Mesmo sem qualquer lei que lhes garanta esse direito, produtores de algodão da região Centro-Oeste do País, responsável por 65% do 1,3 milhão de toneladas de pluma produzidos anualmente no Brasil, já estão plantando algodão geneticamente modificado. A informação não é confirmada, mas também não é desmentida pelo vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), João Carlos Jacobsen Rodrigues. Ao ser questionado sobre o assunto, ele disfarça ao dizer que “pode ser, há comentários”. Entretanto, não nega sua postura totalmente favorável ao plantio do algodão transgênico. “No mínimo, é burrice não plantar”, afirmou.

Conforme Jacobsen, os produtores nacionais estão perdendo muita competitividade no mercado externo por não plantarem algodão geneticamente modificado. “Existem interesses para que nós não tenhamos competitividade. Aí vem os americanos e ficam financiando os Greenpeace da vida para combater os transgênicos”, esbravejou, salientando que os produtores brasileiros perdem muito, pois competem contra os americanos, que são subsidiados pelo Estado. “Nosso concorrente é o tesouro nacional americano.”

Jacobsen disse que, se o Brasil produzisse transgênicos, teria uma grande redução de custos. Segundo ele, em cerca de dez anos de cultura, nenhuma pessoa ou animal morreu vítima de algum efeito colateral dos organismos geneticamente modificados (OGMs). “O Brasil já consome transgênicos importados”, avisou, criticando a postura do governo federal sobre a questão. “É falta de comprometimento total com o setor produtivo, com o crescimento econômico e com a geração de empregos, principalmente por parte da ministra Marina Silva (do Meio Ambiente)”, acusou. Ele disse que o Brasil precisa de uma legislação, no mínimo, razoável sobre os OGMs. “Quem tem que definir a parte científica é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNT-Bio) e que exista um conselho de ministros para decidir a parte política.”

O produtor disse que a Abrapa é totalmente contra o plantio ilegal. “Mantemos preocupação quanto ao algodão selvagem, por isso precisamos de leis que determinem como deve ser o plantio. Uma idéia seria criar cinturões de proteção para proteger a plantas nativas.”

Jacobsen descarta o argumento de que o plantio do algodão transgênico seria ruim aos produtores, já que teriam que pagar royalties às multinacionais detentoras das patentes das sementes. “A Embrapa já tem a tecnologia do algodão Bt e poderia fornecer. Na verdade, nós gostaríamos de pagar, mas para a Embrapa, que assim poderia aumentar suas pesquisas com essa entrada de recursos”, disse.

Vantagens

Segundo Jacobsen, no algodão Bt há uma redução de 80% na aplicação de inseticidas, já que a lagarta raspa a folhagem do algodão e acaba morrendo. Também é evitado o uso do herbicida de solo. “Com a morte da lagarta mais cedo, evitamos o que acontece com o convencional. Já que o inseticida mata a lagarta, o inimigo da lagarta a come e acaba se envenenando, morrendo e causando desequilíbrio na microfauna”, explicou, lembrando que o pequeno produtor, que acaba usando equipamentos nas costas para aplicar os inseticidas, muitas vezes se contamina. “Com a redução na aplicação, esse risco também cai muito”, concluiu.

Deputado convoca governo para discussão

O deputado federal Edson Duarte (PV-BA), membro da Frente Parlamentar de Biossegurança, está movimentando o Congresso Nacional para impedir a legalização do algodão transgênico no Brasil. Ele pretende convocar representantes dos produtores, do governo federal e da Monsanto, para uma audiência pública sobre o assunto. “Na questão da soja, primeiro plantaram e depois vieram com aquela história de que teriam problemas financeiros, o governo disse que não sabia do plantio e acabou autorizando para que os produtores não tivessem prejuízo. Agora queremos assegurar que o governo federal está sabendo que já está sendo plantado algodão transgênico clandestinamente, para que depois não venha liberar com a desculpa que não sabia”, afirmou.

Duarte contou que ficou sabendo do plantio clandestino de algodão transgênico por declarações do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, (Abrapa), Jorge Maeda, e de Rodrigo de Almeida, executivo da Monsanto no Brasil. “Então fiz um requerimento pedindo informações à CNT-Bio que me confirmou que o plantio do algodão transgênico está proibido no Brasil até mesmo para experimento. Apenas em laboratório o estudo é permitido, estando sendo feito pela Embrapa.” Então Duarte fez requerimentos sobre a fiscalização do plantio para a Polícia Federal, e ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e Saúde. “O algodão requer um cuidado muito grande, já que ele é 100% polinizável. Assim, o transgênico pode contaminar as espécies nativas. Vamos acabar produzindo só o que as multinacionais querem”, disse.

Ele destacou que a fiscalização dos órgãos competentes nas fronteiras brasileiras, para que sementes clandestinas não entrem no País, deve ser grande. “Isso aconteceu com a soja, agora com o algodão, mais à frente pode ser o milho. Nossa fiscalização não pode atuar apenas movida por denúncias. O Brasil não pode ficar à mercê dos interesses comerciais da multinacionais”, reclamou.

Paraná não registra plantação

No Paraná não há algodão geneticamente modificado. A garantia é dada pela técnica em algodão da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), Vera da Rocha Zardo. Ela destacou que o Paraná é apenas o 7.º produtor de algodão do Brasil, já que a cultura hoje é feita basicamente por pequenos produtores.

Este ano o Estado produziu 89 mil toneladas de algodão, nos 46.100 hectares onde ele é cultivado no Estado. O Paraná já chegou a ser o primeiro produtor de algodão do Brasil, mas na década de 90, devido à abertura de mercado, os produtores foram obrigados a reduzir ou até parar de plantar. “No governo Collor caiu a alíquota que se pagava para importar algodão. Além disso, se podia comprar algodão de fora do Brasil e pagar com prazo de 360 dias. Isso fez com que a produção no Paraná caísse”, explicou.

Na safra 2003/2004 a produção de algodão cresceu 53,6% no Estado. O motivo apontado pela engenheira agrônoma é o preço. A safra de algodão do Paraná é plantada antes das safras na região Centro-Oeste. Por isso, o Estado colhe antes e vende num período onde os preços alcançados são mais altos. “Hoje a arroba de algodão está custando cerca de R$ 16,50. Mas um pouco antes, produtores paranaenses chegaram a vendê-la por até R$ 21,00”, revelou.

Ministério já recebeu denúncias sobre cultivo

O gerente de Recursos Genéticos do Ministério do Meio Ambiente, Rubens Nodari, afirmou que o ministério já recebeu denúncias sobre algodão transgênico. Mesmo assim, ainda não foram feitas ações de fiscalização. “As denúncias que temos são muito gerais e apontam para uma atividade que está começando. Não há como visitar todas as fazendas de Mato Grosso, por exemplo. Precisamos de denúncias mais específicas, mais concretas, coisa que ainda não temos”, afirmou.

Nodari foi taxativo ao dizer que o produtor que planta algodão com semente clandestinas é um fora da lei. Nesse caso é passível de processos civil e criminal.

O técnico do Ministério do Meio Ambiente demostrou grande preocupação com a entrada de algodão modificado no Brasil. Ele lembrou que o Brasil é o centro de origem de algumas espécies de algodão. “Ele é polinizado por insetos até 14 quilômetros. Ou seja, a presença de transgênicos na proximidade de uma lavoura convencional pode contaminar a planta nativa.”

Nodari contou que a pseudavantagem que os agricultores teriam em plantar algodão modificado é que ele tem maior resistência a uma lagarta, que provoca dano na safra. “Entretanto, parece que existem estudos que comprovam um efeito colateral na qualidade científica. A fibra desse algodão seria de menor qualidade”, afirmou.

Embrapa incrementa pesquisa

Segundo o chefe-adjunto de pesquisa da Embrapa Algodão, Luiz Paulo de Carvalho, há dois tipos de algodão transgênico atualmente. Um com o gene denominado Bt que controla algumas lagartas que atacam o algodão e outro que condiciona resistência a herbicidas. Todas as sementes transgênicas de algodão que carregam estes genes são de empresas multinacionais e não são plantadas comercialmente no Brasil.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem incrementado suas pesquisas em laboratório, visando, no futuro, produzir suas próprias variedades transgênicas. Inicialmente, antes que isso aconteça, a Embrapa tem feito estudos para verificar impactos ambientais que porventura possam haver com o plantio de algodão transgênico, para que, futuramente, o OGM possa ser recomendadas com segurança. “A Embrapa tem feito pesquisas para identificação de novos genes Bt para controle de lagartas e bicudo, visando incorporá-los em suas próprias cultivares. Tem estudado outro gene, da colesterol oxidase, para resistência ao bicudo, tendo já realizado estudos de seqüenciamento deste gene para futura clonagem e incorporação no genoma do algodão e obtenção de cultivares transgênicas resistentes ao bicudo”, contou Carvalho.

Ele destacou que a empresa também tem feito outros estudos básicos em cultura de tecidos como a embriogênese somática para recuperação de plantas a partir de células com o gene introduzido, estudos sobre eficiência de métodos para introdução do transgene na planta de algodão e sobre inibidores de proteases.