Frederico Félix abastece de lenha o
fogão, que há 38 anos aquece sua casa.

A necessidade de se aquecer no outono e no inverno é muito grande. Muitas pessoas preferem investir na compra de lareiras e fogões a lenha ou usar esses artifícios já existentes em casa, mas que ficam esquecidos em outras épocas do ano. Como conseqüência, as vendas de lenha, que serve de combustível, aumentam muito quando o tempo não ajuda.

Com a correria do dia-a-dia e pela facilidade, as pessoas estão comprando lenha em supermercados, postos de gasolina e distribuidoras de bebidas. “Nós estamos vendendo uma média de 20 pacotes por dia, tanto de lenha quanto de nó de pinho”, afirma Eduardo Bizineli, sócio-gerente do Posto Piemonte, no Bairro Seminário, em Curitiba. Ele acredita que a grande saída das mercadorias está relacionada com o alto poder aquisitivo das famílias da região: “É obrigatório elas passarem por aqui quando vão para casa. Acabam levando vários pacotes de lenha, os gravetos que auxiliam no começo do fogo e os acendedores. Um produto acaba puxando o outro”.

A atendente do Posto Texaco no Bairro Batel, Andrea Xavier, confirma que as pessoas que possuem lareira estão levando todos os produtos relacionados com essa forma de aquecimento. Ela vende entre 15 a 20 pacotes de lenha por dia. “Nesse frio, é uma delícia acender a lareira e ver televisão”, opina. O pacote de nó de pinho é vendido por R$ 8,50; o de lenha, R$ 7,50, e o graveto, R$ 9.

Uma das espécies de madeira mais usadas como lenha é a bracatinga, principalmente na Região Metropolitana de Curitiba, onde há aproximadamente 60 mil hectares da árvore. “Em tese, qualquer tipo de madeira serve para queimar. Mas algumas espécies estão mais disponíveis”, explica Washington Magalhães, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), seção Florestas. Outras espécies favoráveis para a lenha são o eucalipto e o pinus.

A bracatinga é uma espécie nativa que só se desenvolve em locais frios. Há cerca de um século não se corta mais a árvore. Ela é cultivada por um sistema simples em pequenas propriedades rurais. “A bracatinga está muito relacionada com a agricultura familiar”, esclarece Antonio Carpanezzi, também pesquisador da Embrapa Florestas.

Renda extra

Normalmente é a pessoa na terceira idade que realiza ainda a atividade. “Essa prática serve como complemento na renda dessas famílias. Só que há uma crise vinculada ao preço baixo da lenha. Os produtores ficam desestimulados”, acredita. A fase ruim começou há alguns anos, quando as indústrias de cal resolveram usar a serragem como fonte de energia: “Naquela época a serragem era de graça e é mais fácil de mecanizar. Com isso, caiu o preço da matéria-prima”, aponta Carpanezzi.

Bracatinga é alvo de testes da Embrapa

Atualmente, os pesquisadores da Embrapa, juntamente com uma equipe da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Expansão Rural (Emater) e da Associação de Desenvolvimento do Vale do Ribeira, estão estudando alternativas com maior valor agregado para o uso da bracatinga. “A área de bracatinga está diminuindo porque o produtor está deixando de cultivar, e isso está acontecendo há algum tempo. Ela está sendo substituída pelo eucalipto e pelo pinus”, conta Luciano Montoya, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Florestas. Ele comenta que a indústria de pisos de madeira testou a bracatinga para a fabricação de pisos e gostou da experiência: “Além dos pisos, há possibilidade de fabricar chapas de aglomerados, substituindo parte do pinus usado hoje, e na fabricação de brequetes (espécie de carvão, só que utilizado totalmente, sem deixar resíduos)”, indica.

Outros tipos de madeira podem ser usados também como combustível. O que determina o potencial para virar lenha é o seu poder calorífico. “A principal determinação é a densidade da madeira. Quanto mais densa, melhor”, comenta Helton Damin da Silva, pesquisador da Embrapa Florestas. “O pinus tem uma densidade menor, não seria tão apropriado, mas serve para a siderurgia, por exemplo. Além disso, há um volume maior de árvores”, afirma.

Silva explica que a lenha não pode ser cortada e enviada imediatamente para o fogo por conter alto teor de água: “Se acontecer isso, parte da energia será para essa água virar vapor. É preciso deixar a madeira secar antes”. Se a madeira tiver 50% de umidade, ela tem um poder calorífico de 1990 cal/Kg. Com a secagem natural, a umidade cai para 35% e o calor aumenta para 2.770 cal/Kg. Índices de teor de água mais baixos do que esse são conseguidos somente com secagem industrial, o que não acaba compensando pelo alto custo.

Planejamento

O pesquisador Carlos Alberto Ferreira, da Embrapa Florestas, conta que algumas grandes empresas diziam há alguns anos que o uso da madeira iria acabar com a chegada do gás natural vindo pelo gasoduto Bolívia-Brasil. “Mas os preços do gás e da energia elétrica são excessivamente altos. Com isso, não são raros os casos de empresas e indústrias que estão mudando, inclusive fazendo energia elétrica a partir da lenha”, comenta. “Todos precisam pensar em longo prazo e fazer um planejamento, pois em 50 anos não teremos mais o petróleo”, avalia Ferreira.

O nó de pinho, vendido em pacotes, é encontrado com facilidade em postos de gasolina e distribuidora de bebidas. “É um ramo do pinheiro quando cai. Hoje eles recolhem da área onde aconteceram derrubadas há muito tempo e comercializam. O nó de pinho surge do apodrecimento da árvore”, explica Antonio Carpanezzi, também pesquisador da Embrapa Florestas. O poder calorífico dele é muito alto devido a sua química diferenciada.

“A comida fica melhor no fogão a lenha”

O fogão a lenha fica aceso todos os dias, há 38 anos, na residência do casal Frederico e Lídia Félix, que moram no Bairro Pilarzinho, em Curitiba. “A gente mantém o fogão aceso das 8h às 11h. Somos do tempo em que não existia fogão a gás”, comentam.

Dona Lídia explica que o preparo da comida na casa dela começa no fogão a gás, terminando no fogão a lenha. “A comida não esfria tão rápido e não queima como no fogão convencional. Além disso, fica mais gostosa. Não sei por quê, mas fica”, afirma. O fogão a lenha também serve para esquentar o ambiente. “E ainda funciona como secador de louça. Lavo e deixo as panelas em cima da chapa. Elas secam rapidinho”, ensina dona Lídia.

Frederico consegue a madeira em vários locais, principalmente em restos de construção e reformas. Os vizinhos e amigos, sabendo da necessidade, dão a lenha que encontram para o casal. Ele corta a madeira no pedaço certo no quintal da própria casa. “Quando não recebo dessa forma, acabo comprando”, indica. “Nós mantemos o fogão mais pelo costume do que pelo preço. Se tivesse que comprar a lenha, seria mais ou menos o mesmo preço do gás. No final das contas, não compensaria”, explica.

Mas algumas pessoas não estão ligando para o custo/benefício, segundo Egdar Ferreira, proprietário da Casa do Fogão a Lenha, especializada no assunto: “Em 1999, foram vendidas na Região Metropolitana de Curitiba de 9 a 10 mil fogões a lenha. Somente em 2003, foram 120 mil peças vendidas”, afirma. Ele indica como razões a divulgação de uma pesquisa de engenharia de alimentos, que comprova que a comida perde somente 5% dos nutrientes quando preparada no fogão a lenha. Além disso, há a necessidade de esquentar os ambientes, principalmente em lugares úmidos como Curitiba. “O mais vendido é o fogão número dois tipo comercial, mais simples. Aquelas pessoas que gostam do fogão a lenha e têm uma vivência com ele, já gostam dos modelos mais sofisticados, com formas, desenhos e materiais (como cerâmica) diferentes”, explica Ferreira. Os preços variam entre R$ 350 e 1,2 mil.

Os consumidores, responsáveis por escolas e donos de restaurantes, também estão procurando o fogão a lenha como alternativa para a energia elétrica ou gás a fim de esquentar água em todo o local desejado. Uma serpentina é colocada dentro do fogão e, enquanto se utiliza o equipamento normalmente, ele vai aquecendo a água. “A serpentina custa R$ 170 e o preço do reservatório depende do tamanho, que varia entre 1 e 100 mil litros”, informa Ferreira.

Estufa

Outro equipamento que está sendo muito vendido é o que ele chama de estufa, uma espécie de lareira cilíndrica feita de ferro. “Serve para aquecer o ambiente e ainda renova o ar, impedindo a formação do mofo”, diz o proprietário da loja. A única orientação dele, para os fogões, lareiras e estufas, é a instalação correta de uma chaminé adequada. Depois disso, é só acender e curtir o inverno em um lugar bem quentinho.