Um estudo inédito publicado em junho na revista científica Science Advances aponta que os aquíferos ao redor do Brasil estão perdendo capacidade de recarga, comprometendo o abastecimento de água subterrânea. Os sistemas que afetam o Paraná aparecem entre as áreas que registram os declínios mais significativos ao longo do período analisado.
A pesquisa reúne dados de 2002 a 2023 e é considerada o maior levantamento já realizado sobre o tema.
Entre os seis grandes sistemas brasileiros avaliados, dois chamam atenção no território paranaense. O Aquífero Bauru-Caiuá apresentou uma tendência de registrar anos sem reposição de água, enquanto o Aquífero Guarani também mostrou redução gradual da chamada recarga profunda — processo em que a água da chuva infiltra lentamente no solo até abastecer os reservatórios subterrâneos. Apesar desse cenário, o Paraná ainda apresenta uma situação mais favorável do que outras regiões do país.
“Entre o estado de São Paulo e o Triângulo Mineiro, observamos regiões com perda efetiva de água subterrânea. No Paraná, o aquífero Bauru-Cauiá está em uma área peculiar. A influência das águas superficiais, especialmente da região do reservatório de Itaipu, contribui para manter um armazenamento mais estável. Por isso, o sistema não apresenta perdas tão expressivas quanto em outras regiões”, explica Clyvihk Renna Camacho, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e um dos autores do estudo.
Os pesquisadores também identificaram que a redução da recarga do Aquífero Guarani se intensificou após o El Niño de 2015/2016. Embora o fenômeno também tenha sido observado no Paraná, o declínio ocorre de forma menos intensa do que em estados como São Paulo e Rio Grande do Sul. Nos aquíferos Serra Geral e Karst, por outro lado, o comportamento permanece considerado estável.
Uso da água dificulta recuperação das reservas
A capacidade de reposição dos aquíferos varia conforme as características geológicas de cada sistema. Segundo os pesquisadores, o aumento das temperaturas e as alterações no ciclo hidrológico vêm reduzindo ainda mais essa capacidade de infiltração. Com mais calor, cresce a evapotranspiração — processo em que parte da água retorna à atmosfera antes de conseguir penetrar no solo —, diminuindo o volume que efetivamente alcança os reservatórios subterrâneos.

Além das mudanças climáticas, a intensa utilização da água também dificulta a recuperação natural dessas reservas. A exploração ocorre principalmente por meio de poços artesianos destinados ao abastecimento urbano e à atividade agropecuária. No Paraná, dados da Sanepar mostram que existem cerca de 1,2 mil poços regulamentados em operação. Aproximadamente metade dos municípios paranaenses depende exclusivamente dessa fonte para o abastecimento da população.
Embora o cenário paranaense ainda esteja distante das situações mais críticas observadas, o estudo alerta que regiões brasileiras já apresentam sinais semelhantes aos registrados em áreas tradicionalmente áridas. É o caso de partes do Nordeste e do Sudeste.
“Em Bangladesh, no noroeste da Índia e em áreas centrais dos Estados Unidos, o nível dos aquíferos caiu mais de 20 metros em alguns locais. Isso torna a extração cada vez mais cara, porque exige sistemas de bombeamento mais potentes, elevando os custos da produção agrícola”, explica Augusto Getirana, cientista do Centro Goddard de Voos Espaciais, da NASA, e um dos autores do estudo.
Para o pesquisador, ampliar o monitoramento das águas subterrâneas é essencial para evitar que episódios de estiagem evoluam para crises hídricas mais graves. “O monitoramento não impede que a seca aconteça. O que ele permite é evitar que uma seca se transforme em uma grande crise hídrica. Quando conhecemos o comportamento dos aquíferos, conseguimos planejar melhor o uso da água, antecipar problemas e reduzir os impactos econômicos e sociais”, afirma.
Monitoramento ainda é um desafio para o setor
Para mapear o comportamento das águas subterrâneas em todo o Brasil, os pesquisadores desenvolveram uma metodologia inédita que combina inteligência artificial (IA), imagens de satélites da NASA, dados de poços cadastrados na Rede Integrada de Monitoramento de Águas Subterrâneas (Rimas) e informações hidrogeológicas. A tecnologia permitiu reconstruir a variação do armazenamento de água nos aquíferos entre 2002 e 2023.
Segundo Otto Correa Rotunno Filho, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos autores do estudo, o diferencial da pesquisa foi integrar informações obtidas em escalas muito diferentes por meio de técnicas de machine learning.
“Um poço fornece dados extremamente localizados, enquanto um satélite produz informações de áreas muito maiores. Conseguimos integrar essas duas fontes e produzir um diagnóstico de todo o território, com resolução espacial de aproximadamente 10 quilômetros. Os resultados obtidos já começam, inclusive, a ser confirmados por estudos regionais desenvolvidos em estados como o Paraná”, explica.
No Paraná, o monitoramento das águas subterrâneas também vem ganhando espaço. Desde 2025, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolve, em parceria com a Sanepar, o projeto Segue Hidro, voltado ao acompanhamento do comportamento dos aquíferos por meio de aproximadamente 1,5 mil poços de monitoramento.
A iniciativa se soma ao projeto Hidrosfera, mantido desde 2018 em parceria entre com a Itaipu Binacional, que monitora uma área de cerca de 8 mil quilômetros quadrados na Bacia Hidrográfica Paraná III.
Apesar dos avanços, ampliar esse monitoramento ainda representa um desafio financeiro. Segundo o professor Gustavo Athayde, do Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas (LPH-UFPR), a instalação de poços exige estudos geológicos detalhados, definição da profundidade ideal, estrutura de proteção contra contaminações e equipamentos específicos.
“Esses poços são utilizados para monitoramento e não para abastecimento. São obras de engenharia relativamente caras, que podem custar entre R$ 70 mil e R$ 100 mil quando executadas de acordo com as normas técnicas”, afirma.
Modelo pode ajudar a entender impactos do El Niño
Embora ainda não seja possível prever com precisão como as mudanças climáticas afetarão cada aquífero, pesquisadores afirmam que ampliar o monitoramento é um caminho para compreender esse comportamento e orientar políticas de gestão da água.
Segundo Gustavo Athayde, transformar as águas subterrâneas em dados confiáveis é um passo importante para antecipar problemas. “Ainda não temos informações suficientes para afirmar com rigor científico como a intensificação dos eventos climáticos afetará cada aquífero. O que sabemos é que, como as águas subterrâneas estão conectadas aos processos que ocorrem na superfície, é natural esperar que também respondam às mudanças do clima”, afirma.
A metodologia apresentada no estudo publicado na Science Advances poderá, futuramente, ser aplicada em diferentes escalas para ampliar esse conhecimento. Mesmo que o modelo não tenha sido desenvolvido para fazer previsões climáticas, ele pode ajudar pesquisadores a compreender como fenômenos como o El Niño influenciam a dinâmica das águas subterrâneas e os impactos sobre o território.
Segundo o pesquisador Clyvihk Renna Camacho, o nível de armazenamento dos aquíferos interfere diretamente na capacidade do solo. “Quando o armazenamento está elevado, existe menos espaço disponível para infiltração durante períodos de chuva intensa. Considerando a previsão de um El Niño muito forte, isso significa que parte da água tende a permanecer na superfície, aumentando o escoamento e favorecendo enchentes e movimentos de massa, como deslizamentos de terra”, explica.
Na UFPR, esses efeitos também vêm sendo estudados. Durante a estiagem de 2020 e 2021, pesquisadores observaram uma queda significativa no nível dos aquíferos, ao mesmo tempo em que a perfuração de novos poços aumentou cerca de 300%, reflexo da maior demanda por água.
Apesar de abordarem aspectos diferentes, as pesquisas convergem para a mesma conclusão: as reservas subterrâneas precisam ser administradas levando em conta os efeitos das mudanças climáticas. “O objetivo não é impedir o uso das águas subterrâneas. Pelo contrário. Queremos utilizá-las cada vez melhor, garantindo que continuem disponíveis para as próximas gerações. Mas só conseguimos administrar adequadamente aquilo que conhecemos”, conclui Gustavo Athayde.
