Aliocha Mauricio / O Estado do Paraná
A família Bortoleti: em busca
de um pedaço de chão.

Oito pessoas vivendo em uma Kombi. Essa é a realidade da família de Luiz Carlos Bortoleti, 58 anos, que está há três dias parada no Posto Basseti, em Campo Largo, vendendo artesanato para sustentar os filhos e juntando dinheiro para abastecer o veículo e chegar a Curitiba.

Sem dinheiro, sem casa e sem trabalho, o agricultor de Arapongas ainda acredita que vai encontrar um lugar para fixar sua família, mesmo depois de seis anos sem local definido para morar. Depois de passar por dois acampamentos sem-terra, um no Paraná e outro em Brasília, e perder tudo em uma fazenda em Goiás, Luiz Carlos depende da boa vontade das pessoas para continuar sobrevivendo.

Até 1999, o agricultor, a esposa Cristina da Silva Ferreira, de 35 anos, e os seis filhos viviam em um acampamento na Fazenda Marília, região de Colorado, no Norte do Paraná. Luiz conta que os donos das terras não entraram em conflito com os manifestantes, mas depois de verificarem atos de vandalismo no local, retiraram boa parte das vacas da fazenda, reduzindo a fonte de leite para as crianças do acampamento. O leite que tinha sobrado, ressaltou ele, era usado para preparar doces. Isso fez com que a filha mais nova de Luiz Carlos ficasse doente, tendo que ser internada em Colorado.

Quando retornaram ao acampamento, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) expulsaram o agricultor e sua família porque, de acordo com as “regras”, eles não poderiam sair do local ou denunciar o movimento. “Tem gente que precisa de ajuda realmente. Mas também há pessoas no movimento que têm casas na cidade, carros e comércio. É por isso que a reforma agrária ainda não saiu. Não se sabe quantos são os que precisam de verdade dentro do movimento”, conta o agricultor.

Sem destino certo, a família se encaminhou para Curitiba e entrou em contato com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para solucionar o problema. Segundo Luiz Carlos, o órgão alegou que não poderia ajudar, mesmo ele declarando que fazia parte do MST. Sem obter uma resposta, eles viajaram até Brasília para falar com o Incra nacional. Depois de muita insistência, a entidade conseguiu lugar para Luiz na Fazenda Pipiripau, em Planaltina (DF). Nessa área, a família ficou instalada por oito meses.

Quando os outros agricultores souberam que eles já tinham sido expulsos de um acampamento do MST, mandaram eles se retirarem do local. “Só nos acalmamos um pouco quando um senhor da cidade de Cristalina, em Goiás, nos emprestou um pedaço de terra para plantar e construir uma casa. Tudo estava indo bem até uma tempestade destruir tudo o que nós tínhamos”, declara Luiz Carlos.

Novamente sem lugar para viver e somente com a Kombi, a família resolveu voltar para o Paraná. Desde então, estão parados em Campo Largo. Segundo o agricultor, eles devem se encaminhar novamente para Curitiba nos próximos dias, com um único desejo: um pedaço de terra. “Espero que a gente consiga um lugar para criar os filhos. Não quero que eles continuem passando pelo que nós já enfrentamos nesses anos”, conclui.