De 2016 a 2025, o Paraná foi o quarto estado do país que mais recebeu pedidos de residência de imigrantes venezuelanos, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). Juntos, os estados que lideram esse fluxo — Roraima, Amazonas e Santa Catarina — concentram 74,7% das solicitações de entrada dos novos residentes no Brasil.
Somente no Paraná, mais de 70 mil venezuelanos obtiveram residência na última década. O número de residentes, no entanto, é ainda maior: em janeiro de 2026, chegava a 87.273. Os motivos variam entre acolhimento humanitário, refúgio, oportunidades de trabalho e reencontros familiares. Para quem chega, no entanto, o recomeço também passa pelo desafio de reconstruir vínculos e formar uma nova comunidade.
Foi com esse objetivo que Wilder Diaz, conhecido como Wilo, e a esposa Katterin Ortiz encontraram no futebol, paixão compartilhada com os brasileiros, uma forma de aproximar imigrantes do mesmo país. Fundadores da Golwsports, o casal organiza a primeira Liga Venezuelana de Futebol 7 de Curitiba, disputada aos domingos na Arena Nortista, no bairro Portão.
Embora a ideia da liga já existisse antes, foi a partir da articulação de Wilo com amigos que já jogavam juntos que a competição ganhou força dentro da comunidade venezuelana. Em quatro edições, o torneio dobrou de tamanho, passando de 10 para 20 equipes. A maioria é formada por venezuelanos, mas há também espaço para brasileiros.
“Tem jogadores de outros estados que vieram morar aqui para jogar. Isso é uma emoção muito grande, porque o Brasil abriu as portas para nós. Viemos para trabalhar e, às vezes, ficamos estressados com a distância da família. A liga é uma forma de conectar o esporte e a paixão com quem está lá fora”, conta Wilo.
Para Katterin, o crescimento da liga acompanha a trajetória do casal no país. “Fazemos isso para crescer e também para trazer conforto. Aqui, conversamos, nos divertimos, registramos momentos e conseguimos sentir um pouco daquilo que vivíamos na Venezuela”, afirma.
Ponta-pé da comunidade
Vice-presidente e treinador do Inter, uma das equipes da liga, Daniel Rodriguez conheceu Wilo por meio de uma publicação nas redes sociais que buscava jogadores para completar o time. “Mandei mensagem dizendo que iria jogar no domingo. Nem sabia se jogava bem. Ele entrou em campo, fez dois gols e saiu como o melhor da jogo”, relembra.
Naquele período, Wilo já acumulava passagens por diferentes países e três estados. Em 2016, deixou a Venezuela para trabalhar em Manaus, no Amazonas. Após cerca de um ano e meio, mudou-se para o Chile, onde viveu por cinco anos. Depois, retornou ao Brasil, estabelecendo-se em Santa Catarina, onde parte da família já residia.
Foi nesse retorno que retomou o contato com Katterin, que conhecia desde a Venezuela. O relacionamento começou à distância e ganhou novo rumo quando Wilo se mudou para Curitiba para trabalhar como marceneiro. “Falei para ela se aventurar. Ela aceitou, comprou a passagem e veio”, conta. Desde maio de 2024, o casal vive junto na cidade.

Formada em Recursos Humanos, Katterin levou cerca de três meses para conseguir um emprego formal. Quando estabelecidos, a ideia de transformar o futebol em fonte de renda surgiu durante uma visita do casal à família, quando Wilo percebeu que fotógrafos conseguiam lucrar com a venda de imagens de jogos amadores. “Quando terminou o campeonato, eu falei: vou comprar uma câmera e fazer do meu jeito. E começamos”, relembra.
Com o investimento inicial na compra do equipamento e dedicação ao projeto, o casal estruturou a iniciativa e conquistou uma parceria com a Federação Paranaense de Soccer Society (FPSS). A partir disso, nasceu a Golwsports, empresa responsável pela organização da liga e pelo fortalecimento da comunidade venezuelana por meio do esporte.
Liga ganhou reconhecimento nacional
Desde 2018 em Curitiba, o zagueiro Gabriel Mijares conquistou o título no ano passado com o Inter. A campanha teve contornos dramáticos desde o início. Nos primeiros quatro meses da competição, ele esteve lesionado e atuou como auxiliar técnico à beira do campo.
Na reta final, já recuperado, voltou a jogar e ajudou o time a reagir. O Inter chegou à decisão contra uma equipe mista de brasileiros e imigrantes. O adversário abriu o placar, mas o empate veio na sequência. A virada saiu em um pênalti originado de uma jogada construída com participação de Gabriel. Com o placar final em 3 a 2, ele se orgulha do lance decisivo. “Foi uma alegria. Esse foi o gol fundamental para o título. Nosso campeonato é na vontade, na raça”, afirma.
Presente desde a primeira edição, o Inter, equipe de Daniel Rodriguez, acompanhou o crescimento da competição. Com o aumento da visibilidade, surgiu a necessidade de maior organização interna. Ao lado do irmão e presidente do clube, Daniel assumiu a função de treinador. “Quem gosta leva a sério e não quer perder”, resume.

O avanço da liga rumo à profissionalização veio com novas experiências. No ano passado, a organização recebeu convite para disputar uma Copa Libertadores amadora promovida pela FPSS, em Paranaguá. A proposta previa a formação de um time com os principais destaques da liga venezuelana para representar a Golwsports.
Em apenas seis dias, os organizadores montaram o elenco, produziram uniformes e viabilizaram a viagem. “Foi tudo na base do esforço de cada um”, relembra Wilo. O próximo desafio já está marcado: a equipe volta a competir em abril, desta vez em Florianópolis, em Santa Catarina.
Dessa vez, o objetivo é outro. “Da primeira vez, fomos para mostrar quem somos. Agora, queremos ganhar”, afirma Katterin. Com a estrutura mais consolidada, a expectativa é ampliar o alcance do projeto e fortalecer ainda mais a comunidade. “Chegamos sem saber o que ia acontecer. Hoje, a ideia é não parar”, conclui.
Serviço
Liga Venezuelana de Futebol 7
Data: jogos aos domingos, a partir das 11h
Local: Arena Nortista, na Rua Amadeu do Amaral, nº 1653, no bairro Portão
Informações: @golwsports



