O governo vem sendo acusado por empresários, pela oposição e principalmente pelos petistas de carteirinha por adotar uma política de elevados superávites primários para pagar juros aos banqueiros. Não só aos bancos, mas também a governos e instituições internacionais que emprestaram dinheiro ao Brasil. O volume desses empréstimos, representados por títulos da dívida pública, calcula-se que se aproxima de 1 bilhão de dólares. Ou até supera esse incrível montante, como sustentam alguns analistas.

Administrações passadas, que não eram petistas e tinham o PT como ferrenha oposição, sofreram ataques veementes e repetidos por adotarem essa política. Política de entesourar, obtendo superávites primários (diferença entre receitas e despesas, excluídos os juros) crescentes em percentuais sobre o PIB, o que levaria à falta de recursos para o desenvolvimento nacional, produção, geração de empregos e programas sociais. Essa oposição radicalizou-se a ponto de exigir uma moratória ou até o calote puro e simples. Todos se lembram da campanha “fora FHC”, que tinha como motivo principal o relacionamento mantido com os credores, com o aval e apoio do Fundo Monetário Internacional. E do plebiscito pela moratória.

Tudo mudou e, para quem acreditava e continua acreditando que é preciso reduzir os superávites ou mesmo deixar de entesourar seus resultados, gastando o que sobrar nessa gigantesca conta, as coisas pioraram no Brasil.

O atual governo, em posição oposta à que pregava, aumentou os superávites e decidiu destinar mais dinheiro ainda aos banqueiros, fazendo ouvidos moucos às críticas dos que querem recursos para o desenvolvimento do País e para seus programas sociais.

A longo prazo, essa política está correta. Mas, como dizia jocosamente Delfim Neto, “a longo prazo todos estaremos mortos”. O que se teme, e os fatos vêm comprovando, é que, a despeito de algumas lufadas de desenvolvimento, a miséria e o desemprego aumentem e faltem recursos para o incremento da produção.

Pois o ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, que comanda a política de entesouramento para pagar os banqueiros, acaba de vencer mais uma vez dentro do próprio governo. Os superávites para este ano, que tinham a meta elevadíssima de 4,25% do PIB, ele acaba de conseguir que suba para 4,50%. Convenceu Lula, depois de uma reunião da qual participaram os ministros José Dirceu e Guido Mantega, no Palácio Alvorada. Tem mais: cogitam de mandar mensagem ao Congresso alterando a meta para o ano que vem, também prometida para ser de 4,25%. Seria proposta uma economia de 5% ou mais do PIB.

Para Palocci, o vitorioso, “tem de ampliar o esforço de ajuste fiscal quando tem uma base mais ampla para isso, quando a economia está bem. O Brasil sempre se apertou na recessão e gastou quando estava bem. Isso não faz bem para o País”, disse.

A meta de superávites acertada com o FMI para o corrente ano era da ordem de R$ 71,5 bilhões para pagamento dos juros da dívida. Com o aumento da meta para 4,50% do PIB, somam-se mais R$ 4,2 bilhões. O ministro Guido Mantega afirma que, “com uma dívida menor, o Brasil fica cacifado, com credibilidade e menor risco-país”. Está absolutamente certo. Apenas ele e todo o governo não consideram um alto risco: o de que, destinando tanto dinheiro para os banqueiros, prolongue-se a crise interna, retarde-se a retomada do desenvolvimento e agrave-se o desemprego. A pergunta é: será que o povo agüenta?