Um relato do jornalista Ricardo Boechat no Facebook, sobre um surto depressivo que ele teve antes de entrar no ar, na rádio Band News, em agosto, colocou o assunto em evidência. A mente de Boechat não conseguiu acompanhar tantos compromissos e ele sofreu um “apagão”. A mente ficou vazia, ele não podia raciocinar e sentiu desespero. O mesmo ocorreu com uma advogada de 71 anos, de Curitiba, que pensava que depressão só atingia pessoas que não tinham muito o que fazer.

A advogada, que prefere se manter anônima, descobriu que a depressão não escolhe idade, sexo ou condição social. Ela conta que se identificou com o relato de Boechat, porque com ela ocorreu a mesma coisa, em 1994. “As pessoas me pediam pra fazer as coisas porque achavam que eu dava conta. E eu aceitava porque não queria decepcionar. Tinha aquela vaidade, porque diziam que eu era competente, que só eu sabia fazer aquilo. Fui assumindo coisas e mais coisas, até que tive um colapso”, relata.

Vazio

Segundo a advogada, a sensação que teve era a de cabeça vazia, não conseguia concatenar ideias. Por conta da profissão, ela era obrigada a ler muito, mas sentiu-se acometida por preguiça mental, fazia confusão dos textos. “Me dei conta disso no dia que estava numa mesa de trabalho e, na hora da minha fala, eu não conseguia ordenar o pensamento. Me deu um mal estar tão grande, uma dor e um vazio interior, uma sensação de medo, de que nada ia dar certo”. Ela foi alertada por um psicóloga e uma neurologista de que estava com depressão.

Ela buscou ajuda no grupo Neuróticos Anônimos, onde conseguiu se reerguer em três anos. Mas continua frequentando o grupo até hoje, 21 anos depois. “O mundo nos faz neuróticos. E não adianta querer explicar pras pessoas que conhecem pouco ou nada da doença, pois elas acham que é preguiça, frescura, má vontade. Mas não é. A depressão derruba, aniquila. E os doentes acham que ela não tem saída. Mas tem sim”, analisa.

Confira!

Veja aqui o relato o jornalista Ricardo Boechat

Primeiro tem que assumir

Muitas vezes é difícil convencer alguém com depressão a iniciar um tratamento, porque a pessoa não reconhece que tem o problema. Nessa hora, as pessoas próximas podem ajudar, mostrando várias coisas: que a pessoa não faz mais as mesmas atividades de antes, que largou coisas que antes lhe eram importantes e mudou sua maneira de ser, que agora impera um mal humor, falta de prazer na vida e recolhimento que antes não existia, entre outros sintomas que forem percebidos.

Segundo o psiquiatra Elio Luiz Mauer, a grande maioria das pessoas que admitem que estão depressivas buscam tratamento. Assim como a depressão surge e faz muitos estragos, também é altamente tratável. Pra grande maioria, ele acredita que a medicação é essencial, mesmo nos casos mais leves. A terapia também é recomendada.

Ele também desmistifica o que muitos dizem, que os medicamentos antidepressivos causam dependência ou deixam a pessoa “zumbi”. “É diferente ser dependente e ter necessidade. Se o paciente para de tomar e começa a sentir os mesmos sintomas de antes, é porque ainda não pode parar”, analisou. E o tratamento da depressão geralmente é longo, com os primeiros sinais de melhora entre duas e seis semanas. Mas não é possível dizer um prazo exato, pois cada um reage ao tratamento a sua maneira.

Mauer também diz que, já que a causa da depressão não é conhecida, não existe uma “receita” pra evitá-la. “É claro que a pessoa que leva uma vida saudável, com boa alimentação e exercícios, além da dedicação a hobbies e diversão, dimin,ui a possibilidade da doença. A mente e o físico tem que estar saudáveis. Mas não é regra”, analisou.

Comum entre jovens?

Quando se fala em transtornos mentais, entre eles a depressão, muitos têm a percepção que estes tipos de doença estão atingindo cada vez mais o público jovem. A médica psiquiatra Angela Caron acredita que, como tem se dado mais atenção a essas doenças nos últimos anos, a quantidade de diagnósticos aumentou.

Em relação ao público jovem, ela acredita que algumas pessoas manifestam a depressão muito cedo porque têm histórico da doença na família. Por isso, acha muito importante investigar a família, pois o diagnóstico genético é muito relevante no tratamento. Também se vê uma possibilidade maior de depressão em usuários de drogas.

Angela explica que, em muitos casos, não há como convencer o paciente a ser tratado. A depressão já está tão avançada que a pessoa perde a noção crítica e não vai manifestar o desejo de buscar tratamento. “A pessoa percebe que não está bem, há muito preconceito em admitir que o seu problema é psiquiátrico, por isso não pensa em buscar ajuda”, explicou a médica. Por isso, as pessoas próximas é que precisam levá-la ao psiquiatra.

Doença comum e bem antiga

O médico psiquiatra Elio Luiz Mauer diz que a depressão é muito mais comum do que imaginamos. E diz que o surto, como ocorreu com o jornalista Ricardo Boechat, já é o ápice de um processo em andamento há algum tempo. Mas Mauer deixou claro que o trabalho não causa depressão nenhuma. Apenas o excesso dele pode piorar um quadro depressivo já existente.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem divulgado que a depressão é um mal crescente na sociedade. Maurer é um pouco cuidadoso em concordar com isto. Na opinião dele, é possível que fatores modernos possam estar contribuindo pra aumentar essa incidência. Mas ele ressalta que os primeiros relatos de depressão estão na Bíblia, quando ainda não se usava este nome para a doença. Um exemplo é a parábola que conta que o Rei Davi tocava harpa e tratava o Rei Saul com musicoterapia, num provável problema de depressão. Antes disto, na Grécia antiga, já se davam relatos de melancolia.

Alertas

“Hoje estamos mais alertas e conscientes da doença. Por isto, talvez há a impressão de que existem mais casos hoje. Não é possível comparar com a antiguidade, pois naquela época não se fazia estatística disso. Hoje ela é tratada como problema de saúde pública”, analisou.

Tristeza

Dois sintomas são clássicos na maioria dos casos: tristeza sem motivo e perda de prazer nas coisas. “As pessoas dizem que ‘nada tem mais graça’, ‘tudo está em preto e branco’, a pessoa pensa que não vale nada. E o diagnóstico nem sempre é fácil. Pra muitos, a depressão passa despercebida, atribuem estes sentimentos à velhice, acham desculpas pras coisas que estão sentindo”, alertou Mauer. 

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