José Serra, com a metade dos votos que o eleitorado deu a Lula, ainda assim terá uma segunda chance. Por muito pouco o candidato petista não foi eleito já no primeiro turno. O tempo que falta para o segundo turno é bastante exíguo para que muito seja debatido e ocorram mudanças importantes nas posições do eleitorado. Há quem diga que o segundo turno é como uma nova eleição e que tudo parte do zero. São evidentes as vantagens com que Lula chegará a 27 de outubro, data do segundo turno da eleição. Ele firmou-se como o candidato das oposições, candidato de protesto e de mudanças numa hora em que a crise internacional soma novas dificuldades ao Brasil e ao governo de FHC, que apóia Serra.

Há, entretanto, uma possibilidade de mudança na posição da maioria do eleitorado, pondo em risco a vitória hoje tida como quase certa do candidato do PT. Referimo-nos aos debates pré-eleitorais. Serra insiste que quer vários debates na televisão e no rádio sobre os temas mais importantes para o Brasil. Debates em que os problemas e suas causas sejam identificados e apresentadas, por ele e por Lula, as soluções que pretendem aplicar e como o farão, se eleitos. Algo prático, objetivo e, antes de mais nada, realizável. Logo após o primeiro turno das eleições, Serra chegou a falar em vinte debates sobre vinte temas, o que parece impossível diante do pouco tempo que resta para a realização do segundo turno eleitoral. Hoje, certamente se conformaria com quatro ou cinco debates, desde que lhe dessem a oportunidade de confrontar-se com Lula, para tentar provar que é mais capaz de formular diagnósticos sobre os grandes problemas nacionais e apontar soluções factíveis. E que está mais preparado para presidir o Brasil, mercê de sua experiência administrativa, legislativa e embasamento acadêmico. Não se espera, nesses pretendidos debates, a baixaria das ofensas pessoais, mesmo porque é sabido que Lula e Serra se respeitam. Se respeitam até o limite que o embate de uma campanha permite.

Lula, certamente aconselhado por seus principais assessores, insiste que só aceitará um único debate, coberto por um “pool” de emissoras de televisão, e isso somente na véspera do segundo turno. Ou seja, quando será muito mais difícil o eleitorado mudar de lado. O argumento de Lula é plausível, embora não muito crível. Ele insiste que o tempo que falta para o segundo turno é curtíssimo, o que é verdade. E o programa dele, como candidato, com visitas a vários estados e multiplicação de contatos que consolidem sua esperada vitória, tomarão todo o seu tempo. E ainda faltará tempo.

São urgências que também afligem Serra, mas este aposta em vitórias sobre Lula nos debates. Quando um não quer, dois não brigam. Assim, se Lula não quer os debates, eles não acontecerão. Qual dos candidatos ganhará com o silêncio? Lula evitará que Serra exiba, perante o eleitorado, sua presumível superioridade em experiência e base intelectual. Mas correrá o risco de, nos programas de Serra na televisão, em seu “site” na internet e via imprensa, ele apresente um Lula correndo da jogada. Como no último debate havido entre os candidatos, pouco antes do primeiro turno, ficou evidente que o candidato do PT, embora eloqüente e convincente, não estava confortável diante de assuntos mais complexos, deve este temer que o silêncio possa não lhe ser favorável.