Arcebispo de Curitiba diz que papa cumpriu bem sua missão

O arcebispo da Arquidiocese de Curitiba, dom Moacir José Vitti, define o papa João Paulo II como alguém que em sua vida pública cumpriu à risca sua missão divina. ?Foi um homem que soube realizar sua missão. Ela foi difícil, mas ele deixou marcas na igreja e no mundo?, resume.

Segundo ele, o papa procurou o diálogo ecumênico e inter-religioso, além de influenciar na abertura do leste europeu. ?Podemos dizer que foi um missionário, que fez mais de 100 viagens pelo mundo, dando exemplos de vida e dignidade.?

Dom Moacir convoca todos os padres e o povo para rezar, na Catedral Basílica de Curitiba, a missa pela alma de João Paulo II, na próxima segunda-feira, às 10h. Ele diz também que, neste domingo, todas as paróquias têm o dever de prestar suas homenagens ao papa.

O arcebispo afirma que de um lado fica um profundo sentimento de tristeza. ?Mas de outro, precisamos lembrar que temos mais um intercessor no céu. Que ele interceda por nós junto a Deus e também para a escolha de seu sucessor.? Segundo Vitti, a igreja continua sua missão de fé e esperança.

Bosque do Papa

Mesmo antes da confirmação da morte de João Paulo II, a comunidade polonesa de Curitiba já estava preparando as homenagens para o pontífice. Durante todo o dia de ontem, muita gente foi até a capela do Bosque do Papa, para rezar pela sua saúde.

Segundo a coordenadora do Bosque do Papa, Danuta Lisicki de Abreu, já foram encomendadas flores e faixas com inscrições em polonês para decorar a capela. Também foi providenciada uma bandeja de velas para os fiéis que quiserem ir rezar pela alma do papa no bosque. Danuta diz que a capela estará aberta hoje para visitação.

Segundo ela, a dor que todos os católicos poloneses estão sentindo é indescritível. ?Mas para nós ele continua e sempre vai continuar vivo?, afirma.

Danuta disse que os curitibanos tiveram sorte em receber João Paulo II e que a capela do bosque do Papa sempre será um local abençoado. ?Quando ele esteve em Curitiba, em 1980, ele abençoou esta capela. Por isso, aqui sempre será um local de paz e orações?, diz.

Danuta lembra que João Paulo II foi um grande conciliador. ?Procurou unir todas as igrejas, todos os seres humanos e todos os países. Ele cumpriu o que sempre se propôs.?

Missas

No Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio, em Paranaguá, a padroeira do Paraná, as missas deste fim de semana serão em homenagem ao papa. Ontem, foi realizada uma missa às 19h e hoje serão celebradas outras três – 8h30, 11h30 e 19 horas.

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

Curitiba, 6 de julho de 1980

Amados irmãos no Episcopado e no Presbiterato, queridos filhos e filhas, religiosos e leigos.

1. Como agradecer à Providência Divina que me dá a graça deste encontro com a população de Curitiba e com peregrinos vindos de todo o Paraná

e do vizinho Estado de Santa Catarina? Sirva de agradecimento a Eucaristia que quisestes colocar no centro do encontro como sua alma e sua inspiração.

Ora, nesta Eucaristia acabam de ressoar duas páginas do Novo Testamento que um Papa, Sucessor do Apóstolo Pedro, não pode ouvir sem íntima trepidação, sem que se reabra nele como uma chaga a consciência da própria pequenez diante da missão recebida – mas tampouco sem uma renovada confiança n’Aquele em quem tudo pode.

Uma contém o episódio de Cesaréia de Filipe: a inequívoca confissão de Pedro (Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo) à qual responde a misteriosa e prodigiosa confissão de Cristo (Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja!). Ao longo de 2.000 anos, 264 vezes esta mesma palavra foi dita aos ouvidos e à consciência de um homem frágil e pecador. 264 vezes um novo Pedro foi colocado ao lado do primeiro para ser pedra de alicerce da Igreja. Último no tempo a mim foi repetida a promessa de Cesaréia de Filipe e é na função de Pedro que me acho em meio a vós. Com que mensagem?

Aquela mesma que brota da outra página lida na presente Liturgia. Pedro, o ardente mas timorato, o amigo, o renegado, o arrependido, acabava de receber o Espírito Santo. E pela força do Espírito ele anuncia a uma Jerusalém repleta de peregrinos: "Este homem que entregastes crucificando-o, Deus o ressuscitou e O constituiu Senhor". Tudo quanto Pedro dirá até à última confissão numa encosta do Vaticano, que coroa a de Cesaréia de Filipe, se reduz a estas frases. Tudo quanto deve dizer o Sucessor de Pedro talvez esteja contido nestas simples palavras: "Deus O constituiu Senhor". no fundo o que o Papa sente: o doce e urgente dever de anunciar, por onde passa, com a força e o fervor de quem anuncia uma boa nova.

2. Mas o Sucessor de Pedro encontra aqui e agora um novo título de semelhança com seu longínquo primeiro Predecessor naquela sua pregação referida na leitura desta Liturgia. Este Estado do Paraná, esta Cidade de Curitiba onde me encontro, retrata bem a Jerusalém da manhã de Pentecostes pela imensa variedade de raças daqueles que ouvem anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo. Ali – segundo a fascinante enumeração dos Atos dos Apóstolos – Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia, da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito. Aqui caldeados pela terra que os acolheu mas presentes e reconhecíveis de algum modo nos rostos de seus filhos, netos e bisnetos – portugueses, italianos, ucrainos, alemães, japoneses, romenos, espanhóis, sírios, libaneses – para não falar daqueles, numerosos, que trazem nas veias um sangue igual ao meu, sangue polonês!

Inúmeras vezes, bem antes que eu imaginasse vir até aqui e previsse este encontro, eu já conhecia este aspecto do Paraná, ponto de chegada de inúmeras correntes migratórias, ponto de encontro de irmãos vindos dos mais longínquos quadrantes.

Neste fenômeno, que a fria etiqueta de imigração define tão pobremente, esconde-se uma admirável riqueza de aspectos humanos e – por que não? – evangélicos.

3. Primeiro entre todos, a acolhida franca e generosa que, apenas nascido para a independência política, este País começou a oferecer aos mais diversos povos. Quando difíceis conjunturas históricas fizeram descer sobre vários países da Europa o espectro da fome, imensas glebas do sul do Brasil são oferecidas aos braços dispostos ao seu cultivo mas sobretudo um novo lar é dado a quem acorria. Quando numa nação o excesso populacional veio a criar problemas graves de espaço vital, o Brasil soube abrir seus espaços quase ilimitados com prodigalidade e inteligência.

Há uma arte na acolhida, há um jeito de receber, coisas estas que é impossível codificar nas leis e normas da imigração mas que o Brasil, graças às qualidades de seu povo, conhece e aplica perfeitamente. Haverá países em que a assimilação e integração do imigrado se faça com igual naturalidade? Com maior naturalidade do que aqui, é impossível. Não creio ter visto em outro lugar os imigrados e seus filhos e netos sentirem-se tão apaixonados da terra que acolheu a eles ou os antepassados, tão "bairristas" do Brasil, ao mesmo tempo que não renegam os países de origem.

Quero pois, como filho de uma Pátria de onde vieram tantos filhos para aqui, render uma sentida homenagem à ampla e inconfundível hospitalidade deste País.

4. E aqui vem o segundo aspecto. Acolhido sem reticências nem preconceitos, o imigrante retribuiu imediatamente a hospitalidade recebida. Nenhum exagero em dizer que o Brasil moderno, que eu já pude ver pulsar de vitalidade em Brasília, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre e vejo pulsar aqui, é produto também do trabalho resoluto mas livre e alegre de centenas de milhares de imigrantes. Penso que ao lado de São Paulo e do Rio Grande do Sul, o Paraná é um magnífico exemplo disso. E não há dúvida de que a operosidade do imigrante somado-se à dos brasileiros de longa data, só podia enriquecer com um sentido novo o progresso do País. Seria demais falar de um cunho profundamente solidário e fraternal deste progresso?

Não quero silenciar no curso desta Eucaristia um preito de afeição aos imigrantes que ajudaram a construir o Paraná – e o Brasil. Não foi sempre risonho o quadro da sua vinda para cá. Foi muitas vezes de sofrimentos e agruras a história de cada família e de cada leva que aqui chegou. Não terá faltado nenhum dos espinhos que costumam cercar a saída da própria pátria em busca de outra.

Malgrado tudo, aqueles homens e mulheres souberam aclimatar-se na nova terra, construir um novo lar, criar famílias cuja pobreza material ia de par com altíssimos valores humanos, morais e religiosos. Souberam sobretudo amar sua nova pátria e trabalhar por ela. Dar-lhe filhos e netos de primeiríssima qualidade no sacerdócio, nas artes, na política, na literatura.

5. O terceiro aspecto é o que hoje se

apresenta aos meus olhos: a prodigiosa

integração na miscigenação de que o Brasil

dá exemplo. Tive ocasião de dizê-lo mas

repito-o de bom grado por causa da admiração –

e da emoção – que o fato suscita em mim:

de todas as belezas de vosso País não sei

se levarei no coração imagem de beleza mais tocante e significativa do que a da concórdia, da alegria descontraída, do senso de autêntica fraternidade com que convivem aqui as mais variadas raças.

6. Celebrando aqui, sob a invocação de Pentecostes recordado na primeira leitura, a Eucaristia que é sacramento da unidade e da fraternidade dos discípulos de Cristo mas que é também germe de unidade e fraternidade no mundo, eu quero fazer um pedido a vós e um pedido por vós.

Por vós eu peço a Deus com o maior fervor, que não venha nunca a arrefecer mas antes se alente e cresça a profunda integração racial que existe entre vós. Que nesta fraternidade entre os vários povos não falte uma especial solidariedade com vossos irmãos indígenas. Que haja ainda entre vós abertura para acolher muitos outros grupos humanos necessitados de uma nova pátria porque privados das suas.

A vós eu peço, com afeto de pai e

confiança de irmão, que conserveis

sempre este aspecto de vosso ser.

E este meu pedido alarga-se em votos por que

neste nosso mundo onde há ainda tanta discriminação os homens se compreendam sempre melhor, se aceitem uns aos outros por aquilo que têm em comum, a fim de crescer a solidariedade, o amor e a fraternidade entre os povos e se consolidarem as bases da paz.

Receba a Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida, a oração do Papa neste sentido.

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