Chuniti Kawamura/O Estado
A força do vento de domingo derrubou muitas árvores na capital. Fúria da natureza pode ser explicada pelo descuido do homem.

Eventos climáticos como o que acometeu no Paraná neste final de semana são normais, avaliam especialistas, mas a intervenção do homem pode estar tornado-os mais freqüentes. É o que explica o professor do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Nelson Dias. Para ele, além de pensar nos efeitos das devastações provocadas na natureza de forma global, localmente é preciso que autoridades se mobilizem para construir cidades mais preparadas aos fenômenos e que o meio científico tenha mais subsídios para entendê-los e divulgá-los de forma mais profunda e precisa.  

Secas e cheias extremas sempre aconteceram. ?Já houve uma outra seca tão forte como essa que passamos recentemente, só que foi nos anos 70s. Da mesma forma, nos últimos dez anos, em Curitiba e em todo o estado já presenciamos eventos como o deste final de semana, principalmente no oeste, que sempre foi sujeito a fenômenos desse tipo. Até mesmo tornados acontecem em São Paulo, Santa Catarina e no Paraná?, lembra o professor. ?No entanto, existem previsões pessimistas de que as mudanças climáticas que ocorrem no planeta têm como contrapartida o aumento da freqüência de eventos extremos?, ressalta.

Dos furacões no Atlântico Norte às chuvas que acometem o sul do Brasil, típicas desta época do ano, Dias acredita que é preciso prestar atenção às características dos fenômenos naturais para podermos compreendê-los melhor e nos preparamos para sobreviver a eles da melhor forma possível. ?A maioria dos cientistas concorda que a temperatura está aumentando porque estamos jogando muitos gases na atmosfera, em proporções nunca vistas antes. E alerta-se que poderão acontecer muito mais efeitos danosos que qualquer outra coisa por conta disso?, explica. Da mesma forma, o desmatamento também tem provado suas conseqüências em determinadas partes do mundo. ?Na África subsaariana, uma seca histórica sem precedentes acomete a região desde os anos 70s e estudos apontam que isso tem a ver com o desmatamento provocado pelo grande aumento da população e destruição do solo?, exemplifica.

No Brasil, o problema não é menos pior. As taxas de desmatamento têm crescido nos últimos anos e o Paraná, apesar das recentes preocupações com o meio ambiente, é um dos estados mais devastados do país por conta da intensa intervenção ocorrida há algumas décadas. ?Claro que o clima não resulta apenas de coisas locais. Às vezes, o efeito local tem causa global e, mais que isso, acaba afetando a qualidade de vida da população.?

Diante disso, o engenheiro destaca duas questões fundamentais. A primeira é que os estudos dos fenômenos climáticos deveriam ser intensificados; e a segunda é que os serviços de proteção contra os mesmos teriam de ser melhorados. ?É o caso de começarmos a projetar torres de energia mais resistentes, telhados que não voem sob ventos fortes e serviços de meteorologia melhores que os atuais, ainda muito genéricos e incapazes de dizer o local exato em que as coisas vão acontecer. Esses fenômenos sempre devem ser usados para aprendermos a nos preparar melhor e o primeiro passo para isso é estudá-los e capacitarmos a sociedade para compreendê-los também?, indica.

Estragos

Aliada aos fortes ventos, a precariedade da infra-estrutura de muitas construções, principalmente no interior do estado, ficou clara durante o temporal deste fim de semana. Na Lapa, 380 casas e estabelecimentos comerciais foram destelhados. A Defesa Civil distribuiu lonas às famílias e, ontem, a Prefeitura comprou mais de três mil telhas para distribuir entre os moradores mais carentes. Em Santo Antônio da Platina, no Norte Pioneiro, uma menina de 13 anos morreu após a queda de uma árvore sobre a residência onde morava.

Na Colônia Marquês de Abrantes, distrito de Tunas do Paraná, no Vale do Ribeira, 23 casas foram destelhadas e duas ficaram totalmente destruídas. Lá também houve o único registro de desabrigados feito pela Defesa Civil do estado até o final da tarde de ontem, de duas pessoas. Nas demais cidades, quem ficou sem um teto para dormir se alojou em casas de amigos e parentes. Em Ponta Grossa, 35 casas foram destelhadas e houve problema de infiltração em um dos blocos do campus central da Universidade Estadual (UEPG). Dezesseis salas de aula ficaram alagadas, o que resultou na suspensão das aulas e na necessidade de transferência para outros locais até que o prédio seja reformado.

Em Cascavel, outras trinta casas foram destelhadas e houve oito atendimentos envolvendo quedas de árvores. Em Foz, parte da cidade ficou sem energia elétrica; em Ortigueira, região central, houve oito destelhamentos; e em Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba, árvores caíram sobre residências, assim como em São José dos Pinhais, onde a situação ficou agravada com alagamentos registrados em quatro casas.