Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

Prefeito Beto Richa: "A Prefeitura está no limite, Vamos manter R$ 1,80 até quando conseguirmos".

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O prefeito de Curitiba, Beto Richa, em entrevista exclusiva à reportagem de O Estado, adiantou que estão programadas diversas obras para desafogar o sistema de transporte coletivo de Curitiba, eliminando problemas como ônibus lotados e grandes intervalos de espera pelos veículos. No dia 20 de dezembro, Richa anunciou a licitação para a construção do Eixo Metropolitano, a ser implantado no perímetro urbano da rodovia BR-476. "Quando as obras estiverem prontas, vai aliviar muito o eixo mais congestionado hoje, o Norte-Sul, em aproximadamente 30%", afirmou.

Além desse empreendimento, há projetos de reformulação completa de quatro terminais de ônibus com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O prefeito pretende incluir outros terminais em próximos programas de financiamentos feitos pela entidade. No ano que vem, ocorrerá mudanças nas canaletas para melhorar a velocidade média dos ônibus, que foi muito reduzida em virtude de congestionamentos. "Alguns eixos andam em comboios, lotados. Vamos fazer obras físicas que vão garantir maior velocidade. Os ônibus poderão ultrapassar uns aos outros", comentou Richa.

O Estado adiantou, no dia 21 de dezembro, que as mudanças nas canaletas também beneficiam a atuação da futura linha Ligeirão, que entrará em funcionamento em 2006. O ônibus sairá do terminal do Boqueirão até a Praça Carlos Gomes, no centro da cidade, sem parar nas estações-tubo. A viagem, que hoje dura 33 minutos, será completada em 20 minutos. Para atender a demanda, 66 novos ônibus biarticulados também serão colocados dentro do sistema durante todo o ano, conforme programação estabelecida para cada linha.

Richa acredita que houve profundas mudanças no sistema de transporte em 2005. "Mudamos o conceito de gestão do transporte coletivo. Demos um choque de transparência, quando anunciamos o congelamento da passagem, em R$ 1,90, desconsiderando a planilha de custos em vigor. Por ela, teríamos que obrigatoriamente anunciar o aumento da passagem para R$ 2,10", avaliou.

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O prefeito citou que a Comissão de Estudo Tarifário, formada no início de sua gestão e que contou com a participação de diversas entidades, teve papel importante nessa transição. Richa usa essa medida como argumento para refutar as críticas de muitos que consideram a planilha de custos da Urbs uma caixa-preta. "Está tudo transparente. A comissão teve um trabalho extenso, que precisou ser prolongado. Ao término dessa comissão, nós anunciamos a redução da passagem para R$ 1,80. Também implantamos a tarifa a R$ 1 aos domingos, garantindo o direito ao lazer das famílias curitibanas", declarou.

A tarifa mais barata aos domingos surpreendeu as expectativas de Richa. A iniciativa, de acordo com ele, está sendo copiada por várias cidades. "É fácil comprovar, com parques e praças lotados. A mobilidade dentro da cidade está acontecendo com mais intensidade. Estamos cumprindo com o nosso objetivo." O prefeito frisou que a administração municipal não está subsidiando as tarifas de R$ 1,80 e R$ 1. "A Prefeitura está no limite, reduzimos o máximo que conseguimos. Vamos manter R$ 1,80 até quando conseguirmos", concluiu.

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Richa relatou que é preciso levar em conta que, no início do ano que vem, acontece o dissídio coletivo dos motoristas e cobradores, além do aumento do óleo diesel e lubrificantes.

Reversão

Com as medidas adotadas, a Prefeitura conseguiu alterar o movimento de queda no número dos passageiros do sistema, que já acontecia há 10 anos. Foi detectado um aumento de 1 milhão de passageiros por mês. "Invertemos a espiral da morte, porque quanto menos passageiros no sistema, aumenta-se a passagem para cobrir os gastos", relembrou Richa.

Ele ainda aposta nas licitações para todas as linhas que compõem o sistema, no ano que vem, para "zerar o jogo". Os processos de licitação estão relacionados com a defasagem da lei municipal que rege o transporte, de 1990. Segundo o prefeito, a legislação não acompanhou a evolução, inclusive na remuneração das empresas.

"Ao longo desses anos não houve mudanças profundas, que geram distorções. Todas serão corrigidas com as licitações. Elas vão dar condições de criar um modelo de sistema de transporte coletivo que a gente ache ideal para a cidade, que possa garantir os avanços necessários aliados a uma tarifa justa e acessível", esclarece. Richa ainda citou que o Conselho Municipal de Transporte, criado pela lei municipal, passará a se reunir com freqüência a partir do ano que vem. 

Medo nas estações-tubo e terminais

Assaltos, roubos, furtos e até mesmo arrastões já viraram cena comum dentro dos ônibus, em estações-tubo e terminais do sistema de transporte coletivo de Curitiba. A preocupação é tanta que motoristas e cobradores estão recebendo orientações de como proceder em situações como essa. "Pedimos para que eles não reajam e que coloquem o dinheiro no cofre. Mas esta medida tem pouca adesão pelo medo da reação dos bandidos", afirma Denílson Pires, presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus de Curitiba e Região (Sindimoc).

Segundo dados da entidade, 4.146 assaltos aconteceram no sistema em 2004. Nos primeiros sete meses de 2005, foram registrados 1.148 delitos desse tipo. Pires conta que uma parceria com as polícias Militar e Civil foi formulada para diminuir a estatística, o que tem causado bons resultados. Motoristas e cobradores não quiseram falar sobre o assunto, porque ficam com medo de possíveis represálias.

A situação está desesperadora também para quem utiliza o sistema de transporte coletivo. No terminal do Cabral, por exemplo, os assaltos e roubos acontecem durante todo o dia, para quem quiser ver. Os freqüentadores preferiram não dar declarações à reportagem de O Estado sobre o assunto. Muitos têm medo porque precisam utilizar o terminal todos os dias. Porém, em conversas informais, eles confirmaram que os crimes ocorrem em todos os lugares do terminal. (JC)

Composição do preço da passagem

Um dos pontos mais discutidos do sistema de transporte de Curitiba é o preço da passagem de ônibus. Muitos usuários acham a tarifa cara demais. De acordo com dados da Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socio-Econômicos (Dieese), a composição do preço da passagem é a relação entre o custo por quilômetro, pelo Índice de Passageiros Pagantes por Quilômetro (IPK).

O custo por quilômetro leva em conta os gastos com diesel, lubrificantes, peças, acessórios, rodagem, pessoal, administrativo, remuneração das empresas, depreciação, segurança no trabalho, fundo assistencial, seguro de vida, seguro dos veículos, material e supervisão de limpeza de tubos, manutenção de equipamento e tributos. O cálculo do IPK é feito pela relação entre o número de pagantes e a quilometragem rodada.

No início de 2003, a passagem custava R$ 1,70. Houve uma queda de cinco centavos em maio daquele ano, motivada pelo decréscimo no preço do diesel. O último reajuste da tarifa aconteceu em 2004, quando o preço passou de R$ 1,65 para R$ 1,90.

O Dieese, solicitado por várias entidades para confrontar os números e explicações apresentados pela Urbs, identificou vários problemas de cálculo da tarifa. Os coeficientes de consumo de combustível, por exemplo, são de 2001. Os de pneus se referem a 1987. "Deveria acontecer uma atualização constante", afirma Sandro Silva, economista do Dieese.

Para ele, a revisão da lei do transporte coletivo de Curitiba, de 1990, é uma das maneiras de reverter esta situação. (JC)

Urbs desconhece dados obtidos pelo Dieese

O gerente de operação do Transporte Coletivo da Urbs, Luiz Filla, explica que a tarifa dos ônibus em Curitiba sai do somatório de todos os custos dividido pelo número de passageiros. O custo do sistema sai dos gastos por quilômetro multiplicado, pelo quilômetro percorrido. Ele informa que desconhece os dados obtidos pelo Dieese quanto aos coeficientes de consumo. Sobre o combustível, Filla diz que o sistema abriga vários tipos de veículos, que rodam em regiões de topografias diferentes. As informações são encaminhadas diariamente à Urbs, que obtém os parâmetros de consumo de cada linha do sistema. "Os parâmetros são atualizados constantemente", afirma.

Filla comenta que a legislação determina que os custos com o diesel sejam corrigidos automaticamente e, por isso, a Urbs acompanha o preço do combustível pela Agência Nacional do Petróleo e pela Petrobras. Qualquer variação tem impacto na tarifa, sendo absorvida posteriormente. Sobre a coeficiente de peças e acessórios, Filla fala que o percentual é de 8% no sistema curitibano.

Para atender a demanda de passageiros, a Urbs realiza duas avaliações no ano, em março e agosto, para redimensionar o sistema com critérios técnicos.

"Baseado nisso, se pode aumentar o número de viagens ou aumentar a oferta", esclarece o gerente da Urbs. Em regiões com crescimento populacional acentuado, como o bairro Tatuquara, o monitoramento das linhas acontece a cada dez dias. (JC)