Quando a inteligência artificial começou a ganhar espaço nas empresas, a estudante Maria Eduarda Becher Santos, hoje no sétimo período de Engenharia de Software do UniSenai Paraná, não esconde que sentiu receio. Assim como muitos colegas, ela ouvia previsões de que programadores e outros profissionais seriam substituídos por máquinas. “O que mais ouvi nessa época foi que os programadores seriam substituídos. A ideia de ser substituído foi um medo coletivo”, conta.
Poucos anos depois, a percepção mudou. Para ela, a inteligência artificial deixou de representar uma ameaça para se tornar uma ferramenta capaz de ampliar capacidades humanas, organizar rotinas de estudo, auxiliar na resolução de problemas e otimizar tarefas repetitivas.
A mudança de visão da estudante reflete uma transformação que já está em curso dentro das indústrias paranaenses. Cada vez mais presente em linhas de produção, centros de distribuição, áreas comerciais e setores administrativos, a inteligência artificial tem se consolidado como uma aliada da produtividade. Ao mesmo tempo, impõe um novo desafio às empresas: preparar profissionais capazes de trabalhar ao lado da tecnologia.
Produtividade industrial depende de pessoas e tecnologia
Segundo Renato Sellaro Dorighello, coordenador da área de Eletroeletrônica e Computação do UniSenai Paraná, a inteligência artificial já está presente em diversas etapas do ambiente industrial, desde o monitoramento da qualidade até o controle de equipamentos, análise de dados e suporte ao cliente.
Para ele, o avanço tecnológico tem provocado uma mudança importante no perfil profissional exigido pelas empresas. “As competências mais demandadas estão relacionadas à atuação ética, à multidisciplinaridade e à capacidade de atualização constante diante das novas tecnologias”, afirma.
A adaptação já chegou às salas de aula. O UniSenai passou a incorporar conteúdos relacionados à inteligência artificial em seus cursos e, mais recentemente, criou uma graduação específica na área. Além das disciplinas voltadas ao tema, os estudantes trabalham em projetos que simulam desafios reais enfrentados pela indústria. “O contato acontece desde os primeiros períodos. Os alunos utilizam ferramentas de IA para aprimorar modelagens, simulações, apresentações e interfaces, além de desenvolverem suas próprias soluções”, explica Dorighello.
Na avaliação do professor, ainda existe uma percepção equivocada de que a tecnologia eliminará postos de trabalho. O que ele observa, porém, é um cenário diferente e que pode alavancar a produtividade industrial. “A IA funciona como uma ferramenta poderosa de apoio. Ela assume tarefas repetitivas e libera o profissional para atividades que exigem criatividade, análise crítica e tomada de decisão.”

Produtividade industrial muda a rotina dentro das empresas
Na Electrolux, a inteligência artificial já faz parte da operação em praticamente toda a cadeia produtiva. A tecnologia está presente desde o monitoramento de indicadores industriais até a logística, o atendimento ao consumidor e áreas corporativas como Recursos Humanos e Compras.
Segundo Anderson de Moraes, CIO do Electrolux Group América Latina, a empresa passou a enxergar a inteligência artificial como uma capacidade estratégica para aumentar produtividade, melhorar decisões e acompanhar a velocidade das transformações do mercado.
Os resultados já aparecem em números. No atendimento ao cliente, um sistema integrado ao Salesforce passou a analisar chamadas e emoções dos consumidores em tempo real. A assertividade na indicação de soluções saltou de cerca de 30% para mais de 70%. Na logística, modelos de inteligência artificial ajudaram a reduzir em 3,5% os custos de frete.
Mas é no cotidiano dos trabalhadores que a transformação se torna mais visível. Maurício Bellé Schmatz, supervisor de atendimento da empresa, lembra que muitas atividades simples consumiam tempo valioso da equipe. “Copiar e colar textos, interpretar conteúdos simples, navegar por diferentes telas de sistemas ou ler PDFs exigiam dedicação das pessoas. Até para entender a voz do consumidor era necessário recorrer a amostragens e análises manuais.”
Hoje, segundo ele, o cenário é diferente. “A IA trouxe velocidade às melhorias, permitindo análises mais amplas e rápidas. Ganhamos eficiência e liberamos tempo para atividades que realmente agregam valor ao atendimento”, relata.
A mudança aconteceu gradualmente. Primeiro, a tecnologia passou a apoiar decisões que antes dependiam exclusivamente de análise humana. Depois, tornou-se parte da rotina. “Os próprios atendentes começaram a buscar dicas e apoio para usar a IA nas atividades do dia a dia. Quando as pessoas passam a recorrer à ferramenta por iniciativa própria, é sinal de que ela realmente transformou a forma como trabalhamos.”
O trabalhador do futuro já está sendo formado
Enquanto as empresas ampliam o uso de inteligência artificial, cresce também a demanda por profissionais capazes de interpretar dados, avaliar cenários e tomar decisões a partir das informações geradas pelas máquinas.
Para Maria Eduarda, esse processo já está redefinindo carreiras inteiras. “A IA poderá assumir partes repetitivas e padronizadas do trabalho, enquanto os profissionais estarão focados em estratégias e soluções de problemas complexos”.
A estudante afirma que tem direcionado sua formação para o desenvolvimento de sistemas capazes de otimizar processos industriais. “Meu objetivo é usar essas ferramentas para facilitar o dia a dia do trabalhador. A ideia não é substituir, apenas facilitar”, diz.
Essa percepção é compartilhada pelo UniSenai. Para Dorighello, o futuro da indústria dependerá da combinação entre tecnologia e conhecimento humano. “De nada adianta ter a ferramenta mais avançada disponível se não houver profissionais capacitados para interpretar e aplicar os dados que ela gera. Qualificação e inovação tecnológica não são alternativas. São complementares”.
Em um cenário de transformação acelerada, a produtividade industrial passa a ser medida não apenas pela capacidade das máquinas, mas também pela habilidade das pessoas em utilizá-las de forma inteligente. Na indústria paranaense, essa mudança já começou.
