Valquir Aureliano / O Estado
Fedalto: “Vou ter mais tempo para rezar
e me preparar para o encontro definitivo”.

A Arquidiocese de Curitiba terá um novo arcebispo no próximo dia 18 de junho. Ontem, o papa João Paulo II aceitou a renúncia de dom Pedro Fedalto, feita há pouco menos de três anos, quando o arcebispo completou 75 anos de vida. O nome do sucessor também já foi definido. O papa nomeou o bispo da diocese de Piracicaba, dom Moacyr José Vitti.

Dom Pedro Fedalto esteve à frente da Arquidiocese de Curitiba desde 30 de dezembro de 1970. Agora ele foi nomeado administrador apostólico até entregar o cargo. A nova função deixa Fedalto com os mesmos poderes de arcebispo, como nomear padres, realizar crismas, etc. Após entregar o cargo, Fedalto passará a ser arcebispo emérito. “Vou ter mais tempo para rezar e me preparar para o encontro definitivo. Também vou me dedicar a uma coisa que gosto muito, que é a história, principalmente eclesiástica. Já comecei a fazer um trabalho sobre a história dos bispos no Brasil”, contou, dizendo que vai morar no seminário São José.

Fedalto contou que soube da indicação de Vitti na última terça-feira. “Fiquei alegre e surpreso.” Após isso, os dois bispos já chegaram a se comunicar por telefone e através de uma carta enviada por Vitti. “Ele vai ter alguma facilidade por já conhecer a diocese, já que ficou aqui 14 anos e meio como bispo auxiliar”, comentou. Ele destacou que um bispo precisa ser profeta para ensinar, sacerdote para santificar e régio para servir o povo. “O arcebispo também tem que ser pai e irmão dos padres e de todos”, afirmou.

34 anos

Em mais de três décadas à frente da Arquidiocese de Curitiba, Fedalto viu grandes transformações na igreja e na cidade. Para ele, existem pontos positivos e negativos. A cidade cresceu muito. Ele conta que antes andava de ônibus por toda Curitiba, conhecendo todos os itinerários. Hoje já é bem mais difícil ir a todos os lugares, apesar de continuar fazendo visitas em favelas e hospitais. Como pontos negativos, destacou os problemas sociais, como o surgimento de favelas e a miséria. A atuação da igreja no campo social também aumentou bastante.

Fedalto salientou que a violência também cresceu muito. “Eu mesmo fui duas vezes assaltado em casa. Acabaram me roubando objetos de valor sentimental, como o meu anel de bispo e o cálice que ganhei dos meus pais quando me ordenei padre”, revelou.

Na igreja o crescimento também foi notado. O número de paróquias cresceu e a catedral passou a ser considerada Catedral Basílica em 1993. Para Fedalto, apesar da quantidade de católicos ter diminuído (cerca de 70% da população brasileira), eles se tornaram mais participativos. “Hoje existem cursos de batismo, crisma, casamento. As pessoas participam mais da missa. Antigamente a missa era em latim e o padre rezava de costas para o povo”, lembrou.

Fedalto disse que devido ao crescimento de Curitiba já estuda-se o desmembramento da Arquidiocese. “Pode se criar a diocese de São José dos Pinhais e, quem sabe, uma em Campo Largo”, salientou. Hoje 164 paróquias fazem parte da Arquidiocese de Curitiba.

Dom Pedro Fedalto disse que não se considera progressista, tampouco conservador. “Procuro o equilíbrio”, sentenciou, usando como exemplo a cruz de Jesus, que tinha uma parte horizontal e outra vertical. Em 34 anos, Fedalto nomeou 160 padres.

A posse do novo arcebispo deve acontecer numa cerimônia na Catedral Basílica. “Vamos criar uma comissão para estudar isso, mas provavelmente deva ser na catedral, pela sua simbologia”, disse Fedalto.

Vitti ficou surpreso com decisão

Para o futuro arcebispo de Curitiba, dom Moacyr José Vitti, a grande diversidade de raças e culturas que forma a população de Curitiba é um fato que deixa Arquidiocese mais complexa de se administrar. Todavia, ele conta com um fator facilitador, já que esteve na capital paranaense como bispo auxiliar de 3 de março de 1988 até 5 de junho de 2002. “Conhecer a realidade facilita, já que entro mais seguro”, afirmou ontem, em Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo.

Vitti é bispo da diocese de Piracicaba, cidade onde nasceu, desde 2002. Numa carta escrita a dom Pedro Fedalto, logo após saber de sua indicação, ele destacou que imaginava que terminaria seu ministério episcopal em Piracicaba. “Recebi a notícia da indicação com surpresa”, contou, explicando como é o processo de escolha de uma arcebispo. O núncio apostólico colhe o nome de bispos indicados junto a alguns padres e aos bispos do país, então envia os nomes ao Vaticano, onde o papa João Paulo II opta pelo nome do indicado.

Ao saber da nomeação, Vitti fez questão de destacar a importância e o trabalho feito por dom Pedro Fedalto nesses 34 anos à frente da Arquidiocese de Curitiba. “Ele é um homem extraordinário”, afirmou, destacando que será uma missão difícil substituí-lo. Para isso, ele confia na graça divina e na proteção de Nossa Senhora da Luz, a quem diz que ama profundamente e é apaixonado.

Dom Moacyr Vitti tem 63 anos, dos quais 36 como padre e 16 como bispo. Como bispo auxiliar de Curitiba, foi responsável pelos movimentos de ensino religioso e pela Pastoral Universitária. “Quero aproveitar para deixar aqui a minha saudação a todo povo curitibano”, afirmou, lembrando que só virá à capital paranaense no dia de sua ordenação, em 18 de junho.