O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (08/03), é marcado por uma luta histórica por igualdade de gênero e pela busca de direitos políticos. E enquanto os números de violência de gênero seguem em ascensão, a violência contra a mulher continua sendo pauta comum da data.

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Por que os números ainda crescem? Diante da solicitação de medidas protetivas no Paraná, que somente em 2025 registrou um número recorde de 91 mil pedidos – de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), é essencial dizer: violência de gênero é um problema social que precisa de atenção urgente.

Toda mulher conhece outra mulher que sofreu algum tipo de violência, mas nem todos conhecem um agressor. Ele não é um monstro, mas um homem comum. Pode ser um amigo querido, um filho presente, um profissional competente aos olhares do chefe. Enquanto os casos seguem tratados como um descontrole individual, a violência se mantém naturalizada culturalmente.

Jéssica Mendes, psicóloga do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (NUDEM) da Defensoria Pública do Paraná desconstrói a ideia do agressor como um “monstro”, do sujeito que age por total descontrole e sem consciência real do que faz.

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“Eu acho muito perigosa essa reflexão, que de alguma forma coloca homens como autores de violência em uma posição de pessoas ruins, do mal, que naturalmente tem uma essência perversa ou qualquer coisa que tencione esse debate para um campo de patologização dessas condutas. Estamos falando de um homem comum. O autor da violência é muitas vezes visto como um excelente pai, um excelente amigo, um excelente parceiro. Ele pode ser visto pelo chefe como aquele funcionário exemplar”, reflete.

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Para a especialista, é preciso abandonar o mito do agressor como “monstro”. “Todo e qualquer homem, a partir do momento que usufrui desse lugar de poder na sociedade patriarcal, ele é um agressor em potencial”.

Existem “sinais de alerta”?

A violência de gênero, no entendimento da especializa, se atualiza constantemente. O que antes eram claros sinais de alerta, hoje são cada vez mais sutis. O ciúmes explosivo de antes agora vem disfarçado de cuidado. Proibições e controle no uso de roupas podem ser sutis. Hoje há também o controle no uso das redes sociais, violências que acontecem no contexto da internet.

“A medida que a gente vai criando mecanismos para nomeação, identificação dessas violências para a ação do Estado, a gente vai também impactando de alguma forma a maneira como essas violências acontecem. Ela vai se tornando cada vez mais sofisticada. Justamente numa tentativa de preservar esse lugar de poder, exercido pelo homem, que é a causa da violência”, salienta.

A psicóloga alerta para comportamentos que são sinais de alerta para situações de violência. “Ciúme excessivo, qualquer tentativa de controle que procure, que almeja interferir na autonomia dessa mulher, seja com relação às pessoas com quem ela se relaciona, seja com relação às roupas que ela usa, os lugares que ela frequenta, o próprio uso das redes sociais. Qualquer tentativa de limitação dessa autonomia de vontade, ou de fiscalização excessiva sobre essa intimidade da mulher, é um sinal de alerta sem dúvida nenhuma”.

Não é simples ler os sinais de um agressor

Não perceber os sinais de agressão sutis não é uma incapacidade da vítima. A psicóloga defende a necessidade de se refletir sobre o perigo de julgar a mulher por uma suposta incapacidade de não perceber abusos. “O próprio ciúme, ele é reforçado e incentivado culturalmente como uma demonstração de afeto, de amor. Então o ciúme tende a ser reforçado como amor legítimo e genuíno, uma preocupação com a outra pessoa”, revela.

A dificuldade em ler os sinais de um agressor é generalizada. “Não estamos falando de mulheres que não conseguem enxergar essas nuances, mas de toda uma cultura que se impõe, de determinada forma, a naturalizar essas condutas, o que dificulta. Como a gente questiona aquilo que de alguma forma não nos parece estranho, não causa incômodo? Se a gente parte de condutas e comportamentos que são naturalizados, a minha capacidade de percebê-los fica muito limitada“, reforça Jéssica Mendes.

É natural que casais tenham conflitos, diferenças – fatos que são inerentes a qualquer relação. A convivência em sociedade é cheia de conflitos. Então, como diferenciar um atrito de uma violência? A psicóloga reforça que tudo que impede a mulher de interagir com outras pessoas, tomar decisões que são importantes para ela, e que limita a liberdade e a autonomia dela é violência.

Segundo a psicóloga, a mulher que sofre violência, em alguma medida, tende a ser desumanizada por esse agressor. “É como ela não tivesse, de fato, o direito de escolher, de decidir, de tomar a própria vida e tomar as próprias decisões. Esse processo de objetificação diz justamente sobre uma relação que não é equivalente, que não é igual. A partir do momento que você silencia a outra parte, que sonega a humanidade dessa outra parte, é uma violência”.

Abuso de drogas ou a doença mental: o perdão social que se dá ao agressor

Numa situação de violência de gênero, o raciocínio comum da sociedade está em transformar o agressor em uma pessoa má – o que na visão da psicóloga Jéssica Mendes, é ruim do ponto de vista social. “A gente precisa fugir desse raciocínio de que o agressor é um homem mau e que só homens maus praticam violência. Todo homem, a partir do momento que usufrui desse lugar de poder na sociedade patriarcal, ele é um agressor em potencial”.

A psicóloga esclarece que muitas mulheres acabam justificando a violência que sofrem como eventos isolados, pontuais, e que estão relacionados, por exemplo, ao abuso de álcool. “A gente precisa retomar que o álcool potencializa os riscos inerentes à violência, mas esse comportamento está posto. Por que? Porque não é uma agressão que vai ser dirigida a qualquer pessoa. Esse autor de violência não é o cara que vai beber hoje, vai chegar daqui a pouco e vai espancar o chefe dele, ele vai espancar a mulher. E porque a mulher? Justamente por esse processo de desumanização“.

A condição da saúde mental é uma justificativa também muito comum para atenuar a violência feita por esse agressor. Para a especialista, é interessante refletir como a condição mental é apontada para a mulher como um descrédito, que relativiza o sofrimento que ela narra. No entanto, para o autor da violência, isso se torna uma justificativa. “É quase como se a gente concedesse um perdão social, um perdão moral para ele. ‘Então tudo bem, porque ele estava sob efeito de alguma coisa, porque ele estava adoecido’, enfim”, explica.

Homens: o problema também é de vocês

O último dado da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que uma a cada três mulheres são sofreu algum tipo de violência. Diante de um dado tão significativo, mobilizar os homens para mudar essa realidade tem sido fundamental. “Sem a mobilização dos homens, a gente acaba lidando com essa temática sempre numa perspectiva muito mais protetiva do que preventiva”, reforça Jéssica Mendes.

Enquanto a violência de gênero não for emplacada como um tema essencial, sem prevenção, os dados vão continuar a crescer dia a após dia. “Existe um pacto de silêncio e de proteção. Conhecemos muitas mulheres que sofreram violência e nenhum agressor. Eles se protegem. Existe um senso de proteção, que muitas vezes encontra respaldo inclusive nos equipamentos estatais”.

A mudança de cenário, na visão da psicóloga, deve passar pela educação, mas não somente a educação formal, a educação no sentido de repensar sobre o padrão de comportamento que está sendo ensinado aos meninos e meninas.

Como combater a violência de gênero no cotidiano, na roda entre amigos, na família? “Eu penso muito no lugar do desconforto, do quanto é importante nesses processos de relações interpessoais, a gente causar o desconforto quanto a gente se depara com a reprodução desses pensamentos machistas e misóginos. Quando você causa dúvida na pessoa, quando você problematiza algo que para ela é tão naturalizado, torna aquilo reflexivo.

Para a psicóloga, a problematização pode soar violento para quem escuta. “Essa relação pedagógica é bastante desgastante também, porque a gente está ali num lugar de constante problematização, mas surte muito efeito, porque embora muitas pessoas não tenham a possibilidade de alcançar uma reflexão profunda sobre o tema, elas continuam tomando decisões diariamente que sustentam essa lógica de poder”.

Não se posicionar é ir a favor do agressor

Uma mudança de postura sugerida pela psicóloga Jéssica Mendes, para reverter o alto índice de violência de gênero dos últimos anos, é se posicionar a respeito do problema. “Quando, eu tenho um amigo que está me contando sobre algo violento e grave que fez com a companheira e eu simplesmente não me posiciono, eu estou indo a favor dele”.

Outro ponto fundamental é oferecer suporto para outras mulheres, para que elas possam sair dos ciclos de violência. “Muitas vezes a gente não sabe o que ela está passando e talvez ela não compartilhe com você, mas no momento em que ela vive ali uma situação de crise, de decisão pelo término de uma relação, em que ela se vê ali com inúmeros conflitos pessoais em relação a isso, vulnerável, desamparada, que ela possa saber para quem recorrer para questões práticas. Se ofereça a ficar com o filho enquanto ela vai até a delegacia, por exemplo. São situações muito simples”.

Oferecer um suporte, se colocar ali como alguém que vai acionar a polícia numa situação que está visivelmente ali fugindo do controle é fundamental. “Eu aciono a polícia que está treinada para isso, mas eu tenho a responsabilidade de acionar, porque se depender dessa vítima, talvez ela não tenha chance de acionar a polícia militar. E ainda que a polícia chegue e ela fale ‘não, não está acontecendo nada’, mas ainda assim, essa minha decisão de acionar a polícia pode ser determinante entre a vida e a morte dessa mulher”.  

Há vários caminhos possíveis para ser apoio, suporte e ajuda a mulheres vítimas de violência. “São caminhos possíveis, ser apoio, ser suporte de outras mulheres, falar sobre esse tema, constranger quando tiver que constranger, mas no sentido de fazer as pessoas repensarem o quanto elas contribuem com esse cenário”.

Diante de qualquer situação de violência doméstica ou familiar, denuncie!

Canais de denúncia em Curitiba

Patrulha Maria da Penha: (41) 3221-2760

Central de Pré-Atendimento à Mulher: 180

Guarda Municipal Emergência: 153

Polícia Militar Emergência: 190

Casa da Mulher Brasileira: (41) 3221-2701 ou 3221-2710

Delegacia da Mulher: (41) 3219-8600

Defensoria Pública: (41) 3221-2731

Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher: (41) 3200-3252