Do Carnaval mais animado da redondeza e ponto de parada dos viajantes para um clima de silêncio e abandono, com pouquíssimas pessoas perambulando pelas ruas.

Assim está a “Vila Fantasma”, no litoral do Paraná. O local é a Vila de Ararapira, esquecida dentro do Parque Nacional de Superagui, no município de Guaraqueçaba, que no século XVIII chegou a ser alvo de disputa entre Paraná e São Paulo.

Embora o fluxo turístico na região seja grande por causa de Superagui e do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o clima predominante é de descaso. Essa situação fez com que o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) cobrasse providências do Ministério do Meio Ambiente, como ações para proteção da vila, que sofre com saque de imagens, destruição do cemitério e abandono das antigas edificações.

O deputado defende que os moradores deveriam ter sido indenizados a partir de 1990 pelas atividades e pela cultura que foram interrompidas a partir da criação do Parque de Superagui.

Reforma na igreja, contenção do desmoronamento de um barranco e construção de um memorial com a história da vila são alguns dos pontos destacados pelo historiador José Carlos Muniz para conservação do patrimônio de Ararapira. Mas até agora nada de prático se verifica na Vila para mudar a história do local.

Hoje, um dos símbolos de lá é o cemitério, visitado pelos ex-moradores no Dia de Finados. O clima mórbido contribuiu para que proliferassem histórias de assombrações que acabam fazendo da “Vila Fantasma” uma opção de turismo ao explorar o assunto. Para isso, muitas vezes é possível ver ossadas expostas no cemitério, com o intuito de alimentar as mais variadas lendas.

A histórica Igreja de São José, construída no século XVIII, é outro indício do descuido que tomou conta do vilarejo com o passar dos anos. O telhado da construção está escorado por dentro com um pedaço de pau, com risco de desabamento.

“As festas de São José, que três anos atrás reuniam cerca de 300 pessoas numa vila em que não mora ninguém, correm também o risco de desaparecer, ainda que os moradores procurem se organizar para que a cada ano mais ararapirenses retornem à vila”, afirma o historiador.

O dia da Festa do Padroeiro de São José, em 19 de março, é quando mais ex-moradores retornam à vila. Eles começam a chegar cerca de uma semana antes para pintar as casas, limpar as trilhas e fazer reparos necessários na igreja.

O “apelido” da vila se justifica também pelo número de habitantes: hoje, apenas uma pessoa reside no local, um ex-morador que, segundo Muniz, foi contratado pelas pessoas que possuem casa em Ararapira para que iniba a ação de ladrões e vândalos, cuidando das trilhas e acessos à vila.

Das antigas casas de comércio, em outro tempo orgulhosas de comercializar tecidos ingleses, entre outros produtos, nada sobrou. “Elas foram engolidas pelo mar na ação erosiva do barranco, após a abertura, em 1955, do Canal do Varadouro, para facilitar o comércio entre Paranaguá (PR) e Cananéia (SP)”, relembra o historiador.

Localidade chegou a ser objeto de disputa

Importante ponto de parada entre as baías de Cananéia e Paranaguá, a disputa pela região de Ararapira remonta ao século XVII, quando os jesuítas fundaram um estabelecimento religioso e agrícola, disputando a posse das terras com a Câmara de Paranaguá.

Um século mais tarde, foi a vez dos estados de Paraná e São Paulo disputarem o território, que era então ponto estratégico para escoamento de produtos, como farinha, mandioca e palmito.

No entanto, a abertura de um canal ligando os dois estados, que vinha sendo discutido desde o século XVIII, foi feito apenas na década de 50. Como consequências, Muniz cita que a con,strução do Canal do Varadouro fez com que aumentasse consideravelmente o nível de água do mar, ocasionando o desmoronamento de barrancos, que foi o início da decadência da vila.

Vinte anos mais tarde, a instalação da Companhia Agropastoril acelerou o processo de saída dos moradores para cidades próximas, uma vez que os animais da companhia invadiam e destruíam as plantações dos moradores. (LC)