Lucimar do Carmo / GPP
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Condição de piso e alta vegetação atrapalha deslocamento dos pedestres.

Um estudo feito pelo Ministério das Cidades, e divulgado nesta semana, aponta que 35% da população das grandes cidades se desloca a pé. O ?Perfil do Transporte e Trânsito dos Municípios Brasileiros de 2003? identificou ainda que 32% utiliza o transporte público, 28% automóveis, 3% bicicletas e 2% motos. Mas mesmo quem utiliza esses meios para locomoção, inclui em seu percurso trechos de caminhada para o acesso entre os destinos e origens. Diante disso, é correto afirmar que nem todo o pedestre é motorista, mas todo o motorista, em algum momento, é um pedestre.

E a qualidade e condição das calçadas acaba sendo fundamental para a circulação de todas as pessoas. Porém, esse assunto ainda causa muita polêmica, e infelizmente a realidade está longe do ideal. Um estudo feito em 2003, sob coordenação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em conjunto com outras quatro universidades do Paraná, nas cidades de Curitiba, Foz do Iguaçu, Londrina e Maringá, apontou que, de cada dez calçadas no Paraná, seis são inadequadas.

Do total de 612 calçadas avaliadas, 213 eram de Curitiba, sendo 22 próximas a terminais de ônibus. O estudo demonstrou que na periferia da capital as condições precárias contribuem para a diminuição das caminhadas e a exclusão de parte da população. ?Nas regiões onde são necessários mais investimentos, estão as pessoas que mais sentem falta de uma estrutura melhor?, comentou o arquiteto e professor de Urbanismo da PUCPR, Evandro Cardoso Santos, um dos coordenadores da pesquisa. Segundo ele, no levantamento também foram pontuados itens como largura, condição do piso, obstáculos, iluminação e travessia, e a capital ficou com uma média de 3,58, cujo diagnóstico indicava a necessidade de uma intervenção imediata.

Legislação

Uma outra sondagem feita pela Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil – entidade sem fins lucrativos que atua na conscientização e adequação das calçadas em Curitiba – mostrou que 70% dos curitibanos utilizam diariamente as calçadas em deslocamentos, seja para o trabalho, estudo ou lazer. Desse percentual, 59,6% estão insatisfeitos com a situação do calçamento, e 52,2% defende que a responsabilidade pela construção das calçadas deveria ser da Prefeitura, e não do proprietário do imóvel como reza a legislação municipal. Para a vice-presidente da Associação, Elin Tallarek de Queiroz o município dita as regras, mas não participa da sua execução. ?A Prefeitura passou para o proprietário a responsabilidade, mas deveria fiscalizar e orientar as maneiras corretas para fazer?, comentou. De acordo com ela, os problemas mais comuns encontrados nas calçadas são pedras soltas, buracos, aclives e declives e a utilização de material inadequado, como o petit pavet e a lousa, que se tornam escorregadios com o desgaste e a umidade.

Além de alertar para os problemas, a entidade vem buscando estimular quem mantém as calçadas em boas condições e dentro dos padrões de segurança e conforto. Para isso, criaram o prêmio Lajota Passeio Nota 10, que certifica os caminhos de pedestres adequados na cidade. Em Curitiba, seis calçadas receberam o prêmio, entre as quais, a calçada de um condomínio fechado no bairro Campo Cumprido.

Reconhecendo os problemas

A Prefeitura de Curitiba reconhece os problemas existentes com a situação das calçadas da capital, e anuncia que diversas medidas estão sendo tomadas para tentar reverter o problema. ?Estamos definindo novos padrões para as calçadas de Curitiba, pois as atuais não são compatíveis com o que queremos?, afirmou o administrador da Regional Matriz, Omar Akel. Ele adiantou que uma comissão formada por integrantes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e das secretarias de Urbanismo e Meio Ambiente está elaborando um plano de ação para a modificação e modernização do sistema.

Entre as soluções apontadas pela comissão que começará a ser implantada na cidade para a pavimentação das calçadas será a utilização de blocos de concreto pré-moldados intertravados, que são de fácil manuseio, tanto para colocação como retirada, e sem deixar desníveis, que são responsáveis por parte dos acidentes. (RO)

Conservação pode trazer retorno para comércio

Algumas cidades brasileiras entenderam que a condição das calçadas pode refletir no comércio. É o caso de Blumenau, em Santa Catarina, que investiu, há cerca de sete anos, recursos na ordem de R$ 8 milhões para revitalizar o centro da cidade. Os antigos paralelepípedos foram substituídos por blocos intertravados de concreto, e as ruas ganharam mais sinalização e iluminação.

O resultado disso, foi um aumento em tono de 30% nas vendas do comércio.

Para a vice-presidente da Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil, Elin Tal-larek de Queiroz hoje os shoppings acabam atraindo mais os consumidores, não só pela segurança ou ambiente climatizado, mas também pela facilidade de locomoção. ?O piso é adequado, sem buracos ou desníveis, o que acaba sendo ideal para qualquer pessoa andar sem problemas?, falou. Esse mesmo conceito, afirma Elin, poderia ser implantado pelo comércio de rua, ?mas infelizmente, os lojistas não despertaram para o problema?, comentou.

A dificuldade de locomoção devido a precariedade das calçadas é uma constante luta dos portadores de deficiência física, que também ficam à margem de terem sua participação na economia. A estimativa é que 73 mil deficientes físicos moram em Curitiba e Região Metropolitana, mas muitos nem saem de casa pela dificuldades de acesso. O presidente da Associação dos Deficientes Físicos do Paraná, Mauro Nardini as precárias condições das calçadas, principalmente nos bairros, acaba reduzindo a mobilidade das pessoas e acabando com sua independência. ?Se não são os obstáculos, como postes e pontos de ônibus, são aos buracos, pedras escorregadias e falta de guias rebaixadas?, pontuou. (RO)

Mau planejamento causa prejuízo para a saúde

Calçadas mal planejadas ou danificadas causam uma série de transtornos para pedestres, e podem ser contabilizados como prejuízos para a saúde pública.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) fez, em 2003, o levantamento dos custos dos acidentes de trânsito nas aglomerações urbanas, que incluíam as quedas e tropeços de pedestres sem o envolvimento de veículos, ocorridos na calçada ou via. O estudo apontou que os custos totais com quedas e tropeços nas cidades brasileiras chegam a R$ 3,2 bilhões.

Apesar de não possuir uma estatística, o médico ortopedista do Hospital Evangélico de Curitiba, Flamarion dos Santos Batista afirma que o percentual de pacientes que chegam com problemas de entorses na unidade é bastante expressiva. ?São jovens e idosos que acabam tendo problemas decorrentes de calçadas defeituosas, buracos e pedras soltas?, comentou.

A aposentada Bruneslava Zawerucha, de 86 anos sabe bem o que é isso. Ela tropeçou em um desnível de uma calçada em frente ao um supermercado e fraturou o pé. ?Meu pé ficou engessado, e como não consegui me adaptar com muletas, empurrava cadeiras para poder andar dentro de casa?, lembra.

A estudante Sheila Patrícia da Cruz Fogaça teve sua vida transformada após uma queda na Rua XV de Novembro. ?Caí quando pisei numa diferença de piso, e como havia chovido, o patit pavet estava escorregadio. Eu quebrei o pé, e ainda uso bengala para me apoiar?, contou. (RO)