Correr, empinar pipa, jogar bola, brincar de boneca, rir e sonhar. Rotina de criança em casa ou em apartamento, que mora na zona rural ou no centro da cidade. E também em ocupações de terra. A reportagem de O Estado visitou as crianças da ocupação do bairro Campo Comprido, em Curitiba, que começou no feriado de Sete de Setembro, entre as Ruas João Dembinski e Teodoro Locker.

Quem está lá afirma que já existem pelo menos 800 crianças vivendo no local. Na última sexta-feira, alguns líderes da ocupação tentavam encontrar doações para preparar uma festa para as crianças hoje. Vivendo num barraco de lona com o marido e dois filhos, de dois e quatro anos, estava Teresa Pereira da Silva. “Quero que eles sejam pessoas simples, mas pessoas de bem.” É o desejo dela para o futuro dos filhos, que brincavam sob sua atenção. O mais velho sonha em se tornar jogador de futebol.

Já um dos filhos de Andressa Coelho Marques, que está instalada perto de Teresa na ocupação, pensa em se tornar policial. “Também quero aprender a cozinhar”, planeja o menino de seis anos.

Com oito anos, Ted Taylor Marcondes Guimarães é filho de um casal que tem ajudado as pessoas que estão na ocupação. Em redação para a escola, ele reproduziu o que tem aprendido nas últimas semanas observando o movimento no local, que denominou de “Loteamento Particular de Terrenos Abandonados (LPTA)”. “Lá na LPTA as casas são feitas de madeirite e cobertas com eternite, com pedaços de madeira cobertas com lonas. Ali a gente aprende a dar mais valor às coisas e não reclamar do que tem”, escreveu.

Pequenos tendem a reproduzir destino dos pais, com poucas possibilidades de mudar o futuro.

Mas crescer em área de invasão pode acarretar problemas na vida futura das crianças. Segundo a professora do curso de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Solange Fernandes, as características mais presentes são o trabalho precoce – para ajudar os pais – e a tendência de reproduzir o destino dos pais, visualizando poucas possibilidades de mudar o próprio futuro.

A energia despendida pelos pais para lutar por melhores condições de vida é ressaltada como uma interferência no desenvolvimento das crianças pela psiquiatra infantil Maria Lúcia Bezerra, presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Paranaense de Pediatria. “Situações de insegurança social da família sem dúvida competem deslealmente com a criança pela atenção dos pais. A miséria e as incertezas podem consumir grande parte das energias de uma família, restando pouco espaço para a observação, o silêncio e a escuta.”

Educação comprometida

(Luciana Cristo e Elizangela Wroniski)

Ali (no Loteamento Particular de Terrenos Abandonados) a gente aprende a dar mais valor às coisas. Ted Taylor, 8 anos, descrevendo em carta como é a vida na ocupação.

No âmbito da educação, o aprendizado de muitas crianças pode estar comprometido em certas regiões pela intimidação que professores sofrem diariamente. Professora há 15 anos, Claudenice Campos admite que os educadores têm receio de trabalhar em alguns locais e a preocupação aumenta em escolas da periferia. Ela já chegou a mudar de escola, optando por alunos mais tranqüilos e, uma vez, levou uma aluna de 15 anos para a delegacia por agressão verbal. Mas a violência n&atilde,;o acaba aí. Campos conta que, no ano passado, uma colega teve o braço quebrado com uma barra de ferro por um aluno. Inseguros, os professores começam a ter seu desempenho afetado.

“O professor entra receoso em sala. Isso reflete na hora de preparar as aulas e de fazer cobranças inerentes ao processo de aprendizagem”, avalia. Por outro lado, existe a preocupação em não banalizar qualquer reação do aluno como se fosse uma infração, ressaltada pelo Observatório de Violência nas Escolas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). “Talvez estejamos tentando resolver conflitos que sempre existiram na escola, mas que antes as crianças não manifestavam”, analisa a professora de Pedagogia Ana Maria Eyng.