Foto: Anderson Tozato

Luís prefere presentear.

Seja de grego ou dádivas, como os dos três reis magos ao menino Jesus, muitos podem ser os significados de um presente. Também muitas podem ser as intenções que vêm com o regalo. Em datas certas ou fora de hora, tem quem ame dar e os que adoram receber. Lembrar, agradar, retribuir, surpreender, seja qual for o objetivo, presentear é muito mais que um simples ato.

Esta época do ano é uma das preferidas para se presentear. Nas ruas, de loja em loja, sempre tem alguém que procura ?o melhor presente de Natal?. Tem também a pessoa que escolhe o seu. Uma das que aguarda, ansiosa, para saber o que vai ganhar é Sandra Ribeiro, 22 anos. ?Eu sempre espero um presente. Em todas as datas, até no dia das crianças?, comenta. Como muitos, ela está entre as que gostam mais de receber. Por quê? ?Gosto da surpresa?, diz.

Foto: Anderson Tozato

Marlene: sem intenções.

Assim como espera o presente, Sandra também, como quase todos, espera algo em troca da lembrança. ?Nem que seja uma palavra carinhosa, um gesto, você sempre espera?, garante. Já Marlene Correia, 52 anos, diz que dá presente sem qualquer segunda intenção. Ela, ao contrário de Sandra, prefere dar a receber. ?Eu adoro dar presente. É muito gostoso. Sempre penso na pessoa, no que ela é, do que gosta. É a maior alegria ver que uma simples lembrança agradou. Dou presentes em datas, mas também fora de época. Presentear faz bem para o meu ego?, revela.

Luís Antônio de Souza, 25, também prefere dar um presente e ainda afirma que ?não gosto da surpresa de receber?. Ao encontrar o regalo certo, ele conta que pensa em agradar, ?fazer o presenteado se sentir importante?. A pessoa que ele mais gosta de presentear é a mãe. ?Sempre estou comprando presente para minha mãe porque ela merece, por ter me criado. É demonstração de carinho, de dedicação?, explica.

Para a psicóloga Shirley Rialto Sesarino, quando se dá um presente se quer saber o que falta ao outro. Porém, ela garante que não é apenas no outro que se pensa. ?Você presenteia para se preencher, para ter, em troca, atenção, amor. Não para preencher o outro. Simbolizo meu amor, querendo receber amor?, afirma. Essa troca de presentes, segundo ela, é produtiva pois ?você mantém laços e tenta sustentar, é uma troca de afeto?. No entanto ela alerta: ?é preciso moderação para não ser patológico?.

A profissional afirma também que por trás de qualquer presente sempre há a expectativa. ?Nunca é desinteressado. O dar é sempre se fazer amar?, comenta. Sobre a surpresa da lembrança, ela diz que ?tem função de impactar e, nessa hora, eu também convoco a pessoa a dar um retorno àquele presente?.

Ação é um exercício de empatia com o próximo

Para o consultor de etiqueta social, Carlos Alberto Hang, presentear é exercitar e praticar a empatia. ?Nos colocamos no outro e percebemos, assim, como ele fará a leitura do que vamos ofertá-lo. Quanto mais íntimos formos do outro, mais facilmente saberemos o que lhe agradará, desde que nos empenhemos verdadeiramente na empatia?, afirma.

No entanto, segundo ele, é preciso cuidado. ?Para saber o que pode ou não dar é uma questão baseada em nada mais que no bom senso. É de bom-tom presentear com vinhos para homens e bombons para as mulheres, mas estamos noutros tempos e se o homem adora bombom e a mulher vinho, por que não daríamos isso??, sugere Hang .

O profissional, que considera o presentear uma verdadeira arte, afirma que ?saber presentear é uma das característica não somente de pessoas educadas ou de estilo, mas muito mais que isso, de pessoas com sensibilidade e personalidade?.

Tanto dentro quanto fora, o presente deve ser escolhido com zelo. Hang comenta que os detalhes e cuidados que temos com a embalagem também ?falam diretamente do carinhos e admiração que temos pela pessoa e ela interpretará isso muito bem?. ?É deveras importante os cuidados também com os embrulhos. Criatividade e requinte neste tópico é imprescindível. Uma embalagem bem-feita trabalha a imaginação e a emoção do outro, criando maiores expectativas e valoriza o objeto presenteado. Um objeto simples, mas com um embrulho personalizado é valorizado muito mais que algo demasiado caro com um embrulho mal feito?, garante.

Presentear faz parte da humanidade

?Desde que o mundo é mundo se dá presentes?, garante a antropóloga da Universidade Estadual de Londrina, Elena Andrei. Ela afirma que o presentear é parte da própria humanidade. ?Damos presente até aos mortos, para amenizar a saudade?, afirma. Segundo a profissional, presentear é uma maneira de estreitar os laços sociais. ?Na sociedade de consumo o presente é a pedra angular?, completa.

Para o sociólogo Lindomar Bonetti, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), além de demonstração de afeto, o presente tem uma característica de cerimonial. ?Até envolve um caráter de obrigação. É puramente cerimonial e simbólico?, diz. Ainda há, segundo ele, quem presenteia na busca de obter prestígio. ?Dando presente a alguém com mais destaque social que você dá idéia de que você está se misturando?, explica.