Mobilidade Urbana

Como cada km rodado do BUD custou R$ 945 aos paranaenses

Os números por trás do contrato do BUD revelam uma operação de baixíssima utilidade prática para o trabalhador da região e uma conta salgada por quilômetro rodado. Foto: Jonathan Campos / AEN.

Entre os terminais de Pinhais e Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, um veículo elétrico articulado de 30 metros de comprimento e capacidade para até 280 passageiros chamou a atenção de quem passava pela Avenida Ayrton Senna nos últimos meses. Anunciado pelo Governo do Estado como uma “solução fantástica” na mobilidade, o Bonde Urbano Digital (BUD) concluiu seu período de testes deixando um saldo de fotos oficiais para a gestão e um custo alto para os cofres públicos.

Em dezembro de 2025, o governador Ratinho Junior destacou que se o modelo fosse aprovado pela população, o governo avançaria com mais investimento no sistema. “É um modelo que tem um excelente custo-benefício, comparado com metrô e VLT, muito mais barato, e que faz a mesma função, com a mesma capacidade de carga. É uma solução fantástica para o transporte público da nossa Capital e da Região Metropolitana”, disse, na época.

O Governo do Estado celebrou os “10,8 mil passageiros transportados” e a “aprovação do público”. No entanto, os números por trás do contrato revelam uma operação com uma conta salgada por quilômetro rodado.

A conta do BUD: R$ 943 a cada quilômetro

Para colocar o veículo chinês fabricado pela CRRC Nanjing Puzhen para rodar entre Piraquara e Pinhais, o governo firmou um contrato com a Global Ace Participações e Investimentos LTDA no valor total de R$ 6 milhões, com prazo de 15 meses.

Ao final do ciclo de testes, o balanço oficial informou que o BUD completou 6,4 mil quilômetros em 633 viagens. A matemática do contrato foi feita com base no valor total do contrato e na distância percorrida. O valor do custo por quilômetro rodado do BUD foi de R$ 947,86 (aproximadamente R$ 943/km na média de amortização do período ativo).

Para dimensionar esse valor, o custo médio de operação de um ônibus biarticulado tradicional do sistema metropolitano gira em torno de R$ 19,43 por quilômetro rodado, segundo informações da URBS.

Evidentemente, a comparação direta exige contexto: um biarticulado opera dentro de um sistema de larga escala, com frotas amortizadas e rotas contínuas que diluem os custos fixos. No entanto, a discrepância — o BUD custou quase 50 vezes mais por quilômetro — revela que o custo do projeto piloto foi alto.

Quatro viagens por dia contra 141 da linha convencional

Enquanto o material de divulgação prometia alta tecnologia, quem dependia do transporte público no dia a dia continuou enfrentando ônibus lotados – conforme presenciou a reportagem da Tribuna do Paraná em junho deste ano.

Durante todo o período de testes, o BUD realizou apenas quatro viagens por dia, cinco vezes por semana, e sem operar às segundas e sextas-feiras. As saídas ocorriam em horários fixos e restritos: 10h15 e 14h15, partindo do Terminal São Roque, em Piraquara. Ou seja: o bonde de 30 metros não circulava nos horários de pico da manhã nem do final da tarde, quando a população mais precisa de transporte.

O custo invisível: o que não entrou no contrato

O contrato de R$ 6 milhões do veículo representa apenas uma fatia do dinheiro público gasto na iniciativa. Para que a tecnologia chinesa de sensores pudesse rodar, o ecossistema urbano precisou ser adaptado com recursos adicionais.

Foram realizadas alterações na Avenida Ayrton Senna. Houve readequação do pavimento e instalação de ímãs e marcadores magnéticos no asfalto para guiar o sistema autônomo do bonde. Os terminais também passaram por reformas de infraestrutura para permitir o embarque, desembarque e manobra do veículo de 30 metros.

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