Em 2025, o mercado de economia criativa atingiu a marca de 77 mil empregados no Paraná, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Em trajetória de crescimento, somente em Curitiba, estima-se que os setores ligados às atividades criativas, à tecnologia e aos serviços digitais respondam diretamente por 3% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da capital, avaliado em R$ 120 bilhões pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em âmbito nacional, as estimativas apontam que essa indústria movimentou R$ 393,3 bilhões, o equivalente a 3,59% do PIB brasileiro, e gerou 1,26 milhão de empregos formais, de acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa da Firjan. Considerando o mercado de trabalho total, formal e informal, mapeado pelo Observatório Fundação Itaú, o setor alcançou quase 7,8 milhões de trabalhadores.
Esse mercado bilionário reúne atividades ligadas à publicidade, ao marketing, à arquitetura, ao design, à moda, à pesquisa e desenvolvimento, além da produção audiovisual e musical. No Paraná, segundo dados do Ministério do Trabalho, o mercado de tecnologia é o principal motor do crescimento regional, seguido por publicidade e pesquisa de mercado, que somam mais de 11 mil postos de trabalho no estado.
Entre os segmentos que lideram o setor no Paraná também estão os serviços de informação e conteúdo e mídia e gravação, cada um com cerca de 8 mil empregos. O setor de eventos, shows e entretenimento também está em alta. Em comparação com o período pós-pandemia, em 2022, quase dobrou de tamanho, passando de 631 para 1.184 empregos formais em 2025.
No entanto, segundo Raphaella Caçapava, de inteligência e relacionamento de mercado do Hub Curitiba Mais Criativa, para compreender o potencial do setor é preciso enxergar a criatividade como um ativo. Ela funciona como um pilar de inovação que atende indústrias consolidadas, como o próprio agronegócio paranaense, ajudando a solucionar problemas complexos e aumentar a competitividade das empresas.
“A economia criativa não é apenas aquilo que associamos às expressões artísticas, como festivais de teatro, shows e cinema. É uma economia quando a criatividade vira valor. E, quando falamos em valor, não necessariamente estamos falando só de dinheiro. É quando uma ideia, um conhecimento, uma habilidade, uma expressão cultural ou uma experiência consegue gerar um caminho econômico”, explica.
Economia criativa na ponta
Na ponta das startups, das organizações e do empreendedorismo, a criatividade funciona como matéria-prima para transformar ideias em capital intelectual e gerar renda. Essa perspectiva está na trajetória de Meroly Felizardo, criadora da Emporium Handmade, que atua na produção de feiras de marcas criativas e de produtos feitos à mão em Curitiba.
Filha de empreendedores que entraram no ramo por necessidade, Meroly começou a produzir acessórios de cabelo em Curitiba, em 2012. Ao viajar para feiras fora do estado, percebeu que artesãos e designers autorais não tinham na capital paranaense um evento rentável e estruturado voltado ao trabalho feito à mão.
A partir dessa percepção, iniciou, há 12 anos, uma feira independente para fomentar a cultura do “comprar de quem faz“, conectando artistas autorais ao consumidor local. Atualmente, o projeto funciona como uma comunidade estruturada que caminha para se tornar um ecossistema.
“Com o tempo, percebi que a Emporium era muito mais do que uma feira. Já era um ecossistema formado por quem participa expondo seu trabalho e pelas pessoas que valorizam — que a gente chama de ‘local lovers‘. Hoje, somos um negócio de impacto e estamos criando uma startup de inovação, mas sem perder o core principal, que é a valorização e o reconhecimento das pessoas que fazem”, afirma.
Segundo a empreendedora, independentemente do ramo, a criatividade é um dos principais ativos para expandir os horizontes dos negócios. Por meio de trabalhos manuais, por exemplo, o ecossistema já tem colaborado com diferentes perfis de empresas.
“A criatividade é muito necessária para resolver problemas rapidamente e ter repertório. Às vezes, um insight corporativo surge de uma oficina manual. A manualidade desperta as pessoas: começa como um hobby para desconectar da internet, vira uma marca e, muitas vezes, torna-se uma transição de carreira para quem não aguenta mais a pressão do mercado tradicional.”
Empreendedorismo e economia criativa
No perfil de negócios em que Meroly se enquadrava há mais de dez anos, atualmente estão cerca de 1,12 milhão de paranaenses. Um levantamento do Sebrae/PR indica que aproximadamente 47,3% dos trabalhadores por conta própria e dos negócios ativos do estado são microempreendedores individuais.
Mesmo que participem de feiras e mantenham seus negócios em funcionamento, a carga tributária, aliada ao aumento dos custos operacionais, como energia, insumos e aluguel, ainda impõe desafios ao setor. “Iniciativas podem ter os melhores propósitos, mas, se não tiverem incentivo fiscal e financeiro, elas não conseguem sair do papel ou impactar de fato na escala necessária”, explica Meroly.
Entre os empreendedores, Raphaella aponta que, além dos custos, o próprio perfil dos negócios exige que os profissionais se dividam entre diferentes funções para dar conta da gestão e da produção. “O grande desafio do pequeno empreendedor é que ele tem que fazer o serviço ou produto que desenvolve, mas também precisa gerenciar toda a pequena empresa: financeiro, compras, fornecedores”, aponta.
Para avançar na discussão sobre a valorização do setor, no entanto, a solução novamente passa por reconhecer a própria criatividade como capaz de agregar valor. “A economia criativa não deveria apenas perguntar como apoiar quem trabalha com criatividade. A criatividade deveria ser uma parte estratégica do desenvolvimento do Estado”, completa Raphaella.
Como valorizar este mercado?
Na avaliação de Raphaella, para valorizar de fato o mercado, o setor ainda precisa ser quantificado. A transversalidade da economia criativa faz com que parte do valor incorporado à indústria tradicional, assim como o trabalho informal, fique de fora das estatísticas oficiais dos governos estaduais e federal.
“Precisamos conhecer realmente a realidade da economia criativa do Paraná. Hoje, não temos esses dados. Temos que criar um observatório com dados por município e separar por cadeias, como audiovisual, design e arquitetura. Não apenas quantas empresas existem, mas quantos empregos geram, quanto de renda e propriedade intelectual é gerada”, afirma.
A partir desses dados, seria possível avaliar o cenário e criar novas políticas públicas voltadas ao fomento da economia criativa. Ainda assim, a discussão sobre políticas públicas não deve se limitar à pergunta “como apoiar quem trabalha com arte e cultura”, mas avançar para “como a criatividade pode ser um pilar estratégico do desenvolvimento“.
“Precisamos buscar linhas de financiamento, créditos, linhas especiais e mecanismos de fomento adequados para esse tipo de cadeia produtiva. Localmente, podemos propor um coletivo. Por exemplo, um artesão compra pouco de determinada matéria-prima, mas talvez muitas pessoas possam comprar juntas e reduzir esse custo. Para isso, é necessária uma organização quase como uma cooperativa”, acrescenta.
