A partir desta quinta-feira (3), a União Europeia (UE) suspende formalmente as importações de carnes e produtos de origem animal provenientes do Brasil. A restrição atinge diretamente embarques de carne de frango, carne bovina, ovos, mel e tripas utilizadas pela indústria alimentícia.

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A decisão acende um alerta na economia do Paraná, um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do país. Segundo dados do Sistema FAEP, o impacto pode ser superior a US$ 392,2 milhões anuais.

A justificativa para a suspensão das importações é a insuficiência das garantias brasileiras quanto ao cumprimento das normas sanitárias exigidas pelo bloco econômico. A restrição está relacionada a uma regra sanitária europeia contra bactérias resistentes a medicamentos, com foco no uso de antimicrobianos, grupo que inclui antibióticos, antivirais e antifúngicos.

O uso desses medicamentos pode contribuir para o controle de doenças e, quando empregados de forma específica na alimentação animal, também pode ser associado à aceleração do crescimento. A União Europeia não permite a utilização de substâncias antimicrobianas para este fim na produção de alimentos comercializados no bloco. A justificativa é reduzir o risco de desenvolvimento de bactérias resistentes aos medicamentos e, consequentemente, proteger a saúde humana.

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Apesar de não ser o principal destino da produção paranaense, o mercado europeu movimenta cifras milionárias para o estado todos os anos. Em 2025, segundo levantamento divulgado pelo Sistema FAEP, foram exportados à Europa US$ 382 milhões em carne de frango e US$ 10,2 milhões em carne bovina. No ano, o Paraná embarcou mais de 4,2 milhões de toneladas de produtos agropecuários para o bloco, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O volume de negócios vem em expansão tanto com a Europa quanto a Ásia e o Oriente Médio. No total, no primeiro semestre de 2026, apenas a receita com as exportações de carnes de aves e miúdos somou US$ 2,5 bilhões, o equivalente a 17,7% de tudo o que o Paraná exportou no período, segundo dados do Comex-Stat e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Por que a suspensão?

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Na avaliação da administradora Paula Cristiane Oliveira Braz, especialista em Agronegócios e monitora pedagógica dos cursos de pós-graduação na área da Uninter, a decisão não significa que o Brasil esteja necessariamente inadequado às regras sanitárias, mas que o país não apresentou informações consideradas suficientes sobre procedimentos específicos exigidos pelo mercado europeu.

“Isso não significa que o Brasil não tenha controles sanitários. Existe o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes, além de fiscalização oficial, certificações e protocolos específicos. O próprio Mapa possui, inclusive, protocolo privado homologado para bovinos livres dos antimicrobianos exigidos pelo mercado externo. A decisão não é simplesmente como protecionismo”, explica.

No caso da carne suína, a especialista faz uma ressalva. “A nova exclusão europeia não representa um embargo novo à carne suína brasileira nos mesmos moldes de aves e bovinos. Na lista europeia de antimicrobianos, o Brasil já não aparecia habilitado para suínos. Assim, para a suinocultura paranaense o efeito tende a ser muito mais indireto, pela reorganização do mercado de proteínas, do que pela perda imediata de um grande fluxo para a UE”, explica.

A especialista avalia que a suspensão recente decorre de uma divergência sobre a suficiência das garantias e dos mecanismos de comprovação apresentados pelo Brasil. Nesta terça-feira (1º), a Comissão Europeia informou que uma auditoria está sendo realizada no país, inicialmente envolvendo aves e mel, e reconheceu que recebeu garantias adicionais das autoridades brasileiras. Segundo Paula Cristiane, a movimentação indica há um caminho para uma eventual reversão da medida.

Veto afeta setores em expansão

A carne bovina, mesmo representando uma fatia menor das exportações do estado, rendeu US$ 123,1 milhões no primeiro semestre de 2026. Para a Europa, foram exportados US$ 4,6 milhões em carne bovina no período, conforme dados do Agrostat, do Mapa. O valor equivale a 643 toneladas.

Carro-chefe da pauta exportadora do Paraná, a avicultura paranaense é a mais exposta aos efeitos da decisão europeia, já que são os produtos mais exportados para a região. No primeiro semestre de 2026, segundo dados do Comex-Stat, o Paraná respondeu por 42% do total das exportações brasileiras de carne de aves para o mundo. Para a UE, que representa 5% do mercado de exportação de carnes do Paraná, foram US$ 224 milhões em carne de frango.

Em julho de 2026, o Paraná estabeleceu o recorde histórico mensal de embarques ao exportar 227 mil toneladas do produto, um salto de 49% na comparação com o mesmo mês de 2025. Para a União Europeia, foram 78,7 mil toneladas de carne de frango.

Embora mercados da Ásia, dos Emirados Árabes e da América do Sul absorvam volumes quantitativamente maiores da carne de frango paranaense, a União Europeia se destaca pelo alto valor agregado dos produtos adquiridos.

O fluxo marítimo direcionado aos portos de Roterdã, nos Países Baixos, além de Alemanha, França e Espanha, é composto predominantemente por cortes específicos e produtos processados, como peito desossado, cortes salgados e itens industrializados de maior margem de lucro.

Risco de desvalorização do mercado paranaense

Segundo o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o veto afeta uma vitrine importante do agronegócio paranaense. “São muitos fatores em jogo, mas a nossa expectativa central permanece voltada para a rápida superação das exigências sanitárias e a retomada das exportações para o mercado europeu”, afirmou em comunicado da federação.

Na avaliação da especialista em agronegócio Paula Cristiane, o maior risco é de que o Paraná precise alterar o mix de produtos ou comercializar a mesma mercadoria por um preço inferior. Nesse cenário, as perdas podem atingir as margens de lucro e a eficiência econômica, além de afetar o volume de exportações.

“O problema econômico é que uma tonelada não é igual à outra. Peito desossado, cortes específicos e produtos destinados aos consumidores europeus tendem a proporcionar receita superior à de produtos comercializados em mercados que absorvem cortes mais baratos. Em 2026, enquanto o preço médio da carne de frango in natura exportada pelo Brasil ficou próximo de US$ 1,9 mil por tonelada no início do ano, os embarques para os Países Baixos apresentaram valor médio substancialmente superior”, completa a especialista.

No mercado interno, a redução das exportações pode resultar em um aumento pontual da oferta e pressionar os preços para baixo. No entanto, esse movimento não necessariamente será proporcional ao volume que deixou de ser exportado. Se a medida se prolongar, o Brasil poderá buscar novos compradores, redirecionando parte da produção paranaense para outros mercados.

Impacto em investimentos

Essa mudança, porém, não substitui perfeitamente os clientes europeus, segundo Paula Cristiane. “Cada país compra cortes, tamanhos, embalagens e padrões diferentes. Um peito de frango produzido para uma rede europeia não necessariamente encontrará comprador na China ou no Oriente Médio pelo mesmo preço”, explica.

No curto prazo, a especialista avalia um potencial deságio — quando parte da mercadoria pode ser direcionada ao mercado interno ou a destinos menos remuneradores. Os investimentos não tendem a ser paralisados pela suspensão das importações. No entanto, a percepção de risco pode levar à revisão ou postergação de projetos diretamente associados ao mercado europeu.

Esses riscos aumentam à medida que a restrição permanece em vigor. Se a questão for resolvida rapidamente por meio da auditoria e da apresentação das garantias exigidas, o efeito sobre os investimentos tende a ser limitado, conforme a especialista. Caso a medida se prolongue, porém, o cenário pode passar a influenciar o planejamento das empresas produtoras.