Medo e tensão. Esse é o clima vivido por alunos e professores das escolas públicas de Curitiba e região metropolitana, que sofrem diariamente com casos de violência. A cada dois dias, a Delegacia do Adolescente da capital registra um boletim de ocorrência relativo a atos violentos dentro de escolas. “Há todos os tipos de casos, desde a agressão física entre os alunos e até contra professores e funcionários dos colégios, passando por depredação e até ameaças e agressões verbais”, explica a delegada titular da especializada, Nilcea Ferraro da Silva. “É um número preocupante, pois têm crescido muito nos últimos anos”, ressalta.

Essa realidade é confirmada por uma professora do ensino médio e fundamental que leciona no Colégio Estadual Milton Carneiro, no Alto Boqueirão. A educadora, que preferiu não se identificar temendo represálias por parte dos próprios alunos, afirma que trabalha sob forte tensão. “Há pouco mais de duas semanas eu levei um chute de uma aluna porque chamei a atenção devido a uma situação de indisciplina. Sem mais nem menos ela veio e me deu um chute. E isso é só parte do que nós, professores, sofremos no dia a dia do colégio”, desabafa.

Agressões

Ela conta que são constantes as ameaças de estudantes a professores e funcionários. Além disso, até os pais dos alunos acabam gerando situações de violência no ambiente escolar. “Há muitos casos de pais que tentam nos agredir, nos ameaçam de morte e falam que vão nos pegar fora da escola. Durante reuniões, quando tentamos explicar os problemas que seus filhos estão gerando no colégio, tem pai e mãe que nos xingam e não há conversa. Para eles, a culpa é nossa por seus filhos estarem mal na escola e com comportamento de marginal”, explica.

Felipe Rosa
Casos vão de agressão física entre alunos e contra trabalhadores a depredação e ameaças verbais.

A professora relata que há colegas que já apresentam sinais de síndrome do pânico devido ao clima tenso. “É um drama, pois nunca sabemos o que vai acontecer. A gente, como professor, se impõe e tenta fazer nosso trabalho, mas há muita ameaça. Tem uma professora aqui que vive de atestado médico por medo. Não consegue sair de casa. Os alunos ameaçam de morte, falam que são amigos de traficantes e metem medo mesmo. Não dá pra saber o que eles são capazes de fazer”, alerta.

Todo dia tem algum tipo de confusão

Segundo a educadora, as agressões entre estudantes são quase que diárias e cada vez mais tomam proporções maiores. “Às vezes as brigas são generalizadas, envolvendo dezenas de alunos, tanto dentro quanto fora da escola. Todo dia tem movimentação, empurra-empurra e uma série de distúrbios. O clima de violência é generalizado”, conta.

De acordo com a professora, os alunos também depredam o patrimônio da instituição, quebrando, quase que diariamente, janelas, portas, mesas e cadeiras. “É uma situação absurda. Nós sabemos que brigas e xingamentos são coisas que acontecem no cotidiano de uma escola, mas a situação está passando dos limites. E não só no Colégio Estadual Milton Carneiro. A gente sabe que isso acontece em boa parte das escolas públicas de Curitiba, principalmente na periferia”, conta.

A titular da Delegacia do Adolescente explica que a maioria das ocorrências envolve alunos de escolas públicas com faixa etária de 15 a 16 anos. “São casos de ameaças, injúria e agressão. Mas há também casos em escola,s particulares”, constata.

Diálogo é aposta das secretarias pra prevenção

As secretarias da Educação do Estado (Seed) e Municipal (SME) apostam no diálogo entre professores, diretores e alunos para identificar e resolver o problema da violência nas escolas públicas. Para Maurício Rosa, coordenador de Desenvolvimento Socioeducacional da Seed, a violência da sociedade como um todo se reflete dentro das escolas. “Temos diversas políticas que têm por objetivo a prevenção de todas as formas de violência no ambiente escolar, mas o desafio é fazer com que essas situações sejam identificadas, diagnosticadas e resolvidas através do diálogo e da orientação, conversando com os pais e demais envolvidos”, explica.

Douglas Dittrich, coordenador de gestão escolar da SME, cita que a rede municipal, por atender alunos mais novos – até o 5º ano do ensino fundamental -, registra menos ocorrências, mas afirma que a prioridade é tentar agir na origem dos distúrbios. “Nós não podemos agir de maneira punitiva para resolver esse problema. O que temos que fazer é tentar promover o diálogo e tentar resolver o que gera esses distúrbios, que via de regra acontecem por desrespeito às diferenças”.

Sindicatos cobram mais segurança

Os frequentes episódios de violência nas escolas públicas preocupam muito as entidades de classe dos trabalhadores na educação. Para Luiz Carlos Paixão da Rocha, secretário de imprensa da APP-Sindicato, as condições de trabalho dos educadores são delicadas. “É uma situação que nos preocupa e é preciso agir. Temos que ter nossa hora-atividade regulamentada. Pesquisa do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo mostra que 42% dos profissionais já sofreram algum tipo de agressão em sala de aula. Aqui não temos números exatos, mas com certeza temos um dado próximo ao de São Paulo, pela nossa experiência”, diz.

De acordo com Suzana Pivato, diretora do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac), a entidade exige há anos o reforço na presença da Guarda Municipal nas escolas públicas. “Oferecemos orientação para os profissionais lidarem com situações de violência nas escolas, mas não é suficiente. A segurança tem que ser reforçada. Sabemos de inúmeras situações de ameaças por parte de alunos e pais, mas isso tem que parar. A situação está ficando cada dia mais grave”, analisa.

Internet amplifica violência

As autoridades apontam as redes sociais como elemento fundamental para o aumento do número de brigas nas instituições de ensino da Grande Curitiba. De acordo com o capitão Ricardo da Costa, comandante da 1ª Companhia do Batalhão de Patrulha Escolar, a maioria dos enfrentamentos entre estudantes é agendada na internet. “Quando chegamos numa ocorrência e apuramos, logo nos certificamos que a briga foi marcada numa rede social. E são nesses sites que as brigas acabam ganhando amplificação”, explica.

Para a delegada Nilceia Ferraro da Silva, titular da Delegacia do Adolescente, os alunos envolvidos nas brigas se utilizam das redes sociais como instrumento de afirmação entre colegas de escola. “Quando um vídeo de uma briga é postado, esse adolescente envolvido acaba ficando conhecido, se impondo em seu universo. Há uma banalização da violência e as redes sociais amplificam isso”, avalia.