Educação Criativa

Escola prepara para decorar ou para pensar? O desafio da educação para o futuro

imagem mostra sala de aula vazia, com várias carteiras e alinhadas e um quadro branco ao fundo
Foto: Divulgação / Lucas Fremin

O tradicional modelo de ensino pautado na memorização e na repetição de fórmulas começa a dar sinais de insuficiência quando se trata da preparação dos jovens para uma vida profissional que tem exigido mais habilidades comportamentais e atitudes. O último relatório do Fórum Econômico Mundial, publicado em 2025, mostra que as habilidades de pensamento criativo, análise crítica e curiosidade lideram a lista das competências mais buscadas no mercado de trabalho até 2030.

Segundo o estudo, o pensamento criativo ocupa o quarto lugar entre as habilidades mais exigidas atualmente (57%) e figura como a quarta habilidade com maior perspectiva de crescimento de demanda até 2030.

A previsão é de que será exigida uma combinação equilibrada entre competências tecnológicas avançadas e habilidades cognitivas e socioemocionais humanas. Ou seja, mais do que o saber fazer, o mercado busca por um profissional que consiga encontrar soluções diferenciadas.

Ao mesmo tempo, os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) apontam que o desempenho dos alunos brasileiros em pensamento criativo ainda está abaixo do potencial necessário. No relatório, a pontuação média nacional em pensamento criativo foi de 23 pontos, ficando abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que foi de 33 pontos. Na análise, somente 10,8% dos estudantes brasileiros alcançaram os níveis mais altos de desempenho em criatividade.

Diante desse cenário, uma pergunta ganha urgência nas redes de ensino do Paraná: como a sala de aula pode se adaptar para formar cidadãos e profissionais capazes de enfrentar os desafios das próximas décadas?

Professor e head de produtos do Hub Curitiba Mais Criativa, Gabriel Pacher destaca que um dos primeiros grandes obstáculos é quebrar a pré-noção de que criatividade é um dom restrito às artes.

“Criatividade é a capacidade de criar algo novo diante de uma situação inédita. O advogado que precisa pensar fora da caixa para resolver um caso complexo ou o engenheiro que adapta uma construção a um terreno diferente usam o pensamento criativo. O modelo de ensino atual treina o aluno para fazer a conta com maçãs e repete o padrão na prova usando laranjas, sem avaliar o raciocínio crítico”, explica.

Ele afirma que não adianta apenas ensinar uma matéria para o estudante sem mostrar como ele pode utilizar o conhecimento para um raciocínio analítico. “O que está sendo buscado hoje não são habilidades de conhecimento, mas comportamentais. Eu vejo algumas ações acontecendo, mas elas parecem ser vistas como algo complementar, quando na verdade elas já estão se tornando básicas. Temos que entender que não é uma coisa a mais, é algo que tem que se integrar ao restante”.

O educador reconhece que é uma tarefa difícil, mas defende que as escolas passem a incentivar mais o desenvolvimento do pensamento crítico ou criativo que levou a criança a conseguir resolver determinado problema. “Além do conhecimento tradicional, que é muito importante, precisamos entender como foi desenvolvida a competência daquele aluno, até para não travarmos esses estudantes”, diz.

Como trabalhar com a educação criativa nas salas de aula

Para Pacher, a consolidação de uma educação criativa exige uma revisão nos métodos tradicionais de avaliação. Ele afirma que, quando o processo pedagógico se orienta exclusivamente para a preparação de um teste final, a aprendizagem por competências perde espaço, reduzindo anos de desenvolvimento a apenas duas horas de prova pontual.

Ele aponta como alternativa para transformar essa realidade a avaliação por projetos e por competências, modelo que permite acompanhar o estudante de forma contínua e integral ao longo de todas as etapas do aprendizado. “Muitos jovens talentosos se sentem incapacitados porque a prova de duas horas é um fator limitante, mas ganham autonomia e voam quando recebem um projeto real nas mãos.”

Para que essa transição seja possível, ele acredita que o ecossistema escolar precisa investir na capacitação dos professores, preparando-os para identificar e incentivar esses traços comportamentais e cognitivos.

Pensando em maneiras de aprimorar o uso dessas habilidades e da tecnologia, Carol Zanata fundou a startup Vietech em 2019 para atuar capacitando docentes e desenvolvendo kits pedagógicos baseados na metodologia STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática).

Campeã mundial de robótica quando era estudante, ela usou a experiência para apostar em um modelo de robótica educacional como ferramenta no ambiente escolar. Ela afirma que a robótica aplicada à sala de aula funciona como um laboratório vivo de competências. Ao colocar os alunos para construir soluções práticas, a tecnologia ajuda a revelar e cultivar habilidades diversas ainda no Ensino Fundamental — desde o raciocínio lógico e a capacidade analítica até o espírito de liderança, a empatia e a expressão artística.

“Quando falamos de tecnologia na educação, e principalmente agora que está regulamentada a Base Nacional como um currículo da computação, acabam colocando slides ou aplicando uma robótica só por marketing, sem fazer de verdade. Na nossa proposta, por exemplo, temos kits que são voltados para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, para que o aluno sinta pertencimento e não crie algo só por criar”.

Carol cita como exemplo projetos de hortas tecnológicas aplicados pela Vietech na rede pública de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).

Inteligência Artificial: amiga ou vilã para os estudantes?

Para Pacher, a ascensão da inteligência artificial representa um novo ponto de virada na educação, impondo o desafio de definir se a ferramenta atuará como uma aliada do aprendizado ou como um atalho para a acomodação intelectual. Ele diz que a chave do debate não está no bloqueio da tecnologia, mas na mediação sobre como usá-la.

“Precisamos mostrar aos estudantes que a IA é uma ferramenta capaz de amplificar o seu potencial, mas que jamais deve substituí-los. O objetivo é usar a tecnologia para impulsionar o pensamento crítico e a criatividade, e não apenas para resolver a tarefa por eles”, destaca.

Carol alerta que o uso passivo da tecnologia pode reduzir a capacidade criativa dos alunos se não houver intencionalidade pedagógica. “O professor não pode fingir que o aluno não vai usar a IA. A questão é a metodologia: usar a ferramenta na aula de história para conversar com um personagem histórico é um uso rico e crítico. Usá-la apenas para buscar respostas prontas gera um esvaziamento do aprendizado”, destaca.

Da teoria ao impacto na comunidade

Como vitrine dessa aplicação prática na região, a Vietech promove no dia 24 de outubro a 3ª Olimpíada de Robótica de São José dos Pinhais, no Centro de Esporte e Lazer Max Rosenmann, com entrada gratuita para a comunidade acompanhar os projetos desenvolvidos pelos estudantes.

Ações na rede pública

Dados da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) indicam que a disciplina de Robótica, presente em 277 escolas em 2021, foi integrada à matriz curricular do Ensino Médio e hoje alcança mais de 1.300 unidades escolares, atendendo cerca de 200 mil estudantes com projetos baseados em sensores, motores e placas programáveis.

A expansão do ensino de tecnologia na rede estadual também inclui o componente de Programação, presente em todas as escolas para cerca de 500 mil alunos. Segundo dados da Seed, a Inteligência Artificial passou a ser aplicada na rotina das salas de aula por meio de plataformas próprias, como o Redação Paraná. A ferramenta utiliza IA combinada a critérios pedagógicos para fornecer diagnósticos automatizados de produção textual.

Carta-compromisso coloca educação no centro do desenvolvimento estadual

O debate sobre a inclusão do pensamento criativo e da tecnologia nas salas de aula também faz parte da agenda de propostas direcionadas à gestão pública no Paraná. Na “Carta-Compromisso Pelo Futuro Criativo do Paraná”, elaborada pelo Hub Curitiba Mais Criativa para apresentação a candidatos aos Executivos e Legislativos, a “Educação para o futuro” é estabelecida como um dos seis eixos prioritários para o desenvolvimento do estado.

O documento defende o fortalecimento da criatividade como competência educacional, o incentivo a metodologias inovadoras, a expansão da cultura maker e do pensamento crítico, além da aproximação entre escolas, universidades, empresas e comunidades locais. Junto ao pilar educacional, a plataforma de propostas reúne diretrizes voltadas para economia criativa, cidades inteligentes, inclusão territorial, cultura e inovação tecnológica.

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