Os anos de sofrimento com a discriminação e o bullying estão revelando sérias consequências para uma catadora de materiais recicláveis de 42 anos que mora e trabalha na região sul de Curitiba. Todos os seus cinco filhos foram alvo dos colegas enquanto estudaram em uma mesma escola estadual do bairro por causa do trabalho que sustenta a família.

Porém, a situação com sua filha mais nova, que tem 16 anos, tomou proporções mais graves e mostra a que ponto este tipo de agressão pode chegar quando o assunto não é trabalhado de maneira efetiva.

Além dos xingamentos constantes sobre a profissão de sua mãe, a adolescente foi agredida na saída da escola em março deste ano e desde então desistiu de estudar. “Enquanto estavam só me xingando, tudo bem, mas fiquei com medo até de morrer”, revela a jovem. A mãe, no entanto, não esperava por uma forte recaída no estado emocional da filha. Após receber mensagens de voz por uma rede social, há algumas semanas, ela tentou por três vezes tirar a própria vida. A gravação enviada por outra adolescente usa expressões como “fedorenta”, “lixeira” e “favelada”, e ainda faz ameaças de que pessoas iriam ao barracão onde a mãe faz a separação dos materiais recicláveis para agredir a jovem.

“Volta e meia precisei ir na escola para resolver esse tipo de coisa com os meus filhos, mas desde que minha filha parou de estudar, não recebi nenhuma ligação de lá perguntando por ela. Parece que se livraram de um problema”, critica a mãe. “A direção sempre me dizia que ia resolver, mas nunca resolveu nada”, completa a jovem. O caso foi parar no Conselho Tutelar, que diz ter feito os encaminhamentos necessários, e virou dois boletins de ocorrência na Delegacia do Adolescente, que não comentou a situação.

Bastante abatida e com medo do que pode acontecer, a catadora de materiais recicláveis diz que jamais imaginou passar por isso e ainda tenta justificar a escolha de sua profissão na cooperativa. “Chego a me sentir culpada, mas foi a forma que encontrei de sustentar a minha família, de manter a casa. Tudo que eu tenho eu tirei daqui. Agora parece que todo aquele sofrimento que ficou guardado desde lá atrás, todas as feridas, estão doendo agora. Com os outros (filhos) não nos afetou tanto”, lamenta.

A família decidiu por conta própria encaminhar a garota para tratamento psicológico e a jovem não desiste do direito de estudar, o que é previsto, inclusive, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “Só quero o que é de direito e que minha filha seja respeitada como qualquer outra pessoa, não é porque eu sou catadora que ela não merece. Aqui o pobre tem preconceito com o pobre”, diz a mãe.

Com o sonho de cursar faculdade de música ou de desenho, a jovem revela que não quer parar de estudar. “Sempre tive orgulho da minha mãe, ela sempre fez tudo por nós, e estudando vou poder dar uma vida melhor pra ela. Também não tenho ódio de ninguém”, garante a adolescente.

Provas

Procurado pela Tribuna, o diretor não quis dar entrevista e pediu que a reportagem entrasse em contato com a Secretaria de Estado da Educação (Seed) para obter informações sobre o caso da adolescente. Em nota, a Seed afirmou que está “verificando a veracidade dos fatos” e apresentou os encaminhamentos realizados pela direção do colégio em relação ao caso.

“Todas as medidas necessárias para resolver a situação foram tomadas, inclusive feitas reuniões com os envolvidos e solicitação de acompanhamento psicológico para a estudante”.

Ainda de acordo com a secretaria, “não houve negligência, uma vez que a escola possui, em atas registradas, todas as ocorrências que envolvem o caso e as ações realizadas”. Porém, a nota registra que, mesmo com o relato da estudante, “até o momento, n&atil,de;o foram apresentadas provas de bullying”.

“Gordinha” viveu piores anos da vida

A família da catadora de materiais recicláveis não foi a única que sofreu com o bullying enquanto os filhos estiveram matriculados no mesmo colégio estadual. A Tribuna conversou com outra estudante que também relatou uma triste experiência com a discriminação pelos colegas: “Foram os piores anos da minha vida. Como eu sempre fui gordinha, todo mundo tirava sarro de mim, me apelidando de ‘montanha’.

No intervalo me jogavam no banheiro dos meninos, me empurravam da escada, me jogavam no chão. Todo dia era assim, era um horror. Tinha vezes que eu corria pro banheiro e ficava lá até bater o sinal para voltar para sala, só pra evitar as chacotas. Isso acontecia com os gordinhos ou com alguém que eles implicavam porque tinha a orelha mais avantajada ou porque se vestia de uma forma diferente.

Várias vezes fui conversar com o diretor sobre o que ocorria e ele só falava pra eu não ligar e voltar para sala. Me sentia muito mal. Sempre fui a melhor aluna da turma e me sentia um nada com essa situação, chegava em casa chorando todos os dias, era humilhante.

Minha mãe foi diversas vezes no colégio e eles faziam pouco caso, até que ela me mudou de colégio. No novo colégio nunca tive problema nenhum, pois a diretora sempre circulava para verificar se tinha algum problema. Fui obrigada a ir para outro bairro para simplesmente poder estudar como qualquer outro adolescente. Lá nunca tiraram sarro de mim, pelo contrário, fiz muitas amizades. Depois fiz acompanhamento com uma psicóloga e superei bem”.