Uma obra de implantação de linhas de transmissão de energia elétrica entre municípios de São Paulo e Paraná permitiu a coleta de 2.655 amostras de fósseis, com registros de vestígios de formas de vida que habitaram a região em períodos anteriores aos dinossauros.

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Para realizar as obras de implantação da Linha de Transmissão (LT) Ananaí 500 kV Ponta Grossa – Assis, com extensão de 275 quilômetros e 581 torres, que atravessam 13 cidades entre os dois estados –, a Taesa, uma das principais empresas privados de transmissão de energia elétrica do país, estabeleceu um programa de monitoramento e salvamento paleontológico, a coleta que preserva as amostras encontradas ao longo da obra. No Brasil, os fósseis são protegidos por lei como bens da União e patrimônio cultural, o que exige tratamento técnico especializado quando encontrados em obras de infraestrutura. 

As obras aconteceram entre abril de 2025 e janeiro deste ano, focadas nas escavações de fundações de torres e outras intervenções necessárias no solo. Tudo foi planejado de forma preventiva, já que todo o trabalho de implantação atravessou cinco formações geológicas com potencial reconhecido para o encontro de fósseis: Furnas, Ponta Grossa, Teresina, Rio do Rastro e Botucatu.

A análise minuciosa para identificar quais são as espécies encontradas e se há algo ainda não descoberto em meio ao coletado é feito posteriormente, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), para onde o material coletado foi encaminhado. Os paleontólogos trabalham em conjunto com engenheiros e demais funcionários para realizar as investigações seguindo o cronograma da obra.

Há quase 400 milhões de anos

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“Antes da obra se iniciar, a gente faz o diagnóstico paleontológico”, informa Joyce Celerino de Carvalho, paleontóloga do projeto. O diagnóstico é feito com os especialistas percorrendo o trecho onde a obra vai acontecer para identificar os tipos de rocha vulcânicas, mais difíceis de conter fósseis, ou sedimentares, com maior probabilidade de conter as amostras procuradas. 

O material encontrado reconstrói ecossistemas marinhos e continentais dos períodos Devoniano, de aproximadamente 390 milhões de anos atrás, e Permiano, de 270 milhões de anos atrás.

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No processo, o grupo de paleontólogos coletou macrofósseis e materiais de microfaleontologia, incluindo trilobitas, braquiópodes (conchas marinhas), moluscos bivalves, peixes, tentaculites, gastrópodes e conconstráceos. Da flora pré-histórica, identificaram fragmentos vegetais fossilizados de licófitas, ou plantas primitivas, e estruturas de bioturbação, que são registros da atividade de organismos que cavavam o solo.

Alga de 270 milhões de anos

Embora os fósseis encontrados já sejam conhecidos da região, o programa revelou novas áreas onde as amostras foram coletados. “Isso é muito importante para sabermos como era a distribuição, o espalhamento desses seres no terreno no passado”, explica Henrique Zimmermann, paleontólogo responsável pelo programa de Monitoramento e Salvamento Paleontológico desenvolvido pela Taesa. 

Um dos destaques do trabalho, aponta Zimmermann, foi a coleta das algas carófitas, tipo de alga de água doce que viveu há cerca de 270 milhões de anos em um lago que existiu na região. E em determinado ponto, havia uma quantidade significativa delas. “São algas muito bonitas, que têm uma estrutura de reprodução que fica preservada”, detalha.

A UEPG, que recebeu o material, gera um termo de recebimento reportado então à Agência Nacional de Mineração (ANM), o que torna as amostras rastreáveis. É na universidade paranaense que todo o trabalho de identificação é aprofundado, o que permite identificar eventuais espécies ainda não descobertas em meio ao material coletado.

Henrique entende que, mesmo se tratando de espécies já conhecidas, tê-las encontrado permite conhecer ampliar o conhecimento sobre elas e projetar a possibilidade de, no meio do acervo, identificar elementos ainda não descobertos. “Nada impede que pesquisadores e especialistas que vão estudar esse acervo daqui para frente encontrem espécies desconhecidas também no meio desse conjunto de espécies que, aparentemente, não tem novidade”, destaca. “Mas quando vai se estudar no detalhe, geralmente esse tipo de coleta que nós fazemos, em que se encontra muitos fósseis, acaba se descobrindo espécies novas ali no meio”, acrescenta.

Paleontóloga realiza o trabalho de campo e inspeção preventiva no solo durante as escavações para a instalação das torres de transmissão. Foto: Divulgação / Nasor – Paleontologia e Geologia