Ingressar na Universidade Federal do Paraná (UFPR) é o sonho de mais de 58 mil inscritos no vestibular que acontece em dezembro. Desses, apenas pouco mais de 4.100 estarão nos bancos universitários no ano que vem. E mesmo assim, parte desses parcos privilegiados deve desistir do curso ao longo dos anos. É o que indica levantamento feito pela Pró-Reitoria de Graduação (Prograd): a evasão de alunos é de cerca de 40%. Ou seja, dos quase 42 mil alunos da UFPR em dez anos, pelo menos 16 mil não concluíram o curso. Entre os principais motivos da evasão estão a pouca informação por parte do aluno sobre o curso, influência dos pais, imaturidade do candidato.

“Estamos trabalhando para identificar as causas da evasão e tentar prevenir”, conta a diretora do Departamento de Assuntos Acadêmicos (DAA), vinculado ao Prograd, Rosana de Albuquerque Sá Brito. Segundo ela, falta informação aos alunos de ensino médio. “Alguns escolhem a profissão na hora de fazer a inscrição no vestibular. São jovens que não sabem o que querem, fazem escolhas e depois verificam que não era aquilo que imaginavam”, comenta.

Para tentar suprir essa necessidade, Rosana conta que a Prograd deve promover no ano que vem a Feira das Profissões, onde os estudantes terão acesso ao conteúdo dos cursos e perspectivas do mercado de trabalho. Além da falta de informações, Rosana afirma que a opinião dos pais também pode influenciar na escolha de uma profissão errada. Ou o problema pode estar com o próprio aluno, que tem dificuldades em dar prosseguimento ao curso. “Estamos levantando os motivos da evasão. Depois, deveremos trabalhar especificamente com cada curso e as coordenações”, conta a diretora.

Na UFPR, a média de desistência está bem acima do que indica a literatura mundial. “A evasão acontece em todas as instituições, até na conceituada Harvard, onde a média é de 25%. Se conseguirmos atingir esse índice, já vai ser bastante significativo”, diz Rosana. Embora a média da UFPR seja de 40%, ela conta que em alguns cursos a desistência chega a 80%. É o caso de Física, que registrou evasão de 80% no período de 1988 a 1997, ou seja, 616 alunos não se formaram. Em Estatística, a situação é semelhante: desistência de 80% entre 87 e 96, o que resulta em 456 estudantes sem o canudo. Já entre os cursos mais concorridos no vestibular, como é o caso de Medicina, o índice cai bastante: cerca de 7%, conforme levantamento de 87 a 96. “Quem passou em Medicina, por exemplo, sabe que foi difícil e vai pensar duas vezes antes de desistir. No entanto, quando o curso é pouco concorrido, o aluno pode achar que é fácil passar no vestibular”, acredita Rosana.

Para preencher as vagas, o Núcleo de Concursos da UFPR vai promover um teste seletivo em meados de fevereiro. Até 15 de setembro, o número de desistentes chegava a 1.247. “Como é uma instituição pública, a sociedade tem direito a essas vagas.”

Instituição inicia 2.º semestre letivo

Cintia Végas

A UFPR iniciou ontem seu segundo semestre letivo. No total, 25 mil estudantes, de cursos de graduação e pós-graduação, voltaram às aulas. Quem não ficou para exame final, teve três semanas de férias. Já quem ficou, pôde descansar apenas sete dias.

O fato de as aulas do segundo semestre começarem em outubro e não no fim de julho ou início de agosto, como normalmente acontece, se deve à greve realizada por professores, técnicos e funcionários entre os meses de agosto e novembro do ano passado. As atividades da universidade ficaram paralisadas por 110 dias, sendo que os grevistas pediam reajuste salarial, melhores condições de trabalho e abertura de vagas para novos professores.

“Apesar da greve longa, poucas coisas foram conquistadas”, afirma o pró-reitor de graduação da instituição, professor Valdo Cavallet. “O reajuste foi muito pequeno e a universidade continua carente de professores. Atualmente, são cerca de 2 mil em atividade. O mínimo necessário é 3 mil.”

Segundo Valdo, os estudantes, para recuperar o tempo perdido, terão que ter aulas nos meses de dezembro e janeiro, em pleno verão. Porém não serão prejudicados no que diz respeito ao conteúdo das disciplinas. Todas as aulas perdidas devem ser repostas. “Esperamos que o próximo governo dê maior atenção às universidades públicas. Assim, não precisaremos mais fazer grandes paralisações como a do ano passado”, afirma.

O segundo semestre letivo deve terminar em 21 de março, para quem não ficar em exames finais, e em 2 de abril para quem ficar. Será feita uma pausa entre os dias 13 de dezembro e 20 de janeiro, para que professores, alunos e funcionários possam aproveitar as festas de Natal e Ano Novo. De acordo com a agenda da universidade, o ano letivo de 2003 deve começar no dia 22 de abril.

Calouros

Além dos alunos veteranos, trezentos calouros, pertencentes a oito cursos distintos, iniciaram suas aulas ontem. Eles foram recepcionados no teatro da Reitoria e assistiram a uma palestra sobre educação universitária, ministrada pela professora Terezinha Rios, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Até sexta-feira, eles cumprirão uma agenda extensa de cursos, gincanas, apresentações artísticas, festas e seminários.

Estudante faz escolha prematura

Lyrian Saiki

Para a diretora do Colégio Expoente na Água Verde, pedagoga Maria Luísa Pick, o alto índice da evasão universitária pode estar atrelada à pouca maturidade do aluno. “É muito cedo, aos 16 ou 17 anos, fazer uma escolha profissional”, acredita a diretora. Na tentativa de oferecer maior quantidade de informações aos futuros universitários, ela conta que a escola desenvolve vários projetos, a partir do primeiro ano do ensino médio. “Há palestras com profissionais, visitas a instituições de ensino superior, troca de idéias com coordenadores de cursos e universitários. Tudo isso ajuda”, afirma, acrescentando que a parceria universidade?ensino médio deveria ser maior.

De acordo com a diretora, mesmo com tantas informações disponíveis, muitos alunos chegam ao terceiro ano do ensino médio sem saber para qual curso prestar vestibular.

Estudantes

A estudante Natália Gobbo, de 17 anos, conta que não teve dificuldades em escolher a profissão: está decidida a cursar Engenharia Civil. “Há muito tempo eu penso em fazer Engenharia. Antes, eu estava em dúvida entre Engenharia e Arquitetura, mas busquei informações e vi que o primeiro tem mais a ver comigo, lida com a parte estrutural e não tanto visual”, diz. Para ela, a escolha é consciente: “Tive contato com os professores de universidades, eles me explicaram sobre o campo de trabalho. Foi bem legal.”

Para o estudante Alisson Castro Geremias, 17, a certeza não é tão grande. No ano passado, prestou vestibular para Jornalismo na UFPR e para Química Ambiental no Cefet-PR. Não passou em nenhum deles. Este ano, arriscou em História na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde foi aprovado, e vai tentar Relações Públicas na UFPR. “Ainda sou novo para saber o que quero de verdade. A gente vê uma coisa, vê outra e vai mudando de opinião”, justifica. Ele conta que se ingressar em uma universidade mas não gostar do curso, desiste. “Vou fazer o que tenho vontade. Não me preocupo com o salário.”

Aula no verão desagrada a maioria

Cintia Végas

A grande maioria dos alunos da UFPR se mostra compreensiva com as dificuldades enfrentadas por professores, técnicos e funcionários, que resultaram na greve ocorrida no ano passado. Porém não está feliz com o fato de ter que assistir a aulas em janeiro e fevereiro.

Ângelo Cortina, de 21 anos, que cursa Desenho Industrial, lamenta não poder viajar. “A maioria dos meu amigos vai estar na praia e eu vou ter que ficar em Curitiba estudando”, diz. “Vai ser um pouco chato, mas não há outra solução. Temos que recuperar o tempo perdido durante a greve.”

Sua colega Florence Zaninelle, 19, se preocupa com o calor intenso que normalmente ocorre nos dois primeiros meses do ano. “No calor, é bem mais difícil se concentrar para estudar”, afirma. Ela também estuda Comunicação Social na PUC-PR e conta que vai ficar sem férias. “Quando as aulas terminarem na PUC, ainda estarão sendo dadas na Federal. Quando terminarem na Federal, estarão recomeçando na PUC. Acho que não conseguirei descansar neste verão.”

Já Karla Gans de Jesus, 21, também estudante de Desenho Industrial, diz que o calendário da UFPR a faz perder a noção do tempo. “É muito estranho, pois já estamos quase no final do ano e as aulas do segundo semestre ainda estão começando. Em 2003, o ano letivo só vai começar no fim de abril, o que vai dar aos estudantes a impressão de ainda estarem em fevereiro.”

Algumas turmas de quarto e quinto anos, que se formariam em dezembro, irão encerrar o curso somente em meados de abril do ano que vem. Isto, aliado ao temor de uma nova greve, vem fazendo com que muitas turmas de formandos deixem para planejar mais tarde suas festas de formatura. “Não temos garantias de que uma nova greve não vá ocorrer. O melhor é deixar para marcar mais tarde as datas em salões de baile e anfiteatros”, comenta Florence.