A reta final do ano chega acompanhada de um desafio e tanto para o orçamento das famílias: com a inflação oficial (IPCA) pressionando o custo de vida e a taxa básica de juros (Selic) estacionada em dois dígitos, o cenário exige cautela. Especialistas alertam que o destino dado ao décimo terceiro salário e o planejamento financeiro rigoroso são os únicos caminhos para evitar o endividamento em massa logo no início de 2027.
Para a professora Valéria Cristina Ferreira, o benefício funciona como um suporte indispensável na rotina. “Geralmente vem como uma ajuda, a chance de não começar o ano com contas do ano anterior; tenho isso como propósito ou até mesmo manutenções necessárias como revisão do carro, por exemplo — sempre tem algo precisando consertar.
Dificilmente consigo realizar algum projeto novo”, conta. Na divisão entre as parcelas, a prioridade costuma ser imediata: “Já vou liquidando as contas; se sobrar, fica como um recurso emergencial”, explica.
Estratégia contra os juros altos e o perigo do consumo precoce
Do ponto de vista econômico, a regra principal é clara: o dinheiro extra não deve ser comprometido com compras festivas antes de resolver o que aperta o orçamento. O economista e consultor financeiro Julio Woolley aponta que manter valores na poupança ou acumular faturas de cartão de crédito e cheque especial corrói o poder de compra das famílias.
“O ideal nunca é comprometer esse 13º e até um dinheiro que você ainda não recebeu com o consumo de dezembro. É muito comum que as pessoas enxerguem essa renda como uma oportunidade de ampliar esses gastos, quando na verdade poderia ser um bom ponto de partida para começar o ano financeiramente mais equilibrado”, destaca Woolley.
Complementando a análise, o planejador financeiro Fábio Martini reforça que a prioridade absoluta deve ser a quitação ou a redução drástica de passivos com taxas abusivas, como o rotativo do cartão e o limite da conta.
Segundo Martini, nenhum investimento tradicional rende mais do que o custo dessas dívidas, tornando o acerto de contas a melhor alternativa de rentabilidade imediata. Para quem já está com as contas em dia, a recomendação é antecipar despesas fixas de janeiro — como IPVA, IPTU e material escolar — ou dar o primeiro passo na formação de uma reserva de segurança.
Apesar das orientações técnicas recomendarem a construção de um colchão financeiro seguro, a prática mostra que o orçamento apertado nem sempre deixa margem para grandes investimentos imediatos.
Valéria aponta que o montante costuma ser absorvido pelas necessidades do período: “Na maioria das vezes acabo reservando uma quantia das férias para esses fins. Do 13º não costuma sobrar”, pontua, detalhando que os planos também envolvem antecipar compromissos e viabilizar gastos com viagens.
Na hora de renegociar pendências antigas aproveitando os mutirões de fim de ano, Fábio Martini lembra que o cuidado deve ser redobrado para não trocar uma dívida por outra. É fundamental avaliar descontos reais para pagamento à vista e garantir que a nova parcela caiba no bolso sem comprometer o sustento básico ou deixar a pessoa sem recursos para uma eventual emergência.
