias chinesas. Eram sobras de pinus já cortadas, secas em estufas e aplainadas, mas que não atendiam às dimensões comercializáveis. Até que a empresa encontrou uma maneira de dar a esse material uma nova função: transformá-lo em paredes de casas de alto padrão, projetadas para durar pelo menos 50 anos.
A inovação não está na invenção de um novo material, mas em uma forma diferente de fabricar algo que já existe. Trata-se do CLT, sigla em inglês para Cross-Laminated Timber, ou madeira laminada cruzada, uma tecnologia desenvolvida na Europa e utilizada na construção de casas e edifícios de alto padrão em diferentes países. A Águia Florestal adaptou o processo para aproveitar pedaços curtos de madeira que, até então, só tinham como destino o forno.
A ideia ganhou forma em uma pequena casa de 24 metros quadrados – uma tiny house (mini casa, muito comum nos Estados Unidos). Com quarto, banheiro, copa e mobiliário, a construção saiu pronta da fábrica. Mas o que chama atenção não é apenas a tiny house, que por si só já é novidade no Brasil: é a origem das paredes.
O engenheiro civil Gustavo Taques, da Águia Florestal, que participou do desenvolvimento da solução construtiva, explica que os pedaços reaproveitados vêm principalmente da fabricação de madeiras destinadas aos Estados Unidos, utilizadas em revestimentos, pisos e acabamentos.
“Isso aqui é um material nobre, que já foi seco numa estufa, já utilizou energia e mão de obra para cortar, aplainar”, explica.
Ao transformar essas peças em painéis estruturais, a empresa prolonga a utilização da madeira e agrega uma nova etapa à cadeia produtiva. O material que antes seria queimado para produzir energia passa a integrar uma construção com vida útil de pelo menos cinco décadas.
Como pequenos pedaços viram paredes resistentes
Para entender a inovação, primeiro é preciso conhecer o CLT. Imagine várias tábuas de madeira colocadas lado a lado, formando uma camada. Sobre elas, uma segunda camada é posicionada no sentido contrário, cruzando as fibras da primeira. As camadas (que podem ir de 3 até 7, sempre em número ímpar, conforme a espessura desejada da placa) são coladas e prensadas até formar um painel rígido, capaz de desempenhar funções estruturais em uma casa.
Essas placas podem ser utilizadas em paredes, pisos e lajes. Em vez de erguer uma parede tijolo por tijolo, a construção pode receber painéis produzidos previamente na indústria, já dimensionados conforme o projeto.
Na fabricação convencional, o CLT utiliza lâminas ou peças de madeira relativamente grandes, preparadas para formar as diferentes camadas. A solução desenvolvida pela Águia aproveita as pecinhas curtas (“tocos” de madeira) nas duas faces do painel. Elas são montadas como se fosse um brinquedo Lego ou um quebra-cabeças, com as pequenas peças sendo encaixadas para formar o painel. Apenas a camada central é produzida com uma madeira maior, dimensionada especificamente para essa finalidade.
O resultado é uma placa de três camadas, com 50 milímetros de espessura, fabricada em série com 1,26 metro de largura por 2,70 metros de comprimento. A empresa também trabalha com outras configurações e espessuras, conforme as necessidades estruturais.

Antichamas, anticupim e antimofo
O sistema recebe tratamentos distintos conforme a exposição de cada superfície. Na face destinada ao exterior e na camada interna, a madeira passa por tratamento em autoclave para aumentar sua resistência à umidade, aos fungos e aos insetos. Na face voltada para o ambiente interno, são aplicados produtos superficiais, incluindo proteção contra fungos e retardante de chamas, o que garante tempo aos moradores para escapar em um incêndio.
Para Álvaro Luiz Scheffer, fundador e diretor-presidente da Águia Florestal, o diferencial está justamente nessa transformação. “Não somos pioneiros no CLT, mas somos pioneiros e idealizadores do CLT Águia Florestal, pois não existe outro lugar no mundo que produza o CLT dessa forma, com aproveitamento dos pequenos pedaços”, afirma.
Álvaro diz que a empresa passou por seis anos de testes e estudos, pois era algo totalmente novo, que ninguém tinha experiência. Era preciso entender que cola usar, como a peça já montada ia se comportar na estufa e na autoclave. Foram necessários muitos parceiros e fornecedores para chegar ao resultado final. Mas a inovação, afirma o empresário, é um pioneirismo mundial. “Desta forma, conseguimos aproveitar 100% da floresta plantada. Nada é desperdiçado”, orgulha-se.
Casa que chega pronta e pode mudar de endereço
A pequena casa apresentada pela Águia é uma vitrine das possibilidades do sistema. Projetada pela arquiteta Ana Swiech, a tiny house foi pensada principalmente para hospedagens turísticas, como pousadas e imóveis de temporada, mas também pode atender outras necessidades de moradia.
O projeto foi dimensionado para ser transportado em caminhão, com aproximadamente 3,20 metros de largura e 7,50 metros de comprimento. A construção é fabricada e acabada na indústria, incluindo instalações elétricas e hidráulicas, revestimentos, banheiro e mobiliário.
Ao chegar ao destino, totalmente pronta, a casa é descarregada e posicionada no terreno, onde somente precisa ser conectada às redes elétrica, hidráulica e sanitária. E, diferentemente de uma construção convencional, pode ser transportada novamente para outro local.
Ana explica que a industrialização exige um planejamento cuidadoso. Como os painéis também sustentam a construção, portas e janelas precisam ser posicionadas sem comprometer a resistência das paredes.
“Todo projeto com madeira engenheirada é um desafio, porque a gente tem toda a parte de módulos. O CLT é um material estrutural, então preciso saber muito bem onde posiciono as aberturas da casa”, explica a arquiteta.
O modelo de 24 metros quadrados tem preço inicial estimado em R$ 230 mil, podendo variar conforme a configuração e os opcionais. O valor equivale a aproximadamente R$ 10 mil por metro quadrado, mas inclui uma casa 100% pronta para uso, e não apenas paredes ou estrutura.
Veja como ficou a tiny house:








Da pequena casa a projetos de vários andares
A tiny house é apenas uma das aplicações da tecnologia CLT com reaproveitamento das pequenas peças de pinus. A Águia também comercializa os painéis individualmente e fabrica kits de construção personalizados. Uma casa, recentemente exportada ao Paraguai, foi projetada dessa forma. As paredes em CLT e o banheiro já prontos – já com os cortes de portas e janelas e instalações de infraestrutura previamente incorporadas – foram transportados de caminhão e montados no local, uma área rural.
Neste caso, só foi necessário ter a base (em radier) previamente pronta no terreno. Quando o kit chegou, em uma semana a casa estava montada e pronta.
Segundo Scheffer, essa modalidade tem custo de referência de aproximadamente R$ 3.400 por metro quadrado. O valor se refere a uma solução industrializada, com qualidade, montagem e estrutura diferentes. Por isso, não deve ser comparado diretamente ao preço de uma residência convencional de madeira.
Também não existe a limitação de construir apenas casas térreas. Projetos maiores podem utilizar CLT em combinação com vigas e pilares de madeira laminada colada, conhecida como MLC, ou com estruturas de aço e concreto.
Gustavo explica que a madeira engenheirada já é empregada em edifícios de múltiplos pavimentos no exterior. A definição de quantos andares podem ser construídos depende do projeto estrutural, dos materiais escolhidos e das normas aplicáveis. Ele também explica que são paredes que nunca vão trincar, porque são maciças.
A tecnologia permite, portanto, que a madeira deixe de ser vista apenas como acabamento ou material de casas rústicas e passe a desempenhar funções estruturais em construções residenciais e comerciais de alto padrão.
Pinus: de madeira “inferior” a matéria-prima estratégica
A transformação observada na fábrica de Ponta Grossa ajuda a contar uma história muito maior. Em 2026, o pinus completa 120 anos de introdução no Brasil. Ao longo desse período, passou de uma espécie em fase de experimentação a uma das principais matérias-primas da indústria florestal brasileira.
No início, a abundância de madeiras nativas de maior densidade fazia com que o pinus fosse considerado uma alternativa de qualidade inferior. Sua madeira mais leve, a presença de nós e a necessidade de tratamentos específicos alimentavam a percepção de que não seria adequada a aplicações mais exigentes.
A pesquisa mudou esse cenário.
Experimentos de adaptação ao clima, estudos sobre solos, melhoramento genético e técnicas de manejo permitiram identificar espécies com bom desempenho no país, especialmente Pinus taeda e Pinus elliottii, que encontraram condições favoráveis na Região Sul.
Os avanços também chegaram à indústria. Novas tecnologias de secagem, classificação, colagem, prensagem e tratamento ampliaram as possibilidades de utilização da madeira.
Hoje, o pinus está presente em uma quantidade de produtos que vai muito além das tábuas e dos móveis. É utilizado na fabricação de papel, embalagens, portas, pisos, molduras, compensados, painéis industriais e componentes para construção civil.
Seus derivados também chegam a produtos menos óbvios. A celulose pode ser utilizada em tecidos, cosméticos, alimentos e revestimentos de medicamentos. Já as resinas extraídas de determinadas espécies de pinus fornecem insumos para tintas, vernizes e adesivos. Pesquisas com nanocelulose ampliam as possibilidades de aplicações biomédicas e novos materiais.
O diretor executivo da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas), Ailson Loper, destaca que a evolução dos bioprodutos mostra como a pesquisa continua descobrindo usos para uma matéria-prima cultivada há mais de um século.
Paraná produz mais da metade do volume brasileiro de pinus
O peso dessa transformação é especialmente visível no Paraná. Segundo os dados apresentados pela APRE Florestas na campanha dos 120 anos, o Brasil possui aproximadamente 1,9 milhão de hectares plantados com pinus. Desse total, cerca de 710 mil hectares estão no Paraná, que responde por mais da metade do volume nacional produzido.
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram aproximadamente 89% da área brasileira cultivada com o gênero.
A produtividade também ajuda a explicar a competitividade da madeira brasileira. Conforme os dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) reunidos pela APRE, os plantios nacionais de pinus alcançaram produtividade média de 31,1 metros cúbicos por hectare ao ano em 2024. Entre as empresas associadas à entidade paranaense, o indicador chegou a 34,51 metros cúbicos.
É o resultado de décadas de pesquisa genética e manejo, que permitem produzir mais madeira por área cultivada.
Essa matéria-prima sustenta uma cadeia industrial diversificada. O Paraná lidera as exportações brasileiras de compensados de pinus e molduras e possui participação expressiva nas vendas externas de portas, madeira serrada e outros produtos florestais.
A evolução não se resume, portanto, a plantar mais árvores. Está também na capacidade de transformar o que é colhido em produtos com maior valor comercial.




Pinus: vilão ou aliado do meio ambiente?
A expansão das florestas plantadas – o pinus não é uma planta nativa brasileira – também foi acompanhada por críticas e questionamentos ambientais. Entre eles estão os efeitos sobre o solo, o consumo de água, a biodiversidade e o risco de dispersão de espécies exóticas.
Parte dessas preocupações foi desfeita por diversos estudos e análises, que mostraram que, quando bem manejadas, as florestas plantadas são benéficas. Outras questões ainda exigem cuidados efetivos.
A pesquisadora Yeda Malheiros de Oliveira, da Embrapa Florestas, explica que as florestas naturais são fundamentais para a biodiversidade, a regulação climática e a conservação ambiental. Já as florestas plantadas têm como uma de suas principais funções fornecer matéria-prima renovável à sociedade.
“As florestas nativas ou florestas naturais e as florestas plantadas, dessa forma, se complementam em perfeita sinergia e grande harmonia”, afirma.
A produção comercial de madeira em áreas plantadas pode reduzir a pressão econômica sobre espécies nativas, desde que respeite a legislação ambiental e não provoque a substituição de ecossistemas naturais.
No Paraná, segundo a APRE, as empresas associadas mantêm aproximadamente 564 mil hectares de áreas destinadas à conservação, em uma proporção próxima de um hectare conservado para cada hectare de floresta plantada sob sua gestão.
Sequestro de carbono e armazenamento por mais tempo
Outra contribuição importante da madeira está relacionada ao carbono. Durante o crescimento, as árvores absorvem dióxido de carbono da atmosfera por meio da fotossíntese e incorporam parte desse carbono à madeira. Quando a árvore é colhida e transformada em um produto durável, uma parcela permanece armazenada nesse material durante sua utilização.
É justamente esse processo que Gustavo Taques destaca ao explicar a importância de transformar as sobras industriais em painéis para construção.
Em vez de queimar imediatamente a madeira para geração de energia, a empresa passa a utilizá-la em um produto projetado para permanecer em uso durante décadas. Isso prolonga o período de armazenamento do carbono contido no material.
A construção em madeira também pode reduzir emissões quando substitui, em determinadas aplicações, materiais cuja fabricação demanda mais energia, como aço e cimento. O benefício efetivo depende, entretanto, de fatores como transporte, processamento, tratamentos, vida útil e destinação final dos componentes.
No caso da Águia, a proposta combina o aproveitamento de peças que já haviam passado pelo beneficiamento industrial com a fabricação de elementos estruturais de longa duração. É uma aplicação prática do conceito de economia circular: extrair mais valor de um recurso já utilizado, antes de destiná-lo à recuperação energética.
Uma indústria que vai muito além da madeira bruta
O exemplo da Águia Florestal não é um caso isolado de industrialização da madeira no Paraná. Embora o estado também comercialize matéria-prima, possui uma cadeia de transformação consolidada, com empresas especializadas em produtos destinados aos mercados brasileiro e internacional.
Segundo o Estudo Setorial 2026 da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), o Brasil contava, em 2024, com 21.948 estabelecimentos da indústria madeireira e outros 36.725 ligados à fabricação de móveis de madeira. Juntos, esses segmentos reuniam aproximadamente 376 mil empregos.
Quase metade das indústrias madeireiras brasileiras está concentrada na Região Sul.
A importância econômica também aparece nas exportações. Em 2025, os produtos classificados pela Abimci no segmento de madeira sólida movimentaram US$ 4,84 bilhões em vendas internacionais.
Paulo Pupo, superintendente da entidade, ressalta que o Paraná possui uma indústria diversificada, com produção de compensados, molduras, madeira serrada, portas, paletes e pellets, entre outros produtos. “É uma matriz produtiva muito ampla, bem diversificada e que já vem agregando valor”, afirma.
Para ele, o próximo desafio é ampliar ainda mais esse valor por meio de investimentos em tecnologia, modernização industrial, novos produtos e certificações. A busca por eficiência inclui reduzir perdas na transformação das toras (como fez a Águia inovando no CLT, que transformou um subproduto em material de alto valor agregado), melhorar processos produtivos e desenvolver soluções que atendam às exigências técnicas dos compradores.
A importância vai além do faturamento. Pupo destaca que o setor florestal e a indústria madeireira têm papel relevante na manutenção de empregos em municípios do interior, onde as atividades de plantio, manejo, transporte e processamento movimentam a economia local.
“O papel social do setor florestal paranaense é fundamental para o equilíbrio em muitos dos municípios e regiões, em especial nos pequenos municípios”, afirma.
“Do plantio aos produtos finais, a cadeia produtiva da madeira é uma das mais longas. E quando conseguimos reaproveitar materiais, como fizemos no CLT Águia, prolongamos ainda mais essa cadeia, os empregos e oportunidades”, afirma Álvaro, dono da Águia Florestal.
O desafio de inovar em meio ao tarifaço
Apesar dos avanços tecnológicos, a indústria paranaense enfrenta um obstáculo que evidencia a necessidade de continuar diversificando produtos e mercados: as barreiras comerciais internacionais.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos – atualmente em 37,5% para o setor madeireiro brasileiro, uma das maiores impostas – atingiram duramente o setor, especialmente no Paraná, onde parte significativa da produção industrial foi desenvolvida ao longo de décadas para atender às exigências do mercado norte-americano.
Segundo Pupo, aproximadamente 50% das exportações paranaenses de madeira processada mecanicamente têm os Estados Unidos como destino. Em determinados segmentos, como o de molduras, a dependência é ainda maior: 100%.
A dificuldade não está apenas em encontrar compradores em outros países. Muitos produtos possuem dimensões, especificações e certificações próprias para utilização na construção civil americana.
“Não é uma missão simplista de você pegar 50% de tudo o que o Paraná exporta e apenas desligar a chave e ligar a chave em outro país”, explica o superintendente da Abimci.
A saída envolve investimentos comerciais, prospecção de mercados, desenvolvimento de novos produtos e adaptação às exigências internacionais, na maioria das vezes diferentes conforme o país. Também inclui enfrentar barreiras não tarifárias, como regras de comprovação de origem e requisitos técnicos cada vez mais rigorosos.
Pupo reconhece que o cenário é desafiador, mas destaca a capacidade de reação das empresas paranaenses, que já vêm ajustando volumes de produção, qualificações e processos industriais.
“É um teste de resiliência grande, que é uma característica muito importante do empresariado paranaense e do empresariado brasileiro. São enormes desafios que estamos a enfrentar nos últimos dois anos, mas estamos nos reposicionando à medida que é possível”, afirma.
Depois de 120 anos de pesquisas, adaptações e transformações, a trajetória do pinus mostra que a competitividade brasileira não depende apenas da capacidade de produzir madeira em grande escala. Depende também do conhecimento necessário para encontrar novas aplicações, reduzir perdas e transformar matéria-prima em produtos que o mercado valorize.
Se a história do pinus no Brasil começou com a descoberta de como cultivar uma árvore estrangeira, seu próximo capítulo está sendo escrito por quem descobre novas maneiras de aproveitar cada pedaço dela.
