As experiências de dar e receber alegrias se estendem às experiências de dar e receber presentes em datas especiais, gestos de pessoas cujo querer bem se expressa também materialmente, não importando o preço, mas o gesto e o significado cultural. Para os polinésios, por exemplo, como bem relata Marcell Mauss (Ensaio sobre a dádiva, in Sociologia e Antropologia, 2003), existem mecanismos espirituais que obrigam a retribuir todo presente recebido. Objetos, comunhões e ritos trocados são chamados de taonga os quais carregam uma força mágica que obriga a retribuição de quem os recebeu se não quiser correr o risco de ser destruído.

No modo de ver dos polinésios, “os taonga e todas as propriedades rigorosamente pessoais têm um hau, um poder espiritual. Você me dá um taonga, eu o dou a um terceiro; este me retribui um outro, porque ele é movido pelo hau de minha dádiva; e sou obrigado a dar-lhe essa coisa, porque devo devolver-lhe o que em realidade é o produto do hau do seu taonga.” (Mauss, 2003, p. 198). Se existe esta obrigação, é porque a coisa recebida não é inerte. Por meio dela, o doador tem poder sobre o beneficiário. O hau ou espírito quer voltar ao lugar do seu nascimento, ao santuário da floresta, do clã e ao proprietário.

Mauss (2003, p. 200) deixa claro que nesse sistema de idéias é “preciso retribuir a outrem o que na realidade é parcela de sua natureza e substância; pois, aceitar alguma coisa de alguém é aceitar algo de sua essência espiritual, de sua alma; a conservação dessa coisa seria perigosa e mortal, e não simplesmente porque seria ilícita, mas também porque essa coisa que vem da pessoa, não apenas moralmente, mas física e espiritualmente, essa essência, esse alimento, esses bens, móveis ou imóveis, essas mulheres ou esses descendentes, esses ritos ou essas comunhões, têm poder mágico e religioso sobre nós. Enfim a coisa dada não é uma coisa inerte.”

Além disso, entre os polinésios existem dois outros momentos quanto às relações de trocas: a obrigação de dar e a obrigação de receber. Em um clã, os membros das famílias, um grupo de pessoas, um hóspede, não têm liberdade para não pedir hospitalidade, para não receber presentes, para não negociar. Por outro lado, a recusa de dar, ou recusar receber, equivale a declarar guerra: é recusar a aliança e a comunhão.

É interessante o que Mauss (2003, p. 204) enfatiza a respeito das sociedades do nordeste siberiano e dos esquimós do Oeste do Alaska: “As trocas de presentes entre os homens (…) incitam os espíritos dos mortos, os deuses, as coisas, os animais, a natureza, a ser generosos com eles. A troca de presentes produz a abundância de riquezas”.

Na tradição cristã, a troca de presentes teve origem com o nascimento de Jesus Cristo. Os reis magos, que chegaram de longe, lhe ofereceram ouro, incenso e mirra, em troca do presente que Deus deu à humanidade. Pela presença de Cristo e por sua palavra, sempre há um presente indo e vindo entre Deus e a humanidade, que dá sentido à vida das pessoas, mesmo quando existe sofrimento. Segundo Evilásio Alves Tavares, empresário que atua em Maringá-PR, “quando as coisas parecem complicadas, a primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 10, versículo 13, diz: “Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela”. Existe a troca de fidelidade.

Os índios do Alto Xingu, desde a época de criação do Parque Indígena naquele local, faziam trocas intertribais, como observou o antropólogo Eduardo Galvão citado pelo Instituto Socioambiental (2003, p.1, www.ambientebrasil.com.br). Os diferentes povos se especializaram em um determinado item para ingressar na rede de trocas. Os Waujá confeccionavam peças de cerâmica; os Kamayurá, arcos de madeira preta; os Kuikuro e os Kalapalo, colares de caramujo, e assim por diante.

O espírito de troca não está presente somente na Polinésia, no nordeste siberiano, entre os esquimós do Oeste do Alasca, no espírito cristão e entre os índios. De seu modo, os imigrantes que vieram para o Brasil, por exemplo, ensinam aos seus filhos que ao devolverem vasilhas que receberam com dádivas alimentícias devem colocar algo ali que mostre reconhecimento, partilha e amizade. O doador não se sentirá diminuído se tal reconhecimento nada acrescentar materialmente à sua abundância ou à sua pobreza, pois o que está em questão é que naquilo que vai e naquilo que vem, cada qual em sua especificidade, vai e vem algo invisível que tem significado para ambos, a aliança.

Na prática cotidiana, uma maneira de trocar alegrias é a visita dos filhos aos pais: “Quando você leva alegria para eles, volta carregado de maior alegria a qual parece não caber no coração. A alegria, que você pensou que levaria, acabou ficando tão maior que ilumina seus dias e suas noites de tal modo que você a revive durante meses. A alegria nasce da simplicidade. As coisas simples fazem bem ao espírito”, disse Evilásio Alves Tavares ao comentar sobre as festas de fim de ano.

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Zélia Maria Bonamigo é Jornalista, especialista em Mídia e Despertar da Consciência Crítica, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.E-mail: zeliabonamigo@uol.com.br