Todo mundo já foi criança. E quase todo mundo lembra daquele frio na barriga na volta às aulas: o uniforme separado na noite anterior, a mochila pronta, a dúvida sobre quem estaria na sala, como seria a professora, se daria tudo certo. Para muitas crianças e adolescentes, fevereiro ainda carrega exatamente esse misto de expectativa e insegurança.
Marcado pelo início do ano letivo, o mês costuma despertar emoções intensas. Enquanto alguns vivem esse período com entusiasmo, outros sentem ansiedade diante das mudanças. Segundo a psicóloga clínica Ester Storck (CRP 08/0666-1), que atua há 29 anos no atendimento a adolescentes, jovens e adultos, o começo das aulas exige um esforço emocional importante. “É um momento de muitas novidades ao mesmo tempo: novas rotinas, ambientes, pessoas, regras e expectativas. Tudo ainda está em construção”, explica.
Esse processo de adaptação pode aparecer de diferentes formas: resistência para ir à escola, alterações no sono, irritabilidade, choro ou queixas físicas, como dor de barriga. “A ansiedade, nesse contexto, não significa que algo está errado. Ela indica que a criança está tentando se organizar diante do novo”, afirma Ester.
Do ponto de vista psicológico, o início do ano letivo é compreendido como uma fase de ajuste emocional. Algumas crianças precisam de mais previsibilidade e segurança para atravessar esse período. E a forma como os adultos respondem a esses sinais faz toda a diferença. Para ajudar a reduzir a ansiedade no primeiro mês de aula, a especialista orienta:
Manter rotinas claras e consistentes – Estabelecer horários semelhantes para acordar, dormir, fazer refeições e realizar tarefas, inclusive nos fins de semana. Avisar com antecedência como será o dia ajuda a criança a se sentir mais segura.
Acolher os sentimentos, sem desqualificar – Ouvir com atenção e validar o que a criança sente, usando frases como “eu vejo que você está nervoso” ou “imagino que esteja difícil”. Evitar comentários como “isso é bobagem” ou “não tem motivo”.
Reduzir cobranças e expectativas – Evitar exigir adaptação imediata, desempenho perfeito ou socialização rápida. Cada criança tem seu tempo, e o primeiro mês é de ajuste, não de cobrança.
Transmitir confiança e tranquilidade – Demonstrar segurança ao falar da escola, manter uma postura calma na despedida e evitar transmitir a própria ansiedade. A criança percebe quando o adulto confia no processo.
Observar mudanças de comportamento e oferecer apoio – Ficar atento a alterações no sono, no apetite ou no humor. Quando necessário, conversar, ajustar a rotina ou buscar orientação profissional.
A psicóloga ressalta ainda que a ansiedade infantil muitas vezes reflete o estado emocional dos próprios adultos, que também lidam com pressões e reorganização da rotina nesse início de ano. Cuidar da própria saúde emocional e compreender que a adaptação é um processo contribui para um ambiente mais seguro. “Nem toda resistência é preguiça, e nem toda ansiedade é um problema. Muitas vezes, é apenas um pedido de acolhimento”, conclui.
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