O número de pessoas que comprometem mais de 30% de sua renda com aluguel em áreas urbanas no País aumentou no último ano: subiu de 3,2% para 3,4% da população. O problema também é sentido na Região Metropolitana de Curitiba, atingindo 88.195 mil pessoas.

As informações foram divulgadas ontem e fazem parte de uma análise sobre a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), edição de 2007, publicada no mês passado.

Outra situação levantada é a quantidade excessiva de pessoas dividindo a mesma casa. Na Grande Curitiba a questão é vivenciada por 112.208 pessoas. A análise compara as áreas urbanas da Região Metropolitana de Curitiba com áreas periféricas de outras nove capitais brasileiras, mais o Distrito Federal.

A capital paranaense fica em sétimo lugar quando se leva em conta o número de pessoas que sofrem com gastos excessivos para pagar o aluguel. O alto custo é sentido por 3% dos moradores.

Já a região que concentra mais o problema é a do Distrito Federal. Lá a situação atinge 6,9% da população. Depois aparece São Paulo, com 4,9%, seguido do Rio de Janeiro, com 4,5%.

O estudo também faz um balanço da quantidade de pessoas que precisam dividir a mesma casa. Foram levados em conta domicílios onde havia mais de três pessoas usando o mesmo dormitório.

A região de Curitiba ocupa a melhor classificação, com 3,8% da população, correspondendo a 112.208 pessoas. A pior classificação ficou com Belém – o problema atinge 16,6% dos moradores -, seguido de São Paulo, com 11,7%, e Salvador, com 10,6%.

A análise também traz outros dados sobre a moradia, como o aumento de assentamentos precários, embora não haja dados locais. As favelas tiveram um acréscimo de dois milhões de pessoas, alcançando uma cifra de sete milhões em 2007, em todo o País.

Destas, 4 milhões são moradoras da região sudeste, concentradas principalmente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro. “Aproximadamente 34,5% da população urbana ainda vive em condições de moradia inadequadas. Retrato da desigualdade brasileira: enquanto os 10% mais ricos detêm 75% da riqueza nacional, um a cada três brasileiros das cidades não tem condições dignas de moradia”, reflete o estudo.

Rede de água atinge meta da ONU

Cintia Végas

O Brasil já conseguiu alcançar pelo menos uma das metas de desenvolvimento do milênio estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), que determina a redução da população sem acesso à água potável até 2015. Em território nacional, foi constatado que 91,3% das pessoas que vivem em áreas urbanas já têm água canalizada de rede geral.

O dado faz parte da edição 2007 da Pnad. No último ano foi possível levar água de rede geral para quase 2,2 milhões de brasileiros (dois milhões em áreas urbanas e 198 mil moradores de zonas rurais), sendo que o maior incremento absoluto (cerca de 877 mil pessoas) aconteceu na região nordeste.

Entretanto, ainda há desigualdades sociais. A água de rede geral está disponível para menos de 28% dos moradores do campo. Na região sul do País, cerca de 30% dos habitantes de zonas rurais têm acesso à rede geral, sendo que 68,9% ainda utilizam poços ou nascentes.

Quanto ao esgotamento sanitário, a Pnad 2007 revelou que houve aumento de três pontos percentuais na proporção da população urbana com acesso à rede de esgoto em relação a 2006. O aumento foi considerado o maior dos últimos 15 anos, passando de 54,4% (em 2006) para 57,4% (em 2007).

O motivo seria ampliação dos investimentos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de R$ 40 bilhões entre 2007 e 2010. Nas regiões sul e sudeste, os níveis de qualidade dos serviços de esgoto são os melhores (85%).

Em relação ao lixo, a Pnad 2007 revela que 97,6% da população urbana do País conta com serviços de coleta direta (90%) e indireta (7,6%). Na, zona rural, entretanto, só 26,93% dos habitantes contam com coleta de lixo. A região sul é a que tem os maiores níveis de coleta, com o serviço disponível para 99,46% da população urbana e 43,79% da rural.

As invasões e a falta de dinheiro para morar

Elizangela Wroniski e Leonardo Coleto

Ciciro Back
Jaci de Oliveira, moradora de Colombo, que tem renda mensal de R$ 950 e paga R$ 350 de aluguel.

Em Colombo, segunda maior cidade da Região Metropolitana de Curitiba, a falta de condições para comprar um imóvel ou pagar aluguel fez com que sete mil famílias invadissem terrenos públicos e particulares da cidade.

O problema é tão grave que a prefeitura não tem condições de criar um programa para atender a expansão da demanda por novas moradias. Por enquanto, os esforços se concentram apenas na regularização dessas áreas.

Segundo o secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Milton Peter Hopker, desde 2005 a prefeitura, em parceria com os governos do Estado e federal, conseguiu resolver a situação de 3,6 mil famílias com a regularização. Agora está previsto o atendimento de outras 1,6 mil pessoas. “A condição de vida dessas pessoas é precária”, revela.

A família de Jaci de Oliveira, de 50 anos, se encaixa neste perfil. Ela não mora em área de invasão, mas sofre para pagar aluguel. Junto com ela, vivem nove pessoas, no bairro Rio Verde, em Colombo, com uma renda de R$ 950. Mensalmente R$ 350 vão para o aluguel. “Quando chega o fim do mês, temos que segurar o orçamento para não atrasar todas as contas e manter tudo em dia e sem juros”, diz.

Ciciro Back
Getulio Beira e família: dos R$ 900 ganhos no mês, R$ 220 vão para o aluguel.

Outra situação é a falta de espaço dentro da casa, que conta com uma cozinha, uma sala, um banheiro, o quarto do casal e mais três quartos divididos entre os familiares. “É apertado, mas sempre damos um jeito”, brinca.

Getulio Beira e sua família enfrentam situação parecida. Com renda de R$ 900, precisa sustentar cinco filhos. “Pagamos R$ 220 de aluguel. Esse dinheiro compromete toda a renda da nossa família.

Além disso, temos que pagar luz, água, gás e alimentação. É difícil, mas mesmo assim, conseguimos manter todas as contas em dia”, diz Rosangela da Luz Ramos Souza, de 48 anos.

O coordenador do curso de Economia do Centro Universitário Franciscano do Paraná (FAE), Gilmar Lourenço, diz que o alto comprometimento da rendas das famílias revela que a população não está conseguindo ganhar o suficiente para satisfazer as necessidades básicas. Reflete também a falta de uma política habitacional mais ampla.