Desde abril, o nome de Edson Vasconcelos passou a ser conhecido como o escolhido para vice-governador na chapa de Sergio Moro (PL), agora eleito. A partir de janeiro de 2027, o atual presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) será o braço direito de Moro no comando do Executivo estadual. O cargo de vice será sua primeira experiência em um posto político eletivo.

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Natural de Cascavel, no Oeste do Paraná, Vasconcelos é engenheiro civil e empresário, com atuação nos setores de infraestrutura e hotelaria. Desde 2023, preside a Fiep, onde defende a modernização da indústria e o fortalecimento da economia paranaense.

Em entrevista anterior à Tribuna do Paraná, Vasconcelos já havia destacado o papel da entidade na identificação dos entraves ao desenvolvimento do Estado. Na ocasião, abordou gargalos de infraestrutura, custos logísticos e os riscos de limitações no fornecimento de energia para a atração de investimentos.

Agora, em nova entrevista exclusiva à Tribuna, o vice-governador eleito fala sobre a preparação para assumir o cargo e o processo de transição para a gestão de Moro. O trabalho ainda não começou formalmente porque a equipe aguarda o decreto do atual governador Ratinho Junior (PSD).

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O futuro vice-governador também comenta a escolha de Priscilla Maria Santana para comandar a Secretaria da Fazenda a partir de 2027. Ele destaca a experiência da futura secretária em recuperação fiscal e afirma que participou de uma conversa técnica com ela, embora a escolha tenha sido feita por Moro.

Na área de infraestrutura, o futuro vice-governador aponta o fornecimento de energia como um dos problemas que exigirão atenção da próxima gestão. Para ele, a solução passa por investimentos na rede de distribuição. “O problema está na falta de investimentos para dar robustez à rede”, afirma.

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Sobre a Sanepar, responsável pelos serviços de saneamento no Paraná, ele diz que não há discussões, neste momento, sobre mudanças na companhia ou uma eventual privatização. Vasconcelos também defende ampliar a transparência sobre obras, contratos e concessões, com o uso de informações georreferenciadas e observatórios públicos.

A entrevista aborda ainda a relação com os setores produtivos e com o governo federal. Vasconcelos defende o diálogo permanente com representantes da indústria, do comércio e do agronegócio e afirma que o Paraná precisa buscar uma relação mais equilibrada na distribuição de recursos da União.

“O Paraná envia recursos e não recebe recursos na mesma proporção”, declara. Ao tratar do cenário nacional, acrescenta: “Não há política econômica melhor para o Paraná do que a mudança do governo federal”.

Confira, a seguir, a entrevista com Edson Vasconcelos:

Tribuna do Paraná: Estamos ouvindo falar sobre a transição neste período, mas o senhor também está vivendo um momento em que voltou à presidência da FIEP. Como está sendo conciliar a participação na organização da Federação e as preparações para exercer o cargo de vice-governador?

Edson Vasconcelos: “Está tranquilo. Na Federação, temos um planejamento para o quadriênio que já está sendo executado, com bastante alinhamento com a própria diretoria e com todo o estado. Volto, inclusive, para fazer inaugurações. Temos muitos laboratórios, muitas obras e estamos entregando diversas estruturas ao setor industrial.

Também estamos planejando minha saída para que um novo presidente dê continuidade ao trabalho. Por outro lado, a transição ainda não começou. Estamos aguardando o decreto do atual governador. De alguma forma, o processo está um pouco lento, e não sabemos qual será o prazo.”

Tribuna do Paraná: Nesta semana, o próprio Sergio Moro afirmou que o modelo de transição será semelhante ao de 2018. Neste momento, como alguém que tem experiência de atuação direta com a indústria, já existe algum tema que o senhor pretende analisar antecipadamente para discutir questões relacionadas à infraestrutura e ao setor industrial?

Edson Vasconcelos: “A transição é um protocolo de inventário. O atual governo tem total autonomia até o fim do mandato. É um momento para fazer o inventário das ações que o governo está desenvolvendo e cruzar essas informações com o plano de governo. A partir disso, podemos elaborar propostas de reforma administrativa para viabilizar a melhor execução do plano de governo.

Nesse processo, todos aqueles que estiverem incumbidos de seus temas e das possíveis secretarias vão trabalhar no alinhamento com o plano de governo, avaliar as estruturas e entender quais projetos estão em andamento, quais são extremamente importantes e quais precisam ser melhorados. Todo esse trabalho é, essencialmente, um inventário.”

Tribuna do Paraná: Já tivemos o anúncio do primeiro nome para o secretariado: Priscilla Maria Santana. Como esse nome surgiu? O senhor participou da decisão de escolhê-la para comandar a pasta? 

Edson Vasconcelos: “O governador a escolheu. Participei de uma conversa técnica com ela, que foi muito boa. Ela tem uma bagagem muito grande e não é uma secretária que se limita a cuidar da arrecadação do Estado. Tem uma visão ampla da economia estadual, que também se reflete na receita. 

Gostei muito da conversa e percebi que ela tem uma experiência muito grande, principalmente em âmbito nacional, com a recuperação fiscal de estados e municípios. A experiência dela no Rio Grande do Sul também é muito importante.

Estive no Rio Grande do Sul na quarta-feira, na Federação das Indústrias daquele estado, e minha percepção é que o setor produtivo vê nela uma pessoa comprometida com a economia e com a responsabilidade fiscal. Achei isso muito interessante.”

Tribuna do Paraná: Considerando que o primeiro nome anunciado tem um perfil bastante técnico, pode-se considerar que essa característica também apareça nos perfis dos próximos secretários. O senhor já participou de conversas para desenhar a reforma administrativa? 

Edson Vasconcelos: “Isso vai acontecer de forma natural. Será seguido o protocolo de inventário: levantamento da situação, cruzamento com o plano de governo e, a partir das pessoas que o governador trouxer para compor a equipe, os ajustes necessários à reforma administrativa.”

Tribuna do Paraná: Considerando também o seu perfil técnico, houve alguma conversa sobre o senhor assumir diretamente o comando de alguma pasta ou indicar alguém da FIEP com competência técnica para integrar o governo?

Edson Vasconcelos: “Não e também não.”

Tribuna do Paraná: No cenário atual, uma das preocupações levantadas durante a campanha e em momentos anteriores foi o fornecimento de energia e o papel das empresas que temos no Paraná, inclusive da Copel. A própria FIEP já cobrou mudanças porque o fornecimento de energia afeta a indústria. Há alguma medida nesse sentido? O senhor acompanha a discussão?

Edson Vasconcelos: “Sim, isso precisa ser resolvido. Não há espaço para o Estado deixar de solucionar esse problema. Em janeiro, com certeza, o governo terá uma presença maior nesse tema. Não basta simplesmente dizer que a companhia é responsável. O governo terá uma participação robusta, muito robusta, na busca por uma solução.”

Tribuna do Paraná: O senhor imagina que essa solução passa pelo aumento da fiscalização, pela escolha de gestores com perfil mais técnico ou por outras medidas? 

Edson Vasconcelos: “Investimentos assertivos. O problema está na falta de investimentos para dar robustez à rede. Não foi uma deficiência de apenas um ou dois anos. Durante anos, não se percebeu a necessidade de investir em infraestrutura e distribuição.”

Tribuna do Paraná: Outra discussão envolve a Sanepar, que iniciou, em 2025, um projeto para ampliar suas operações e formar parcerias, com a possibilidade de atuar nacionalmente e em outros estados. Já houve alguma discussão para planejar uma mudança ou uma eventual privatização da companhia?

Edson Vasconcelos: “Não há nenhuma discussão sobre isso neste momento.”

Tribuna do Paraná: No campo da infraestrutura, o plano de governo prevê a criação de um Observatório de Infraestrutura, seguindo o modelo do Observatório dos Pedágios da FIEP. Como foi apresentada essa iniciativa e como o senhor imagina ampliar o projeto para que alcance todo o estado?

Edson Vasconcelos: “De forma prática, provavelmente a Federação fará a cessão da plataforma ao Estado do Paraná, para que o governo estadual passe a administrar o projeto.

O Estado provavelmente poderá acrescentar ao Observatório camadas de informações georreferenciadas sobre obras rodoviárias que não estejam necessariamente dentro das concessões, incluindo aquelas que fazem parte de rotas alternativas. Também poderão ser incluídos cronogramas de obras e investimentos e informações sobre prioridades.

Acho que isso acontecerá naturalmente. A Federação também está finalizando o Observatório da Energia, com o georreferenciamento das subestações de transmissão de alta, média e baixa tensão, das unidades geradoras e das capacidades instaladas. Assim, poderemos identificar lacunas e pontos de atenção.

Há também o Observatório dos Portos. Um dos projetos do governo será combater o custo do Paraná. Hoje, temos filas muito caras de navios para carga e descarga nos portos. Por isso, o custo logístico é algo extremamente importante para nós.”

Tribuna do Paraná: A ideia seria transformar o Observatório dos Pedágios em um Observatório de Infraestrutura mais amplo, com informações sobre o andamento das obras contratadas pelo DER-PR, por exemplo? O próprio plano de governo também prevê a intenção de criar observatórios de educação e do trabalho. Como o senhor imagina que essas iniciativas poderão funcionar nos próximos anos?

Edson Vasconcelos: “Acho que o observatório é uma iniciativa voltada a ampliar cada vez mais a transparência sobre os grandes objetivos do governo. Quando falamos de educação, temos bons indicadores de desempenho, mas também precisamos considerar a percepção das famílias sobre o aprendizado dos alunos.

Os indicadores educacionais não podem se limitar ao desempenho. É preciso considerar questões como o ensino em tempo integral e a conexão com o mundo do trabalho. A escola precisa ser vista como uma fonte de futuro. O objetivo do Observatório é permitir que a população tenha acesso fácil, rápido e, muitas vezes, intuitivo aos principais indicadores.

No caso do Observatório dos Pedágios, queremos oferecer acesso intuitivo aos contratos, aos cronogramas de obras e ao georreferenciamento, mostrando qual obra está sendo realizada, em que local e em qual período. A ideia é sempre ampliar a transparência e facilitar o acesso da população às informações.”

Tribuna do Paraná: Uma das questões levantadas pelo Observatório dos Pedágios é a falta de transparência e a demora na atualização de informações, que dependem de dados fornecidos pelas próprias concessionárias. Nesse contexto, o que o senhor colocaria em discussão para ampliar a transparência e garantir que as informações cheguem à população? 

Edson Vasconcelos: “Há um convênio de delegação da ANTT para que a fiscalização fique a cargo da Agência Reguladora do Estado do Paraná. Precisamos acompanhar esse trabalho. A agência tem condições e recursos para isso. 

Queremos garantir não apenas a fiscalização da entrega, da execução e das medições, mas também da qualidade do produto, do pavimento e da estrutura rodoviária. É preciso haver garantias de que o usuário não terá uma obra que, em pouco tempo, deixe de cumprir sua função.”

Tribuna do Paraná: Pensando no G7 e nos representantes da indústria, do comércio e do agronegócio do Paraná, como o senhor pretende usar sua experiência para construir esse diálogo direto com os diferentes setores?

Edson Vasconcelos: “Primeiro, vejo que o diálogo precisa ser permanente. O governo nunca sabe tudo. Quando se fecha em uma sala e acredita que tem todas as soluções, sem manter um diálogo contínuo com os diferentes setores, os trabalhadores, as organizações da sociedade civil, as ONGs e a população em geral, corre o risco de propor soluções que não sejam adequadamente implementadas. Precisamos ter plenitude nesse diálogo.”

Tribuna do Paraná: Como o senhor pretende integrar esse diálogo com o governo federal a partir do ano que vem, considerando as demandas do Paraná por mais recursos?

Edson Vasconcelos: “Eu estou um passo atrás. É o governador quem conduz os diálogos a nível nacional e vou acompanhá-lo na estratégia. Ele já deixou claro que a posição é institucional e que o povo do Paraná é o ponto principal. Mas precisamos sempre lembrar que o Paraná envia recursos e não recebe recursos na mesma proporção. O Estado tem muito pouca dependência do governo federal. Precisamos, de fato, trocar o governo federal. Não há política econômica melhor para o Paraná do que a mudança do governo federal.”