Eleições

Bolsa Família e voto: o que explica a virada de Lula no Paraná?

Programas sociais ajudam a conquistar votos, mas não explicam sozinhos a virada de Lula no 2º turno. Foto: Roberta Aline / MDS

No Paraná, as cidades onde Luiz Inácio Lula da Silva (PT) virou o resultado da eleição presidencial no segundo turno têm, em média, uma proporção menor de beneficiários do Bolsa Família do que aquelas em que o petista venceu nos dois turnos.

O levantamento dos 399 municípios paranaenses mostra que a cobertura do programa, embora associada historicamente ao desempenho eleitoral do PT, não explica sozinha as mudanças na votação entre o primeiro e o segundo turno de 2026.

A análise dos 399 municípios paranaenses aponta que a média geral de beneficiários do Bolsa Família no estado é de 7,08% da população. Nos 46 municípios onde Lula venceu tanto no 1º quanto no 2º turno, o percentual médio de moradores dependentes do programa chega a 8,48% — patamar superior ao restante do estado.

Por outro lado, nas 20 cidades em que Lula conseguiu a virada no segundo turno sobre o candidato Flávio Bolsonaro (PL), a taxa média de beneficiários do Bolsa Família é de 6,70%. Esse número é inferior à média dos 333 municípios onde a oposição liderou nos dois turnos (6,90%).

O impacto dos programas sociais nas eleições

O cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP) Sergio Simoni Junior, que é autor de uma tese de doutorado pela USP dedicada ao impacto do Programa Bolsa Família na competição e no realinhamento eleitoral presidencial no Brasil, ressalta que a lógica histórica observada nacionalmente ganha contornos próprios quando analisada regionalmente.

Ele lembra que, embora tradicionalmente o PT apresente votações mais expressivas em municípios com maior contingente de famílias beneficiárias de programas sociais, padrão verificado por ele desde o pleito de 2006, os dados do Paraná em 2026 demonstram que a reversão de votos do 1º para o 2º turno não pode ser atribuída com exclusividade à ampliação da rede de proteção social.

“Nossos estudos mostram que o Bolsa Família e as políticas distributivas criaram sim um alinhamento histórico do eleitorado de menor renda com o PT em âmbito nacional. Contudo, olhando especificamente para as cidades do Paraná nesta eleição de 2026, a virada do primeiro para o segundo turno não foi dependente e não pode ser explicada pela distribuição dos benefícios sociais”, pontua Simoni.

“A proporção média de beneficiários é menor justamente nos municípios onde houve a virada no segundo turno (6,70%), quando comparada às cidades onde Lula venceu nos dois turnos (8,48%) e até onde a oposição liderou (6,90%)”, acrescenta o pesquisador.

De acordo com o especialista, o movimento de ganho de votos de Lula no segundo turno no Paraná também pode estar associado a uma intensa mobilização político-eleitoral de redes e de rua, puxada por eleitores de perfil socioeconômico menos vulnerável e de faixas etárias específicas, como jovens e idosos.

“Tivemos no segundo turno uma mobilização social que resultou em uma mobilização político-eleitoral muito grande e muito diferente do que nós estávamos acostumados. Além dos idosos e dos mais jovens, talvez essa mobilização também tenha sido capitaneada por uma população que não tem um perfil social muito vulnerável, como é o perfil de quem recebe o Bolsa Família. Então no segundo turno tivemos mais os debates das duas chapas, algo que não aconteceu no primeiro”, destaca Simoni.

O peso da política social: volume de beneficiários gera resposta eleitoral

Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emerson Urizzi Cervi, o apelo eleitoral das políticas sociais decorre do volume de pessoas diretamente impactadas, e não apenas do montante orçamentário.

“Quando você faz política social, as pessoas veem mais diretamente que estão recebendo e tem mais gente recebendo. É uma relação de pouco dinheiro para muita gente e isso se transforma em voto”, explica Cervi. “O beneficiário de política pública é um eleitor responsivo. Se o governo faz uma política com efeito positivo, quem recebeu vai premiar no voto. Se não teve o efeito esperado, vai punir.”

Cervi pondera que a política social explica apenas uma parcela do voto e que a confiança na continuidade do benefício pesa decisivamente. Analisando o cenário específico do 2º turno de 2026, o professor pontua que as propagandas petistas afirmando que o candidato Flávio Bolsonaro poderia acabar com os programas sociais, como o Bolsa Família, podem ter incentivado a mudança de voto para Lula e pesado na decisão de confiança transmitida pelos candidatos.

“Se o eleitor não confiar na imagem da oposição, ele prefere manter o voto no governo atual, o que foi muito do que aconteceu neste ano. A avaliação geral do governo Lula é muito parecida com a avaliação geral do governo Jair Bolsonaro em 2022, e o Bolsonaro não foi reeleito. Já o governo Lula foi reeleito apesar da baixa avaliação positiva dele. Isso pode ter acontecido agora porque o eleitor preferiu não apostar no Flávio, porque o que ele conhecia do Flávio não era gerador de tanta confiança”, avalia.

Média por grupo de municípios no Paraná

Entre os municípios com as maiores taxas de população atendida pelo programa no Paraná e com votação favorável ao petista aparecem Rio Branco do Ivaí (18,11% da população no Bolsa Família) e Laranjal (15,71%), onde Lula manteve a liderança isolada em ambos os turnos.

Comportamento eleitoral (2º turno – Lula)Quantidade de municípios paranaensesMédia da população no Bolsa Família
Manteve vitória no 1º e 2º turno468,48%
Oposição liderou nos dois turnos3336,90%
Virou a votação no 2º turno206,70%
Média Geral do Paraná3997,08%

Contudo, os dados mostram exceções entre o recebimento do benefício e a escolha do voto: Nova Laranjeiras (18,25%) e Guaraqueçaba (18,05%), que lideram o ranking de cobertura do Bolsa Família no estado, deram vitória à oposição no pleito presidencial. Confira a tabela com as cidades que registraram virada:

Municípios paranaenses que tiveram virada no 2º turnoPorcentagem da população que recebe o Novo Bolsa FamíliaPosição no ranking estadual (1 a 399)
Doutor Ulysses15,63%8º
Santa Maria do Oeste10,96%43º
Palmas8,53%109º
Planaltina do Paraná8,33%116º
Turvo8,20%120º
Saudade do Iguaçu8,19%122º
São José das Palmeiras7,36%161º
Enéas Marques7,00%183º
Altamira do Paraná6,76%199º
Corumbataí do Sul6,50%209º
Paranacity6,09%239º
Uniflor5,92%253º
Querência do Norte5,90%258º
Ramilândia5,30%277º
Presidente Castelo Branco5,02%290º
Nova Esperança do Sudoeste4,96%293º
Laranjeiras do Sul4,53%316º
Cantagalo3,89%338º
Bom Sucesso3,60%348º
Ampére1,40%396º
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