Foto: Átila Alberti/O Estado

Cohen: avanço rápido.

Quem será competente para decidir o destino da vida? Para o psiquiatra e psicanalista Cláudio Cohen, este é o principal questionamento que surge quando se fala em bioética. Considerado um dos principais especialistas da área no país, ele ministrou palestra, ontem, no Conselho Regional de Medicina do Paraná, dentro do Programa de Formação Continuada em Bioética, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Cohen é coordenador do núcleo de bioética da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da comissão de bioética do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Os temas que atualmente são discutidos na bioética têm uma origem histórica. Cohen diz que houve duas grandes mudanças revolucionárias na segunda metade do século XX: a pílula anticoncepcional e o transplante de órgãos. Com esse último fato veio a clonagem e a criação de novas espécies (transgênicos). Os avanços também permitiram que o homem aumentasse a expectativa de vida, o que causou novos paradigmas sociais e uma crise de valores.

Nesse meio-tempo, houve a medicalização da vida, ou seja, cada vez mais a medicina interferia no comportamento humano. ?Dentro dessa medicalização é que surgem as perguntas ?quando nascemos??, ?um embrião ou uma célula tronco é vida??. Houve discussões também no outro extremo, a morte. Antes, a morte era definida quando o coração parava. Agora, é pela morte cerebral. Isso também levanta a questão da eutanásia. Para mim, a grande questão da bioética é ?a quem pertence a própria vida???, comenta Cohen.

A resposta para isso está ligada à atuação de diversos fatores, entre eles a sociedade, os pesquisadores, a religião e o próprio indivíduo. A genética é o grande alvo de todas as especulações, pois se pode ?alterar o ser humano do jeito que a gente quer?, segundo Cohen. A reprodução assistida se insere nesse contexto. ?Há uma grande discussão entre reprodução assistida e a clonagem. As pessoas aceitam mais a reprodução sexual assistida porque ainda se mantém o sistema de união do óvulo com o espermatozóide. A clonagem quebra esse paradigma?, opina. A clonagem e as técnicas da genética rompem a seleção natural, dando origem à evolução humana, segundo o especialista. A resposta para o futuro da humanidade estaria justamente nesse ponto: se haverá a seleção natural ou a artificial.

Outro ponto muito discutido na bioética é o xenotransplante, ou seja, o transplante de órgãos de animais para o ser humano. Ratos e porcos já são criados especialmente para este fim. ?As terapias gênicas também serão o grande avanço da medicina, pois será possível introduzir um gene em um indivíduo para um tratamento específico?, anuncia Cohen.

O especialista lembra que, no Brasil, a lei n.º 11.105/2005 normatiza as pesquisas com organismos geneticamente modificados e seus derivados. A legislação indica o que é proibido, permitido e obrigatório nestes casos. ?Este é um primeiro passo, mas provavelmente esta lei deverá ser revista, porque o avanço nesta área é muito rápido. A bioética vem justamente para ajudar a criar novas leis?, comenta Cohen.