Se tivesse escapado do HIV contraído numa transfusão de sangue, que o matou em 1988, o mineiro Henrique de Souza Filho, o Henfil, estaria completando 60 anos hoje. Desenhista, cineasta, escritor, ele influenciou toda uma geração de artistas com seu humor cáustico e seu estilo despojado, sempre em perfeita sintonia com a realidade política e social do País. No Paraná, o pai do Fradim, do Bode Orelana e da Graúna, entre outros tantos personagens, foi amigo do chargista de O Estado, Dante Mendonça, e influenciou gente como Marco Jacobsen e Thiago Recchia. Os dois últimos deram seu depoimento à reportagem:

“No início dos anos 80 eu ainda era um piazão, mas já estava de olho nas sacadas dos humoristas da época. Um deles, talvez o mais brilhante, eu vi pela primeira vez na TV. Henfil apresentava um quadro chamado TV Macho, exibido no programa matutino TV Mulher, que tinha como âncora Marta Suplicy”, relembra Jacobsen. “Volta e meia, ele passava uma receita de como um homem moderno deveria cozinhar: como abrir uma lata de feijoada com pé-de-cabra e martelo, ovo mexido com casca e outras iguarias que só o verdadeiro macho teria habilidade para fazer.”

E prossegue: “Mais tarde, quando já arriscava meus primeiros traços, ganhei do meu pai uma revista dos fradinhos. Achei aquilo muito ousado, principalmente pelo jeito que ele tratava o comportamento sexual dos personagens. O desenho, então, era deslumbrante. Com apenas uma rabiscada ele fazia seu personagem correr”.

Jacobsen lembra ainda uma ida do cartunista aos Estados Unidos, entre 1973 e 1974, quando apresentou seus fradinhos: “Ele enfrentou todo tipo de preconceito. Hemofílico, foi internado em um hospital público americano, onde foi tratado como lixo. Em um ato desesperado, conseguiu fugir (de camisolão mesmo!) pela porta da frente. Ele contou esta e outras histórias nas cartas que enviava a amigos no Brasil”.

Thiago Recchia, que desenha os Los 3 Inimigos na Tribuna, lembra que no início da carreira observou muito o traço rápido de Henfil. “Até então meu desenho era mais rebuscado, e a maior velocidade me ajudava no fechamento do jornal”, relembra. “Também criei muitos personagens inspirados no Henfil, como o Galinzé, que tinha algo da Graúna, e gosto muito do humor textual dele, excelente para criar uma piada ou fazer uma gag”.

Thiago conta ainda que recentemente garimpou numa livraria um livro de Henfil só sobre futebol. “Qual não foi minha surpresa ao descobrir que muitas piadas que ele tinha feito eu voltei a fazer Thiago décadas depois”. E arremata: “Ele e a turma do Pasquim fizeram uma revolução no humor brasileiro”. Ou, como disse o próprio Henfil: “Morro, mas meus desenhos ficam”.