Os adolescentes de baixa renda, que na maioria das vezes não dispõem de uma boa estrutura familiar, são considerados hoje as vítimas mais vulneráveis do tráfico de drogas e da criminalidade. Para que esses jovens não migrem para a marginalidade e tenham a opção de traçar um caminho promissor em suas vidas, é que a Guarda Mirim desenvolve um trabalho preventivo há mais de 40 anos. Através de disciplina, educação, cursos profissionalizantes e atividades de lazer, a unidade social consegue ressocializar os adolescentes em situação de risco, inseri-los no mercado de trabalho e, principalmente, mudar sua perspectiva de vida.

Vinculada à Secretaria de Estado do Trabalho e Promoção Social, a Guarda Mirim é a única unidade social do Estado que atua na prevenção à criminalidade, uma vez que as demais são especializadas na recuperação de jovens em conflito com a lei, como o Educandário São Francisco. Atualmente, 1.061 adolescentes, entre 14 e 18 anos, participam do programa, podendo permanecer até quatro anos na instituição. Na primeira etapa, o jovem participa da pré-aprendizagem, onde durante um ano, por meio período, freqüenta cursos de informática, espanhol, comunicação empresarial, matemática básica e financeira, gestão e ética. Para ingressar na Guarda Mirim, é necessário que o adolescente esteja estudando em uma escola regular ou completando os estudos através do programa de educação para jovens e adultos, ofertado pela instituição, em período alternativo à pré-aprendizagem.

Na segunda fase, o adolescente passa a ser guarda mirim e, durante um período de dois a três anos, recebe formação profissional podendo optar pela área comercial ou administrativa. Nessa etapa ele é encaminhado ao mercado de trabalho, desempenhando sua função durante meio período, com chance de ser efetivado. "Com isso o adolescente passa o dia ocupado, freqüentando as aulas profissionalizantes na Guarda Mirim pela manhã, trabalhando à tarde e estudando à noite, por exemplo", afirmou o diretor da instituição, Nivaldo Vieira Lourenço.

Cursos

Os cursos profissionalizantes são ofertados pelo Senac, onde o aluno pode se especializar em vendas. A Guarda Mirim possui convênio com 240 empresas, como Bosch, Volvo, Renner e Pernambucanas. Além do salário, que varia entre R$ 212 e R$ 260, os adolescentes recebem vale-transporte e algumas empresas também fornecem seguro-saúde e vale-alimentação. Hoje, 617 estão trabalhando, porém, depois do período de aprendizagem, quando completam 18 anos, eles são obrigados a se desligar da Guarda Mirim e do convênio. Segundo o diretor, 38% dos adolescentes aprendizes são contratados no final do período de aprendizagem e os que não são efetivados são encaminhados pela instituição à agência do trabalhador. "Temos gerentes de grande empresas que já passaram pela Guarda Mirim ao logo desses anos. Os resultados são muito positivos, pois além de os jovens ganharem experiência, eles têm aumento na auto estima e dão novo rumo a suas vidas", finalizou o diretor.

Programa destinado para famílias

O programa desenvolvido pela Guarda Mirim é destinado a famílias de baixa renda. Por isso, para ingressar na instituição, o adolescente precisa passar por duas etapas de seleção. A primeira é composta por provas de Português, Matemática, Redação, História, Geografia e conhecimentos gerais. Na fase seguinte, o jovem e sua família são entrevistados por assistentes sociais, os quais analisam a real necessidade e carência do adolescente.

Assim que ele ingressa na instituição, a família passa a receber acompanhamento periódico de assistentes sociais. "Não adianta atender apenas o adolescente, se o problema está na estrutura familiar. Os pais precisam entender que o jovem precisa ser amado e receber apoio deles, pois a família é o grande alicerce de qualquer ser humano", afirma Nivaldo Vieira Lourenço, diretor da instituição.

Disciplina

De acordo com Nivaldo, muitos adolescentes entram na Guarda Mirim revoltados e com sérios problemas de disciplina e por isso as regras são rígidas. Nas dependências da instituição é proibido mascar chiclete, maquiagem excessiva para as meninas e brinco para os garotos. Palavras como muito obrigado e por favor são exigências básicas para os alunos. "Nós temos regras que precisam ser seguidas para que os jovens aprendam a ter responsabilidade e saibam que não podem fazer tudo o que querem. Muitos adolescentes nunca tinham ouvido um ?não? antes de entrar aqui", afirmou o diretor, salientando que conta com o apoio de policiais militares para passar conceitos de ética e disciplina aos jovens. (PC)

Garoto tem oportunidade de vida nova

Um dos maiores projetos de destaque da instituição é a Banda Marcial da Guarda Mirim. Composta por 95 alunos e oito voluntários, a banda já participou de festivais em várias cidades do País, colecionando dezenas de troféus. Anderson Ribeiro da Silva, 15 anos, é um dos mais novos integrantes da banda. Ele ingressou este ano na Guarda Mirim e viajou junto com o grupo para o Chile, onde se apresentou como porta-bandeira, além de estar aprendendo a tocar trompete.

A realidade vivida por este garoto assemelha-se a de vários outros adolescentes, que ao passar por dificuldades, muitas vezes optam pela criminalidade. Este mês os alunos fizeram a primeira viagem internacional, onde permaneceram seis dias no Chile durante o Festival de Bandas e Fanfarras, sediado na cidade de Milipilla. O evento reuniu bandas do Chile, Bolívia e Peru.

Vida nova

Anderson resolveu mudar sua vida por conta própria. Ele conta que mora em Colombo junto com a mãe e outros nove irmãos e que já passou por muitas necessidades. Ofertas para o envolvimento com drogas não faltaram, por isso orgulha-se em contar que foi ele quem tomou a iniciativa para entrar na Guarda Mirim. "Eu sempre passava aqui na frente e achava que era uma escola particular. Um dia conversei com a zeladora e ela me contou que eu podia fazer a inscrição. Chamei minha madrinha para me ajudar e hoje estou adorando ficar aqui", conta ele.

O garoto passa o dia na instituição. Durante meio período ele está completando o ensino fundamental e no outro freqüenta as aulas de aprendizagem. Foi na Guarda Mirim que Anderson teve o primeiro contato com aulas de computação, música e teatro, o que até pouco tempo parecia estar muito longe de sua realidade. "Há cerca de dois anos eu morava no interior e tinha que ir para a escola de cavalo por que era muito longe. Por causa das dificuldades eu parei de estudar e agora estou aprendendo de novo de uma maneira bem diferente", finaliza o garoto. (PC)