Emprego

Cotas x inclusão: por que as minorias não chegam ao mercado formal de trabalho no Paraná?

Fotografia em detalhe e plano fechado com foco na mão de uma pessoa segurando o aro de propulsão da roda de uma cadeira de rodas. Em primeiro plano, no centro, a mão masculina de pele clara empunha firmemente o aro tubular metálico da roda grande. O pneu cinza-claro da cadeira apresenta frisos de rodagem, e o aro metálico tubular prateado estende-se em arco para a direita. A pessoa veste uma camisa social branca de mangas compridas, com o punho abotoado visível na parte superior direita, e calça social cinza-escura risca-de-giz, visível à esquerda. No plano intermediário, observa-se a estrutura tubular metálica cinza da cadeira de rodas, incluindo o apoio de braço estofado em cor preta na parte superior esquerda e a lateral da cadeira. Ao fundo, ligeiramente desfocado e sob iluminação clara e difusa, destaca-se um ambiente interno com parede de tom claro e neutro.
Lei de Cotas define contratações obrigatórias para PcDs. Foto: Deposit Photos.

Em todo o Paraná, apenas 1,32% das pessoas com deficiência ocupam postos de emprego formais com carteira assinada, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). 

Em média, conforme o Censo 2022, essa população corresponde a 6,4% da população do estado com dois anos ou mais de idade. Em Curitiba, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), apenas 17,57% das pessoas com deficiência residentes na capital, o equivalente a 14.440 pessoas, concluíram o ensino superior.

Embora o índice seja mais de duas vezes superior à média nacional, de 7,4%, a formação ainda não se traduz em acesso proporcional ao mercado formal. O cenário ganha relevância diante do crescimento de áreas como tecnologia e economia criativa, que demandam qualificação e podem abrir novas possibilidades de inserção profissional.

É nesse espaço entre formação, oportunidade e acesso que iniciativas de inclusão começam a atuar no Paraná. Projetos voltados à educação, à tecnologia e à diversidade buscam não apenas ampliar a contratação de pessoas com deficiência, mas criar condições para que diferentes grupos cheguem ao mercado, desenvolvam suas habilidades e tenham oportunidades de crescimento dentro das organizações.

Inclusão: qual é o público-alvo?

Segundo o levantamento do Dieese, apenas 23% das empresas cumprem integralmente os percentuais de cotas previstos na legislação. As regras estão estabelecidas no artigo 93 da Lei Federal nº 8.213/1991, conhecida como Lei de Cotas.

A legislação determina que empresas privadas com 100 ou mais empregados preencham de 2% a 5% de seus cargos com beneficiários reabilitados da Previdência Social ou pessoas com deficiência habilitadas. Entre os públicos contemplados estão pessoas com deficiência física, auditiva, visual e intelectual ou mental, além de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e reabilitados do INSS.

No entanto, para pensar o conceito de inclusão, Jennifer Tenório, de marketing e comunicação do Hub Curitiba Mais Criativa, destaca que é preciso ampliar essa perspectiva.

“Todas as vezes que as pessoas pensam sobre a inclusão dentro da economia criativa, elas sempre relacionam a toda essa parte da deficiência, mas a inclusão também vai nas minorias. O grande desafio é que muitos desses territórios não conseguem acessar as mesmas oportunidades de formação, visibilidade, investimento e conexão com o mercado que existe no grande centro”, afirma.

Dentro das empresas, grandes grupos, como Itaipu Binacional, Ambev, Grupo Carrefour, GPA e Natura, já desenvolvem iniciativas voltadas à inclusão de pessoas LGBTQIA+ e de jovens periféricos. No entanto, ainda não há, em lei, uma determinação que obrigue as empresas a contratar esses públicos.

Reação na ponta da cadeia

Em um setor que já emprega mais de 77 mil pessoas em todo o estado, a inclusão também passa pelo desenvolvimento de soluções criativas que permitam a participação de um público mais diverso nas empresas. Nesse cenário, a diversidade deixa de ser vista apenas como uma questão social e passa a ser também um vetor de desenvolvimento e inteligência de mercado.

É justamente para romper a lógica do “preenchimento por meio de cotas” que atuam iniciativas de tecnologia e educação inclusiva. Vencedor do Prêmio Curitiba Mais Criativa 2025, na categoria Inovação Social, o Programa Habilita, mantido pela ASID Brasil, nasceu da necessidade de ampliar o impacto social por meio do ambiente digital.

“Ao longo de 16 anos, percebemos o quanto o mercado é carente de oportunidades de desenvolvimento e educação acessíveis”, explica Matheus Garcia, coordenador do projeto. “Através da plataforma gratuita, com dez cursos que vão de Data Analytics e UX Design a inteligência para o mercado de trabalho, garantimos que pessoas com deficiência de qualquer localidade do Brasil possam se qualificar.”

Para colocar essas iniciativas em prática, o processo começou pela escuta especializada. A chave metodológica do projeto está no conceito de acessibilidade nativa (born accessible), em que o conteúdo já é desenvolvido sob a perspectiva do Desenho Universal e da escuta ativa.

Os resultados já aparecem: cerca de 40% das pessoas que procuram o Habilita com o objetivo de conseguir emprego são efetivamente inseridas ou encaminhadas ao mercado formal.

Plataforma de cursos do projeto. Foto: Divulgação/Habilita.

“Fazemos um trabalho de ‘evangelização’ do meio para mostrar a importância de empresas e cooperativas investirem na base. Muitas empresas buscam apenas a contratação direta para fechar cota, mas tentamos mostrar que a entrada no mercado é o fim de um processo que precisa ser construído desde a base”, comenta Matheus.

Escuta ativa

Mesmo com iniciativas de base em andamento, o futuro do mercado ainda depende de ações voltadas a diferentes frentes. Para colocá-las em prática, assim como ocorre na iniciativa da ASID, o processo começa pela escuta.

“O primeiro passo é ouvir antes de criar. A empresa não deveria decidir sozinha o que o colaborador precisa. O correto é perguntar diretamente o que dificulta o trabalho dele hoje e o que tornaria sua rotina de fato mais acessível. E se as pessoas com deficiência e grupos minoritários não fossem apenas incluídos, mas convidados a transformar as organizações? A vivência diária dessas pessoas revela gargalos de experiência que passam despercebidos pela maioria”, afirma Jennifer.

Para que a economia criativa e o ecossistema de tecnologia do Paraná alcancem maturidade e representatividade, segundo a especialista, o mercado corporativo precisa compreender que a contratação não é apenas o início do cumprimento de uma cota, mas parte de um processo contínuo.

“Não se trata apenas de preencher uma vaga para cumprir um número, mas de olhar para aquele indivíduo como um ser humano que tem o direito de crescer dentro da empresa. É preciso oferecer um espaço seguro para que ele se adapte, aprenda e entenda seus próprios limites”, completa Jennifer.

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