É fato: num boteco de beira de estrada há uma tosca placa onde está escrito, ou melhor, rabiscado: ?Pão com mantega – R$ 0,30. Pão sem mantega -R$ 0,25?.

Certamente o sobrenome do novo ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, que substituiu o antes todo-poderoso e hoje todo-espinafrado Antônio Palocci, embora seja uma proparoxítona, não leva acento circunflexo porque é de origem italiana. Isso leva muita gente a pensar que é ?mantega?, ou manteiga, em português, uma paroxítona. Pois não é de se esperar que a condução da política econômica por esse auxiliar de Lula seja muito diferente do que vinha fazendo Palocci. A diferença não será maior que a do preço de pão com manteiga e pão sem manteiga.

Já na primeira hora, e muito sabiamente, ele falou ao mercado, ao Brasil e ao mundo que vai manter as linhas mestras da condução econômica imposta pelo médico e ex-prefeito de Ribeirão Preto, ou seja, a mesma praticada por Pedro Malan no governo FHC. Ela se caracteriza pela busca incessante e não raro esfomeada de superávites primários os maiores possíveis, para pagar os juros da dívida pública interna e externa e mostrar ao mundo financeiro que este é um governo confiável. Que, por isso, o Brasil merece tanto o capital especulativo como o de risco, aquele mais freqüente e volumoso e este mais raro e ainda dependente de tentativas, quase sempre frustradas, de pôr em prática a política das PPPs, ou Parcerias Público Privadas.

O resultado dessa política que agora continua, talvez com diferenças tão pequenas quanto a presença ou ausência da manteiga no pão, é faltarem recursos para o desenvolvimento econômico verdadeiro, aquele que gera produção, novos empreendimentos industriais, comerciais, de serviços e agrícolas. E cria o que mais aguça a nossa fome: empregos.

Mantega difere de seu antecessor, na análise da situação econômica do Brasil e da trilha que deve ser seguida, em pouco ou quase nada. Em algumas oportunidades, disse ser contrário à política de juros escorchantes, porém justificada pela necessidade de impedir o crescimento da inflação. Agora, repete o mesmo refrão, embora faça uma profissão de fé na contenção do processo inflacionário, o que permitiria um rumo descendente das taxas de juros. Mas, desde logo, vai dizendo que essa política de juros de certa forma já vem sendo praticada e que respeita a autonomia do Banco Central, com cujos especialistas e dirigentes quer conversar, sem nada impor.

Continuamos com pão, só que agora com manteiga.

Indicativos de que a política fiscal ortodoxa vai ser mantida não tardaram a aparecer. O ex-ministro da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, que a conduziu, mesmo atacada pelos petistas de neoliberal, o que para as esquerdas é nome feio, veio a público para elogiar o rígido controle fiscal do governo Lula, com Palocci e agora com Mantega. Líderes da oposição no Congresso, os mesmos que tanto trabalharam para defenestrar o ministro Antônio Palocci, foram à tribuna para enaltecer sua política ortodoxa, tão do desagrado das esquerdas e merecedoras de toda a fé do centro e da direita. Dirigentes de segmentos empresariais, como o presidente da Fiesp, não negaram uma profissão de fé na ortodoxia fiscal que esperam será a trilha de Guido Mantega.

Se nas hostes governistas havia alguma esperança de que a política econômica poderia ser a linha de frente da campanha de Lula à reeleição, que se transforme em fé, pois fica tudo como já dantes. E é rezar que fatores externos não venham entravar o desenvolvimento conseguido, mais fiscal que econômico e mais por força da atividade privada que por verdadeiros esforços e ações do governo. E, ainda, fiquem atentos para o fato de que a queda escandalosa do homem forte do governo Lula mancha, ou pelo menos lança uma escura sombra sobre a administração Lula e a visão condescendente que dela tem a opinião pública.