Ex-detento cria ONG para auxiliar presos

Um ano e dez meses atrás das grades, Oscar Moreira, 32 anos, deixou a Casa de Detenção Provisória de São José dos Pinhais disposto a ajudar seus colegas que permanecem no sistema penitenciário. Para isso, ele está criando a organização não-governamental (ONG) Amigos Nova Jerusalém Organização Social (Anjos). ?A idéia é ajudar as famílias dos presidiários e também os detentos, quando saem da cadeia?, contou Oscar, que em dois meses já conseguiu a doação de um terreno na Vila Sabará, na Cidade Industrial (CIC) para sediar a ONG Anjos.

O ex-preso, que perdeu a liberdade sob a acusação de ser mentor de um assalto contra carro-forte em Santa Catarina, diz que nos primeiros seis meses estava revoltado com a prisão. ?Depois comecei a perceber que a vida no mundo do crime era só sofrimento para mim e para minha família?, contou. Disposto a mudar de vida, ele, que não tinha religião, tratou de arrumar uma, mesmo dentro do presídio, e começou a lutar pelos direito dos presos e surgiu a idéia de criar a ONG.

Ele conta que estava recolhido na casa de custódia, em julho do ano passado, quando resolveu denunciar os maus-tratos causados por agentes penitenciários e a falta de atendimento médico. Na época, Oscar escreveu um bilhete para O Estado e no dia da visita entregou a sua mãe, para encaminhar à redação. ?Levei o bilhete debaixo da língua para não ser descoberto pelos agentes e felizmente minha mãe conseguiu levar ao destino?, lembra Oscar. Segundo ele, após a publicação da reportagem, a vida dos 493 detentos mudou. ?Não entrava rádio nas celas, não tinha caneta, papel. Depois da reportagem, os presos foram autorizados a escrever dez cartas durante o mês. Podem desenhar, escrever e até ouvir rádio?, ressalta. ?O sacrifício valeu. Mandei o bilhete e ele foi publicado?, comemora.

Trabalho é fundamental

Alberto Melnechuky
Presos pedem ajuda por cartas.

Um dos objetivos da ONG Anjos é ajudar na ressocialização dos detentos quando eles deixam o sistema penitenciário. ?Hoje, muitos deles já planejam assaltos antes mesmo de sair em liberdade?, conta Oscar Moreira, porque a vida fora das grades fica bem mais difícil e muitos detentos saem até sem documentos. ?Eu tive que refazer meus documentos, a polícia perdeu todos?, reclamou.

Outro fato que colabora para que o ex-preso retorne ao mundo do crime, segundo Oscar, é a discriminação da própria sociedade. ?Além de não ter documentos, ninguém está disposto a dar um emprego para alguém que errou. Mesmo que seja uma única vez. Desta forma, eles acabam retornando para praticar crimes?, diz. Ele salienta que as associações criminosas começam dentro da própria cadeia. ?Mesmo os que não querem voltar, acabam cedendo. Ele sai, tenta arrumar um emprego, não consegue. Como sua família está passando necessidades, o retorno ao delito é automático?, assegura.

A idéia da Anjos é procurar empresários dispostos a empregar as pessoas que deixam o sistema penitenciário. ?O que os ex-presidiários precisam é de uma oportunidade. Infelizmente, isso hoje é só um sonho não existe?, comenta.

Oscar revela que também quer viabilizar a comercialização de artesanatos. ?Muitos aprendem dentro da cadeia e depois podem se tornar uma profissão e até mesmo um meio de obter renda sem praticar crimes?.

Famílias

Outra intenção de Oscar é ajudar a família dos detentos através da ONG, criando oportunidades de trabalho e auxiliando com doação de alimentos. ?A maioria das famílias não sabe, mas o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) tem o auxílio-reclusão. A família do preso tem direito de receber o benefício?, revela. Ele diz que o grande problema hoje é a falta de informação e de recursos. ?Os locais são distantes e a maioria não tem condições nem de pagar a passagem de ônibus?, lamenta. (VB)

Pelas ondas do rádio

Alberto Melnechuky
Payakan (de boné) é ouvido
em dois presídios.

Com a autorização para que os presos ouvissem rádio dentro da Casa de Custódia de Curitiba (CCC), onde Oscar Moreira ficou recolhido durante um ano e três meses, ele começou a ouvir o programa ?Hora da Saudade?, apresentado pelo radialista Paulinho Payakan, das 22h às 24h, na rádio comunitária Curitiba FM (98.3), que mandava recados e ?alôs? para detentos. E assim o ex-preso encontrou um grande parceiro para seu projeto. A rádio, por ser comunitária, não tem longo alcance, mas atingiu detentos do 11.º DP e da CCC, que se situam naquele bairro.

Payakan conta que nem imaginava que seu programa seria destinado a ajudar presidiários e familiares deles. Tudo aconteceu por acaso. Há dois anos e meio, quando começou o programa, o objetivo era tocar músicas de raízes e MPB com a participação de ouvintes. ?De repente familiares de presos começaram a participar e mandar músicas e abraços para filhos e maridos. Depois começaram os recados?, lembra.

Inicialmente o programa era ouvido pelos presos da cadeia do 11.º Distrito (CIC) e depois expandiu para Casa de Custódia. ?Quando vi, estava recebendo cartas dos próprios presos?, conta Payakan. Hoje, seu programa recebe aproximadamente 30 cartas por semana. Na maioria há pedidos de ajuda jurídica, mas algumas solicitam roupas, calçados, cobertores. ?Ainda não é possível atender a todos, mas estamos buscando ajuda?, salienta o radialista. Payakan ressalta que para resolver a situação jurídica dos detentos, procurou a chefe da Defensoria Pública, Silvia Cristina Xavier, que já foi ao seu programa esclarecer dúvidas dos detentos. ?Eu também não sabia, mas os presos que não tem condições tem direito a um advogado do Estado?, frisa Payakan. (VB)

 

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