Mais de 45% dos caminhoneiros que percorrem as estradas do Paraná apresentam problemas de alcoolismo e cerca de 18% fazem uso de barbitúricos para não dormir. Esses dados estão em um trabalho da Secretaria da Sáude do Paraná, desenvolvido pelo médico Camilo Amatuzzi Filho, que avaliou 3.697 pessoas, entre os meses de junho e outubro. O programa, chamado Saúde do Caminhoneiro, prestou atendimento a motoristas e suas famílias em um ônibus improvisado no pátio do Porto de Paranaguá.

O Saúde do Caminhoneiro revelou também que 33,2% dos entrevistados apresentaram problema de obesidade e 21,5% de hipertensão arterial. “Muitos motoristas nem fazem idéia do risco que estão correndo e foram aconselhados a procurar ajuda especializada”, diz o médico.

Para o presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro, Nélio Botelho, a falta de assistência é a principal causa dos problemas da categoria. “Somos um tipo de trabalhador diferenciado e desamparado, que trabalha muito, longe de casa, em condições desumanas”, afirma.

Para Nélio, a pesquisa da Secretaria da Saúde indica uma realidade nas estradas. No entanto, na visão do sindicalista, o governo esquece de combater o problema. “O governo estadual não faz nada”, critica. “Os ministérios dos Transportes e da Saúde não fazem nada. Não temos uma política de iniciativas disposta a resolver a situação das estradas e do motorista.”

Quem vive a rotina do caminhão diz que a classe acaba tendo de se adaptar à realidade do mercado. “Motorista que recebe por comissão quer fazer a viagem o mais rápido possível, o cara não quer dormir e toma rebite mesmo”, explica o caminhoneiro Francisco Assis de Almeida, que diz já ter tomado o remédio. “Não uso mais: você fica um dia, dois sem dormir, mas não adianta porque você acaba dormindo de olhos abertos. A maioria dos acidentes que vejo na estrada é por culpa disso.”

Para o caminhoneiro Nélson Pereira da Costa, a solidão faz muitos motoristas perderem a cabeça. “O sujeito ganha pouco, fica longe da família e acaba relaxando, comendo mal, dormindo pouco e tomando rebeite para rodar mais”, diz Nélson, abraçado no seu “fiscal”. “Levo meu filho. Um acaba cuidando do outro.”