Um dos pilares da economia paranaense, o agronegócio registrou salto do Valor Bruto da Produção (VBP) de R$ 98 bilhões em 2019 para R$ 212,6 bilhões em 2025 — alta nominal de 117%, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral). O setor é influenciado pela agricultura familiar, que responde por 75% dos estabelecimentos rurais no estado, ocupando 3,56 milhões de hectares (24,1% do total de terras agrícolas), conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), levantados com base no Censo Agropecuário do IBGE.

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O segmento também é responsável por 63,3% de toda a mão de obra do campo paranaense, gerando um valor de produção de R$ 13,3 bilhões — o equivalente a 27,4% de tudo o que o agro produz no estado.

Ou seja, três em cada quatro propriedades do Paraná são familiares, ocupam um quarto do território produtivo e empregam quase dois terços de quem trabalha no interior.

A força desses números, porém, contrasta com o esvaziamento populacional. Após uma queda de quase 17% nos últimos anos, dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) mostram que o contingente rural deve passar de 1,19 milhão de habitantes para 1,01 milhão até 2035 — reduzindo a fatia do interior de 10% para 8,1% do total de moradores do estado. Apesar do peso do setor para o Paraná, quem estará à frente dessas propriedades nos próximos anos?

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Aos 32 anos, Bruno Mateus Gonçalves decidiu viver na área rural de Iporã, no Noroeste do Paraná. Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, ele assumiu a gestão da propriedade familiar aos 20 anos, após a morte do pai. Hoje, ao lado da mãe, produz leite e hortaliças em transição para a certificação orgânica.

Apesar de ter escolhido continuar com o negócio familiar, o produtor percebe que nem todos os jovens que cresceram em meio ao agro possuem o mesmo desejo.

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“Às vezes os pais criam toda uma estrutura, investem anos em genética, tecnologia e equipamento, e depois tudo se perde porque não tem continuidade. Muitas pessoas trabalham a vida inteira na cidade para tentar comprar um pedacinho de terra no final da vida. O jovem que tem essa oportunidade no campo, às vezes sai para trabalhar na cidade e tentar comprar o pedacinho de terra que ele já tinha.”

Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Iporã, Gonçalves aponta que, mesmo com o auxílio da tecnologia para tentar solucionar o problema da mão de obra, acontece um segundo gargalo: a falta de qualificação.

“A tecnologia vem para suprir a falta de mão de obra, principalmente para o pequeno agricultor. Mas assim como os sistemas de produção estão avançando, nós temos dificuldades de achar mão de obra especializada. É algo bem preocupante, porque os jovens estão deixando o campo e não é algo exclusivo do nosso município. Batalhamos para tentar achar um meio de incentivar essa vontade das pessoas permanecerem”, comenta.

O dilema da sucessão familiar

Presidente do Sindicato e produtor na mesma comunidade de Iporã, Antônio Carlos, de 62 anos, vive o outro lado do espelho. Ele viu a cafeicultura desaparecer da região por doenças e questões climáticas e, com o passar dos anos, aposentou-se e limitou o uso da propriedade de 30 alqueires para a criação de gado de corte.

Dos cinco lotes familiares formados pelos pais dele e tios no passado, apenas o dele permanece sob gestão da família. Ele relata que os dois filhos seguiram para a universidade em Brasília e construíram carreiras no meio urbano.

“Seria injusto querer prender meu filho no ‘final do Paraná’ sendo que ele pode contribuir com o mundo. Mas a verdade é essa: aqui só restou eu e minha esposa. Os produtores vão ficando idosos, aposentam e arrendam a terra. Continua existindo a lavoura, mas a vida comunitária da agricultura familiar está acabando”, avalia o agricultor.

Pensando no futuro, Antônio acredita que o agronegócio continuará forte, mas terá uma dinâmica mais empresarial e menos familiar. Contudo, ele reforça que os jovens que sucedem os negócios da família devem fazer por amor.

Transição de gerações: o desafio da renda própria e do diálogo

Para a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), a redução populacional no meio rural não deve ser vista como sinônimo de crise na produção. Segundo Jefrey Albers, gerente do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP/SENAR-PR, é preciso ter cautela ao olhar as estatísticas, pois a queda percentual reflete o ritmo maior de urbanização e o ganho de eficiência das máquinas.

Para ele, o maior desafio atual não é o desinteresse do jovem, mas sim a gestão da transição familiar, na qual os pais frequentemente hesitam em compartilhar o comando do negócio.

“Existe ainda uma barreira da família conversar sobre o futuro. Dos mais velhos entenderem que a nova geração é diferente e traz novas ideias e dos novos entenderem que os pais fizeram aquilo durante muitos anos. O diálogo entre gerações tem que fluir com qualidade para que isso se torne, de fato, uma sucessão tranquila.”

Tainá Guanini, secretária de Juventude Rural da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (FETAEP), afirma que a decisão do jovem de deixar a propriedade familiar não é espontânea, mas fruto de situações históricas de renda e infraestrutura.

Um dos principais motivos apontados por ela é a falta de remuneração própria dentro da propriedade familiar. Ela explica que, muitas vezes, o filho atua como mão de obra ativa na lavoura, mas não possui salário individual nem participação nas decisões de investimento do sítio.

“O jovem quer e precisa ter sua independência financeira. Quando ele trabalha o mês inteiro com a família, mas precisa pedir dinheiro aos pais para qualquer despesa pessoal, cria-se um sentimento de estagnação. Se o meio rural não garantir renda direta e autonomia de gestão, a cidade continuará parecendo a única opção”, aponta Tainá.

Para auxiliar nesse cenário, a entidade defende a implementação do projeto de lei que institui a Política Estadual de Juventude e Sucessão Rural, em tramitação na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Tainá explica que a proposta prevê linhas de crédito desburocratizadas pelo Pronaf Jovem — garantindo financiamento diretamente no nome do jovem agricultor —, estímulo à conectividade e a criação de espaços de convivência e lazer no interior.

Secretário de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), Natalino Avance de Souza, afirma que o Estado reconhece os riscos do envelhecimento da população agrícola e, consequentemente, da falta de sucessão familiar. Por isso, ele afirma que a pata trabalha para aplicar políticas públicas, como créditos melhores para os jovens e capacitação, para incentivar a permanência dos agricultores no campo.