Somente nesse ano doze indígenas morreram vítimas do álcool na maior aldeia do Paraná, a Rio das Cobras, nas proximidades de Guarapuava, região central. Os números não são oficiais, mas foram confirmados pela Secretaria Especial de Assuntos Indígenas do Paraná, órgão representante da classe. Algumas das causas para explicar o aparecimento desses casos são: a falta de perspectiva de vida, o fácil acesso às bebidas e a falta de um programa que atue diretamente nas comunidades de todo o Estado.

Esse problema tem se tornado tão constante que chamou a atenção da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). De acordo com a instituição, o alcoolismo se tornou uma questão de saúde pública em todo o País. Para tratar a questão, a Funasa iniciou um processo de procura de soluções para poder elaborar e aplicar ações efetivas no combate a essa doença. Até então, nenhum trabalho relacionado ao alcoolismo tinha sido desenvolvido junto às comunidades indígenas. Também não existe nenhum levantamento realizado sobre esses casos.

O alcoolismo não está presente só na Rio das Cobras, mas em diversos outros pontos do Estado, destacou o caingangue Florêncio Fernandes, chefe do posto de saúde da reserva. A aldeia de 18 mil hectares abrange nove comunidades, sendo aproximadamente três mil habitantes, entre caingangues, guaranis e xetás. Florêncio é um dos responsáveis pela disseminação dos métodos preventivos e das ações de saúde junto às comunidades. No entanto, destaca ele, a falta de recursos e de estrutura compromete todo o trabalho. Ele participou da apresentação do Programa Universidade Para Todos (ProUni) em Curitiba, no início do mês, e explicou que a situação é alarmante, principalmente entre os caingangues. De acordo com o indígena, a tribo caingangue é a etnia que mais entrou em contato com os costumes dos não-índios e, por isso, esses índios se tornam mais suscetíveis. "Como não existem números oficiais, a questão não é divulgada. Mas para quem vive o dia-a-dia, o problema é muito grande. A disponibilidade de bebidas é enorme e a fiscalização é pequena. Não temos equipe para atender toda a região", diz o indígena.

Segundo ele, muitos caingangues chegam a trocar artesanato por bebida ou trocam dinheiro para comprar álcool em bares próximos às comunidades. "Temos somente um carro para poder agir no local. E do outro lado existem diversos bares na beira da rodovia, que vendem bebida normalmente. Além disso, não há como desenvolver um trabalho com os mais jovens sem nenhum apoio", afirma.

Outro problema ressaltado por Florêncio, e que acaba aumentando o risco de morte entre os indígenas, são as BRs 277 e 473, que passam pelo território indígena. Sem nenhuma sinalização na estrada e extremamente alcoolizados, conta Fernandes, o número de atropelamentos cresce cada vez mais. "Os carros passam rapidamente e, se um índio estiver no acostamento, mas estiver sob efeito do álcool, uma tragédia pode acontecer", aponta.

Valdemar Ramalho, representante da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Guarapuava, reforçou o panorama, informando que a questão do alcoolismo é realmente preocupante. Segundo ele, os indígenas estão bebendo muito, e nenhuma iniciativa eficaz foi tomada para solucionar a questão. "É triste ver que toda uma forma de vida, os costumes e a cultura acabam perdidas com o simples contato com o álcool. A reação do alcoólatra indígena é muito mais prejudicial do que em um não-índio. Ele não está acostumado com a bebida, e numa primeira vez, acaba se tornando incontrolável", atesta.

Projeto de prevenção em tribo premiado

Um programa de pesquisa e intervenção sobre o uso de bebidas alcoólicas e alcoolismo entre os caingangues da tribo de Apucaraninha, na região de Londrina, está sendo desenvolvido pela profissional de saúde Marilda Kohatsun e pela antropóloga Marlene de Oliveira, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social e Saúde do município do Norte do Paraná. Em parceria com o Ministério da Saúde (MS) desde 2001, o projeto prevê ações de pesquisa, prevenção e intervenção, com envolvimento e participação da comunidade indígena.

O programa foi premiado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas e Fundação Ford, ficando entre os 20 melhores projetos em 2003. Inicialmente foi realizada uma pesquisa para conhecer os significados do "beber" para a população indígena. Foram criadas oficinas de prevenção e capacitação sobre o problema do uso do álcool, desenvolvimento de práticas esportivas, revitalização e fortalecimento da cultura e atividades com as crianças na escola.

Após essa fase, ações de intervenção, como: estruturação de um atendimento ambulatorial dentro da aldeia ao paciente que faz uso do álcool e para sua família, construção de um protocolo de acompanhamento do caso, garantias de tratamento de suporte para o paciente, elaboração de um instrumento para mapear famílias em situação de risco e documentação de todas as iniciativas. O período comum para se observar os resultados fica em torno de 5 a 10 anos. "Mas nesse caso, já foi possível observar as primeiras vitórias".

Entre os resultados já observados com a implantação do programa, destacam-se: a produção da cartilha "Gojfa-to-vême", realizada a partir de textos elaborados pelos caingangues e que demonstra a história da introdução do álcool nas aldeias e a prevenção dessa doença; a produção do livro Caingangues e Guarani: Narrativas sobre o Uso de Bebidas Alcoólicas e Doenças Sexualmente Transmissíveis; a criação de uma escolinha de futebol para adolescentes que atende 60 jovens; realização de diversas oficinas de capacitação e prevenção; e início da estruturação do atendimento ao paciente alcoólatra. "É um projeto pioneiro no País e que já foi apresentado em alguns congressos. Pode ser um passo inicial, mas que pode dar certo em outros locais".

Funasa

Segundo a Funasa, uma série de ações será tomada a partir do ano que vem para que possa ser iniciado um trabalho com resultados a médio e longo prazo. Será constituída uma equipe profissional adequada no Departamento de Saúde Indígena (DSI) da Funasa, para formulação de propostas de um Programa de Atenção Psicossocial aos povos indígenas.

Segundo o presidente da Funasa, Valdir Camácio Bezerra, várias atividades foram desenvolvidas para que fossem iniciadas discussões sobre a promoção da saúde mental em áreas indígenas. Ele participou da entrega de R$ 3 milhões ao governo do Paraná, no início do mês, e afirmou que a população indígena está tendo uma atenção especial em diversas frentes. "Além do desenvolvimento do trabalho visando a saúde mental, ações de prevenção à aids e DST, redução de mortalidade infantil, tuberculose entre outras iniciativas estão sendo ampliadas", cita. "Em muitos casos, temos toda a estrutura para atender os indígenas, mas gastamos tempo e dinheiro com o transporte até as áreas mais isoladas. Isso é um dos empecilhos para que esse processo se torne mais eficaz, e que essa população tenha mais acesso à informação e prevenção de uma maneira geral para preservar sua saúde".

Faltam políticas públicas de combate

Em todo o Estado, vivem cerca de 15 mil indígenas, divididos em tribos caingangues, xetás e guaranis. Segundo o secretário de assuntos indígenas, Edívio Batistelli, todas as ações sociais desenvolvidas junto às tribos podem colaborar para a valorização do índio. Ele afirma que desde a implantação de saneamento básico, estrutura de habitação, educação, tudo acaba influenciando na manutenção da saúde indígena.

"O índio tem que se sentir de bem com a vida, ser valorizado, pois sua cultura é riquíssima. Se um jovem, um adolescente, está tendo acesso a todas essas informações, saberá que não precisa ter contato com o álcool, que aquilo vai fazer mal à saúde. Sem dúvida faltam políticas públicas de combate ao alcoolismo nessas áreas", alega.

Batistelli conta que já perdeu alguns amigos indígenas por causa do álcool. Um deles foi atropelado na região de Maringá e outro em Francisco Beltrão. Ele explica que, normalmente, algumas bebidas utilizadas em rituais nas tribos acabam tendo um teor alcoólico muito pequeno, e que a fermentação é à base de milho. Além disso, ele destaca que casos de violência entre os próprios índios foram observados em tribos do Estado. "É pai que bate nos filhos, filho que briga com mãe, irmão com irmão, amigos entre si, enfim, tudo por causa do consumo excessivo de bebida alcoólica. Os que não se tornam vítimas acabam sofrendo a violência. Toda comunidade é atingida, por isso a urgência em encontrar iniciativas para coibir essas casos", afirma Batistelli. "A gravidade é enorme, tanto que o número de alcoólatras entre a população indígena é quatro vezes maior do que entre a população de não-índios".

E o problema é verificado em todo o País. Batistelli tem conhecimento de diversos casos de alcoolismo em todo o País. Num dos casos, nas fazendas mais isoladas do Pantanal, no Mato Grosso, o contato com os peões foi prejudicial. "Eles se viciaram tanto no álcool, que chegavam a ingerir desodorante. Parece mentira, mas isso acontecia".