O Comitê de Política Monetária (Copom) não tem motivo técnico que o impeça de iniciar agora a redução da taxa do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) ? usada como taxa de referência para os juros cobrados pelos bancos no país.

A Selic está em 19,75% ao ano desde maio último. Assim entende o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto.

Monteiro lembra que todos os indicadores de inflação estão em queda, no varejo e no atacado. Nos últimos quatro meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) se mantém em baixa e anotou até mesmo uma deflação (inflação negativa) de 0,02% no mês de junho, com registros de 0,25% em julho e de 0,17% no mês passado, o que dá inflação acumulada de 3,59% de janeiro a agosto. Bem menor, portanto, que os 5,49% de igual período de 2004.

Como atesta a pesquisa semanal que o Banco Central realiza com uma centena de analistas de mercado e instituições financeiras, os reajustes de preços estão contidos também no decorrer deste mês, em que pese o aumento dos combustíveis na semana passada. Mas, de acordo com a pesquisa da última sexta-feira, todas as projeções indicam que a inflação manterá nível discreto também nos meses seguintes, de modo a encerrar 2005 com IPCA em torno da meta oficial de 5,1%.

Os empresários e analistas de mercado apostam que a redução da taxa Selic começará hoje. Os economistas, conhecedores da posição quase sempre conservadora do BC, aguardam pequena queda, mas os empresários reivindicam atuação mais ousada que favoreça investimentos e geração de postos de trabalho. Eles defendem a volta pelo menos ao patamar de 16%, que vigorou de abril a setembro de 2004.

Mas, coincidência ou não, o IPCA naquela época dava sinais de fortalecimento, acompanhando o crescimento da economia de então. Tanto que a inflação registrou 0,71% em junho, 0,91% em julho e 0,69% em agosto, acendendo o sinal amarelo da autoridade monetária. Daí a retomada do processo de aumento da Selic no mês seguinte, com ajuste de 0,25 ponto percentual ? calibragem repetida em outubro.

Embora a inflação tivesse cedido nos meses de setembro (0,33%) e outubro (0,44%) do ano passado, ela recrudesceu nos meses seguintes, marcando 0,69% em novembro e 0,86% em dezembro, coincidentemente com o aumento da calibragem dos juros em 0,5 ponto percentual até março deste ano, com mais 0,25 em abril e maio, de modo a que o "aperto" monetário somou 3,75 pontos percentuais.

A inflação foi contida a "pulso", mas o efeito colateral disso custou caro para o país, via aceleração do aumento da dívida pública interna. A dívida mobiliária e as operações de mercado aberto somavam dívida total de R$ 841,11 bilhões em agosto de 2004, e em julho deste ano fechou em R$ 951,20 bilhões, com majoração de 30,9%, em que pese a desvalorização do dólar de lá para cá. Acontece, porém, que mais de 50% da dívida é referenciada com a taxa básica de juros.