O senador Honório Hermeto Carneiro Leão que sugeriu o nome da última província a ser criada no império, (“Em lugar de Curitiba que se chame Paraná,”) teve uma bela recompensa. Algum tempo depois ouviu do próprio dom Pedro II: “Em vez de Carneiro Leão que se chame Marquês do Paraná.” Seu prestígio era inegável, pois logo foi incumbido de chefiar o gabinete parlamentarista que governava o Brasil.

A movimentação de políticos paranaenses pela emancipação começou cedo, por volta de 1722, e a pressão tornou-se mais intensa com a chegada de dom João VI, em 1811. As cidades de Paranaguá, Curitiba e Castro eram as mais incisivas na reivindicação, até mesmo pelo fato de constituir à época o que de mais avançado se conhecia na quinta comarca em termos de organização social, política e econômica.

Como se sabe, a província do Paraná se deveu à emenda apresentada ao projeto de criação da província do Amazonas, a ser desligada do chamado território do Grão-Pará, pelos idos de 1850. O projeto foi aprovado com os votos dos representantes do Amazonas e Paraná, obviamente, apoiados pelas bancadas de Minas Gerais e Bahia. Como a grande província do Norte receberia o nome do rio que a corta em toda a extensão, por analogia Hermeto fez sugestão idêntica pensando também no magnífico Paraná, a imensa corrente fluvial formada por inúmeros tributários que nascem em paragens longínquas do Brasil Central até desaguar na bacia do Prata. De quebra, ainda levou o título de marquês. Daria um belo samba enredo.

Segundo os historiadores a idéia da criação da província passou a ser encarada com maior interesse pelos políticos, tendo em vista a ocorrência da Guerra dos Farrapos (1835) e a Revolução de Sorocaba (1842), ambas contra o governo imperial, julgando muitos que o Paraná transformado em província teria relevante função estratégica na região.

Primeiro presidente provincial, o homem de estado Zacarias de Góes e Vasconcelos, já passara pela presidência das províncias nordestinas do Sergipe e Piauí. Recém-casado, aceitou a incumbência de governar o Paraná onde chegou pouco antes do dia 19 de dezembro de 1853, desembarcando em Paranaguá. Recebido com muita festa pela população, cujo desejo era induzi-lo a instaurar logo a capital, não há registros de como conduziu diplomaticamente a questão, nem quais os convincentes argumentos que teria usado para contornar a pretensão parnanguara, sem criar ressentimentos que mais tarde pudessem gerar desavenças políticas sérias.

Zacarias e seus acompanhantes seguiram até Antonina, cujo cais de atracação é um imenso lodaçal. O presidente chegou a pensar que aquele sítio jamais seria propício para a construção de um porto. A subida da serra foi feita pelo caminho do Itupava, o único existenete, não sem sacrifícios indizíveis para a jovem esposa mais afeita às facilidades da Corte. Finalmente a comitiva avistou os campos de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Alguns funcionários tinham vindo na frente a fim de tomar as providências para a instalação oficial da província, e estando tudo pronto o presidente marcou o dia 19 para o evento solene. Todo o povo compareceu à pequena matriz situada na praça hoje denominada Tiradentes, cuja edificação quase em ruínas teve que ser restaurada às pressas, assim como moradores de vilas e povoados distantes. Houve missas, retretas, representações teatrais, discursos e fogos de artifício, além da assinatura do ato de instalação da província numa casa alugada para servir de sede do governo, da qual infelizmente ninguém lembrou de anotar a localização.

Curitiba tinha cinco mil moradores, cerca de 200 casas e 10 vias públicas, e segundo informa Rocha Pombo em livro escrito em 1900, entre elas pontificavam a rua das Flores, mais tarde rebatizada como Imperatriz e 15 de Novembro. As demais eram a Fechada (depois José Bonifácio), da Entrada (depois Riachuelo), do Fogo (depois São Francisco) e do Rosário. Toda a população curitibana concentrava-se entre os rios Ivo e Belém.

A primeira providência oficial do conselheiro Zacarias foi convocar a Assembléia Provincial, para a qual foram eleitos os chamados homens bons da cidade e do interior, dentre os quais se destacavam o Comendador Roseira, Visconde de Nácar, Jesuíno Marcondes, David Santos Pacheco, Modesto Gonçalves Cordeiro e Manoel de Oliveira Franco, ilustríssimos e probos cidadãos que volta e meia flagramos, por aí, em nossas deambulações urbanas, perpetuados no bronze monumental ou em placas de ruas, algumas nem sempre à altura da respeitabilidade que a nominação teria o direito de exigir.

A definição de Curitiba como capital somente se efetivou mediante a lei promulgada em 26 de agosto de 1854, seguindo-se a implantação da estrutura do poder judiciário, estabelecendo-se as comarcas de Curitiba, Paranaguá e Castro. Logo foi também decidida a construção de uma estrada de rodagem para ligar a capital ao que se chamava então de marinha, a Graciosa, cujos primeiros estudos de viabilidade técnica foram feitos pelos engenheiros Beaupaire Rohan (mais tarde presidente provincial) e Saturnino Francisco de Freitas, com o auxílio do topógrafo Augusto Miller.

A estrada ficou pronta em 1873, quase 20 anos depois de ter sido planejada, mostrando que o atraso na feitura de obras públicas é um vício antigo da administração pública. Naqueles idos a força econômica do Paraná provinha da exportação da erva-mate, da madeira e da lavoura. O historiador Rocha Pombo constatava já em 1900, ano em que o Brasil comemorava quatro séculos de descoberta, a importância da estrada: “O tráfego na Graciosa tornou-se logo espantoso: centenas de carroças eram permanentemente empregadas na condução de cargas entre o interior e os entrepostos marítimos.”

A mesma fonte diz-nos também que um serviço diário de diligências atendia os viajantes obrigados a fazer o trajeto entre Curitiba e Antonina, pasmem, com pernoite no rio do Meio! Daí partia um ramal na direção de Morretes, sendo que a viagem até Paranaguá continuava pelo rio Nhundiaquara, a bordo de pequenos vapores de uma empresa de capital privado recém-constituída. Bons tempos.

Novas cidades e municípios começaram a surgir no Paraná, até que despontasse a figura do dr. Cândido de Abreu, secretário de Viação e Obras e grande prefeito de Curitiba, arrojado semeador de benfeitorias públicas, como mais tarde seriam o interventor Manoel Ribas e os governadores Bento Munhoz da Rocha Neto, Ney Braga, Paulo Pimentel, Jaime Canet Júnior, José Richa e Álvaro Dias, principalmente.

Os grandes vazios populacionais do território, que persistiram até o advento da República, foram sendo ocupados em ritmo acelerado. Núcleos de trabalho e civilização foram implantados, com árduo esforço e derramamento de sangue, por migrantes do Rio Grande do Sul nas terras férteis do Sudoeste e Oeste, originando cidades pujantes como Pato Branco, Francisco Beltrão, Cascavel, Toledo, Palotina, Marechal Cândido Rondon, Campo Mourão e Assis Chateaubriand, entre outras.

O desbravamento das regiões norte e noroeste, cujo modelo de ocupação deu-se conforme plano de investidores ingleses destinou-se à implantação da cafeicultura e atraiu milhares de agricultores paulistas e mineiros, além de trabalhadores nordestinos e japoneses. Núcleos primitivos fixados em Ribeirão Claro, Santo Antonio da Platina, Jacarezinho e Cambará, a partir da década de 30 do século passado foram seguidos por Londrina, Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, Maringá, Paranavaí e Umuarama, entre dezenas de outras cidades de porte médio ou pequeno igualmente importantes na recente história do extraordinário crescimento do Estado.

Em 1900, segundo o morretense Rocha Pombo, que já falava na necessidade de levar o progresso ao interior (“Não fiquemos, portanto, em Prudentópolis,”), Curitiba suportava tráfego diário superior a mil veículos e ostentava uma linha exclusiva de bondes entre o Batel e o Fontana! Sofisticação e luxo é isso aí.

“Tinha já a cidade a azáfama de um grande centro,” empolgava-se. O historiador estava com a razão e um vislumbre de sua capacidade de antecipar a realidade está no fato de que somente esse ano mais de 18 mil acidentes de trânsito foram registrados na capital, e na véspera dos feriados prolongados as centenas de carroças que subiam e desciam a Graciosa foram substituídas por autêntica horda motorizada de até cinco mil veículos/hora na direção da orla.

Enfim, é a conclusão de uma história feita por gente que veio ao Paraná fecundar a dadivosa terra palmilhada desde sempre por habitantes ancestrais e, depois, por europeus ocidentais, africanos, eslavos, orientais e asiáticos. Portanto, aos Joaquins, Josés, Manuéis, Beneditos, Willis, Genaros, Estanislaus, Tuguios, Dimitris, Yuris, Moshes e Mamedes, bem como aos remanescentes dos povos que antes da civilização percorreram estas serras e planaltos, com todo o respeito, feliz natal e próspero ano novo.

Ivan Schmidt é jornalista e escritor.