Com 14,6% da produção nacional, o Paraná é o maior produtor de mel do Brasil. Conforme o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado no ano passado, o estado produziu 9,8 mil toneladas do produto em 2024. Além de ser um importante fornecedor nacional, o município de Ortigueira, na região central, é destaque por ter um mel especial.
De coloração clara, sabor suave – um pouco mais adocicado e com aroma marcante, o mel de Ortigueira conquistou em 2015 o selo de Denominação de Origem (DO), um tipo de Indicação Geográfica (IG) concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O produto foi o primeiro do país a ser reconhecido por DO.
O Brasil possui dois tipos de IGs: Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO). A primeira é quando o INPI confere que um produto é diferenciado e possui um significado cultural para determinada região. Já a DO envolve fatores geográficos, como solo e clima, que garantem um sabor único para o item.
O que faz o mel da região ser especial são justamente essas características de cor, sabor e a flor de capixingui, que garantem um produto de sabor único. Na cidade, o mel monofloral é feito do néctar das principais floradas, como capixingui, eucalipto e assa-peixe. Já o mel silvestre mistura vários néctares devido ao acesso que as abelhas possuem de diferentes flores da região.
Para fortalecer o trabalho feito com as abelhas, desde 1988 existe a Associação dos Produtores Ortigueirenses de Mel (Apomel), que conta com cerca de 40 produtores. Presidente da Apomel, Cristiano Gonçalves Nascimento, revela que grande parte dos negócios acontece no meio familiar.
“Meu sogro é apicultor do município há 40 anos. Agora nós estamos levando para frente. Meu filho já faz parte também, estamos na terceira geração. A maioria dos produtores são agricultores familiares”.
Um legado que começou nos anos de 1920
Com 63 anos, Jairo Siqueira é prova de que o trabalho atravessa gerações. O apicultor conta que foi o avô que começou com a criação de abelhas em Ortigueira, com documentos registrando a atividade já em 1927. Só que naquela época a produção do mel era feita para o próprio consumo e não para o comércio.
“O açúcar vinha de Pernambuco e por causa de uma revolução parou de vir. Então o mel foi um substituto do açúcar. Mas antigamente todas as pessoas tinham abelhas em Ortigueira, não era uma exclusividade do meu avô”.
A retirada do mel acontece em duas épocas do ano: entre outubro e novembro, e fevereiro e março. No fim do ano é quando é feito o mel capixingui, detentor da IG e que garante o sabor único do produto. “É gostoso, suave, claro e bom de exportação”, descreve o apicultor.
“Mel a gente divide por cor. [Referência à escala Pfund, um padrão internacional que classifica a cor do mel entre 0 a 140 milímetros (mm). Os valores mais baixos indicam cores claras, enquanto os números mais altos representam cores escuras.] O Mel de Ortigueira dá 30 mm, 33 mm de cor. É considerado um mel bom de preço no exterior por conta disso. Por exemplo, o melato da Bracatinga é 100 milímetros de cor”, detalha Jairo.
Embora exista um bom mercado de exportação, o proprietário da loja Casa do Mel afirma que desde 2019 trabalha voltado para o mercado regional.
Sobre as quantidades retiradas, Jairo diz que depende do ano. Ele, por exemplo, já registrou anos com produção de 35 quilos de mel por colmeia e de dez quilos por colmeia. Contudo, o valor mais alto da produção atual dele é bastante diferente de quando Jairo era criança, quando a retirada alcançava 100 quilos de mel. O produtor se preocupa com o futuro da apicultura e acredita que a quantidade de abelhas diminuiu ao longo dos anos.
“Quando eu era criança já lidava com abelha e tinha muita mata, tinha muito tudo. Hoje tem muito nada. Um monte de coisa que tinha quando eu era criança não existe mais, inclusive algumas espécies de árvores. O mundo é um relógio daqueles antigos, cheio de engrenagens. Foram tirando as engrenagens e querem que funcione, como funciona? Não funciona mais”, diz.
Silêncio nas colmeias: o futuro das abelhas
A percepção de Jairo sobre a quantidade de abelhas não é isolada. O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Laboratório de Apicultura e Meliponicultura (LAM), Tomaz Longhi Santos, confirma que há relatos que apontam para a diminuição do inseto e que a situação pode estar associada a diversos fatores, como mudança climática, fragmentação das florestas e utilização desenfreada de agrotóxicos.
“A mudança climática é um fator que pode estar alterando a dinâmica das abelhas. Temos visto a redução dos fragmentos de vegetação nativa e isso tem impactado diretamente na diversidade de abelhas. Outro fator que também limita ou que pode estar impactando na quantidade de abelhas é a utilização desenfreada de agrotóxicos, produtos que são altamente prejudiciais ao desenvolvimento das colônias. Às vezes a aplicação não vai direta sobre o apiário, mas em áreas onde elas estão fazendo o forrageamento das plantas para buscar néctar e pólen. Então ela acaba levando esses resíduos de agrotóxico para a colônia e prejudica todo o enxame”, explica.
Mas por que as abelhas são tão importantes? Santos explica que a maior parte dos alimentos que o ser humano consegue depende da polinização das abelhas. “Alguns alimentos dependem exclusivamente dessa polinização das abelhas, outros se beneficiam da presença delas, que melhoram a qualidade do fruto, e outros as plantas não precisam dessa polinização, mas a presença das abelhas aumenta a produtividade. Então elas são fundamentais para a garantia do nosso alimento”.
Portanto, a falta de abelhas pode desencadear uma série de problemas que envolvem a produção de alimentos. Pensando em formas de frear o impacto negativo para esses seres, o professor acredita que são necessárias ações para tentar reduzir os impactos das mudanças climáticas.
“O manejo correto de agrotóxico é um fator, redução do desmatamento e manutenção de áreas verdes para que as abelhas estejam ainda disponíveis e continuem fazendo os serviços ecossistêmicos que prestam. São ações que não dependem só da vontade dos agricultores, dos apicultores e polinicultores, mas depende também de políticas públicas nacionais e de espectro mundial, pensando que a mudança climática atinge a todos”.
